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domingo, 20 de novembro de 2016

Entrevista a Sebastien Void - XV

Entrevista a Sebastien Void 

XV

Rui Carvalho: a farsa e a trama do sucesso. Podes esclarecer-nos melhor em que consistem esses dois conceitos, se é que são conceitos distintos entre si?


Void: cada indivíduo, cada um de nós, é, à partida, uma perspectiva em aberto. Somos uma miriade de pontos de vista em aberto. Cada um de nós vê o mundo a partir de um prisma que lhe é próprio, que lhe é único. Tal facto deriva não só da nossa situação espacial, mas sobremaneira da nossa situação vivencial. Isto é, cada um de nós ocupa o seu próprio espaço no mundo. Não somente um espaço fisico, mas especialmente um espaço existencial. Cada espaço físico, cada espaço existencial é único, impessoal e intransmissível. Contudo, ao sermos lançados na sociabilidade esse ponto de vista é preenchido com uma determinada visão de mundo que nos é socialmente auto-incutida. Incutida na perspectiva da sociabilidade, cada perspectiva individual deixa de ser algo particular para se tornar algo genérico e comum a todos os eus. Os modos do adestramento e do condicionamento constituem-nos num ponto de vista condicionado e determinado. Adestrada e condicionada, a nossa perspectiva individual passa a ser em tudo idêntica à de todos os outros eus. A farsa é justamente o palco onde nos interpretamos nos papéis que nos são dados interpretar. A farsa é o palco onde nos interpretamos no lugar de todos os outros eus. Os papéis são-nos dados a escolher. Podemos escolher ser figuras ou figurantes. Contudo, a nossa escolha não é propriamente uma escolha livre. A nossa escolha depende em muito das nossas capacidades histriónicas, bem como da nossa destreza social. A esperteza, a esperteza é uma condição essencial ao sucesso. Nas sociedades de consumo ocidentais e ocidentalizadas a farsa é urdida na trama do sucesso. A trama do sucesso é teleológica. Nas sociedades de consumo tudo se trata de sucesso e insucesso, de ser ou não ser-se famoso ou bem sucedido. O receio do fracasso contrapõe-se ao atingir da meta, da meta teleológica do sucesso. No caso das sociedades de consumo ocidentais, o receio do fracasso encontra-se de tal modo impregnado nas nossas peles que nos faz perder por completo o sentido de realidade. Sem sentido de realidade somos levados na leva. A ausência de sentido de realidade impede-nos de sermos tocados pela adversidade. A experimentação do toque do mundo é uma condição essencial da nossa abertura para o desvelar-se do conhecimento. No entanto, enquanto nos deixamos manter imersos na trama do sucesso, o toque é-nos inócuo. Os toques da adversidade são-nos apresentados como casos de azar. Somos visitados pelo azar, dos mais diversos modos e maneiras. Somos jogados na sorte e no azar e, enquanto nos sentirmos jogados na sorte e no azar, jamais estaremos aptos a ser feridos no toque do mundo. A farsa cifra-se, pois, na constituição de um ponto de vista artificial, o qual nos é facultado pelas estratégias da sociabilidade. Sendo que nas sociedades de consumo a farsa é erigida a partir da trama do sucesso. A trama do sucesso constitui-se  como o dar-se em acto de uma farsa.

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