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terça-feira, 15 de novembro de 2016

Excerto do inédito "Visitação" - Rui Carvalho

Gravito em torno de meu umbigo. É isso. Gravitamos em torno de nossos umbigos. Somos habitados pelo mal, desde o início dos tempos. Desde o princípio dos tempos, nossos corações, nossos corações são sinalizados na ambiguidade. O coração humano é um local ambíguo. Na ambiguidade tornei-me cínico, capaz de matar. Com o tempo, no correr do tempo fui arrancado a meu coração. Em seu lugar cicatrizou o mal. Sou o mal cicatrizado. Não já em ferida. A ferida foi suturada. Sou a cicatriz de minha infância. Por vezes julgo ser possível, por vezes julgo poder regressar, regressar à longínqua inocência. Regressar ao longínquo lugar de todas as possibilidades. Ter uma bola nos pés ou um berlinde entre mãos. Ter uma bola nos pés ou um berlinde entre mãos e o mundo ser isso mesmo. Só isso, nada mais. Por vezes julgo poder voltar a adormecer cansado de tanta clareza. Voltar a adormecer tocado pelo sol, pelo distante marulhar das águas tocando as areias da praia. Contudo, somos rios que não voltam à nascente. É isso. Desaguamos no mar. Desaguamos o imenso oceano da dúvida. Por vezes venho à tona. Por vezes dou à costa, junto com os demais detritos. O oceano é imenso, o oceano é demasiado para ser sequer pensado. Com o tempo. Com o correr do tempo tornei-me uma constante insónia. Com o tempo, com o tempo fui perdendo a capacidade de afecto. Tornei-me duro. Firme como rocha. Pelo menos por fora. Somos personas. Somos personagens numa farsa. Representamos papéis. O meu papel é a dureza. Embato-me com o mundo. Foi para isso que fui treinado. Treinei-me para vencer o mundo, para abrir passagem. Em Jerusalem. Em Jerusalem somos aclamados salvadores. Em Jerusalem, em Jerusalem somos chamados genocídas. Depende do ponto de vista de quem nos olha. Tal qual o coração, tal qual o coração, também o olhar é um local ambíguo. Somos ambíguos por todo o lado. Somos percorridos pela ambiguidade. É isso. Somos o melhor e o pior de nós mesmos. Para nós e para os outros. Fui treinado para a luta, para matar ou morrer. Lutei pela divina promessa da Terra arável junto ao rio. Sou orgulhoso de meu povo. Sou orgulhoso do padecimento. Sou orgulhoso da tormenta e da aflitiva escassez. O padecimento adaptou-me, tornou-me apto a sobrevir as piores circunstâncias. 

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