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domingo, 28 de outubro de 2018

Útero - XXII - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho



 Ausente para somas e subtracções, retrocedo a um tempo ímpar. 
Música, apenas música, os seus múltiplos ângulos e arestas. 
E.
Deus, na proporção inversa do cansaço. 
Quanto mais cansados mais perto estamos da falência, do soçobro dos orgãos vitais. 
Há uma estrada ligando os continentes e o medo sufocando a minha voz. 
A ordem das coisas é o caos, não o conhecimento. Estamos em situação, somos seres sitiados; nada do que verdadeiramente importa  pode ser-nos explicado ou demonstrado. 
A ironia, o dissipar da ilusão.
 O sentido do ser é ser mostrado. 
Música, apenas música, os seus múltiplos ângulos e arestas. 
E.
Deus, na proporção inversa do cansaço. 

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

domingo, 19 de agosto de 2018

Útero - XXI - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho



Este é o amor, síncrono. Habitamos planetas distantes. Tu ali e eu aqui. Há que rasgar a pele, lembras? Mostrar aos ossos as suas vísceras. E o silêncio, um espaço ainda simples. Sem rasgos de luz, ainda não. Quando estiver perto avistarei teu nome. 
Desde onde os rios correm? E as palavras? Desde onde nos perdemos? 
Lá em baixo havia água. Na nossa infância enchíamos os cântaros, levávamos a luz na pressa exangue de nos perdermos. 
Depressa nos tornámos homens, gente tão indecifrável. 
É claro que não sei… 
As perguntas são difíceis, minha filha. Num qualquer século impossível tornar-nos-e-mos hologramas. Sim, seremos visíveis para sempre. Mas não é isso que importa. Ou. Será apenas isso? Deus é um pronome impossível, uma espécie de luz isenta de matéria. Porque não os hologramas? Porque não sermos apenas luz? Uma vibração preenchendo as galáxias, o espírito correndo por dentro de nós…

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

segunda-feira, 11 de junho de 2018

Útero - XX - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho



Basta alterar as cores do mundo para que o mundo pareça ser outro. No entanto, tudo se mantém o mesmo. Imitamos a vida longe da lava e longe da vida tornamo-nos gastos. 
As casas envolvem-nos os gestos. Nós envolvemo-nos nas pretensas certezas. Assim vamos camuflando os dias. Camuflados nos dias avançamos noite adentro. Cingimos a pele com a roupa adequada buscando o centro das coisas. 
Esta sede de alcançar o brilho. 
Confundimos a felicidade com o bem estar. Talvez seja sensato. A felicidade é um tempo fugaz, foge-nos das mãos como a areia da praia. Sejamos pois comedidos. Queiramos um brilho que não brilhe muito. Contudo, "uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa". Um pouco de método é o que se exige. 
Os lugares construídos pelos homens não são lugares felizes. O nosso bem estar colide com o bem estar dos outros e para que tudo batesse certo seria necessário ilidirmos de nós a ganância. Ou seja, a soma dos corpos é idêntica à soma dos mundos. Cada corpo é um lugar próprio e intransmissível.
São estes os factos que nos condicionam. 
Nem felizes nem infelizes, vamos divergindo até à hecatombe. 

Rui Carvalho, s. d.

domingo, 3 de junho de 2018

Útero - XIX - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho



Entre uma casa e outra há o ofício do barro. Como um espelho, o húmus germinando até à ausência do solo. Nas cavernas descobrimos abrigo. Depois, desde a lonjura do verbo até ao lugar onde existimos, distamos alguns milímetros do fogo. 
A determinada altura há uma cisão. 
Nas sombras alcançamos a parecença das imagens. Como tochas acesas sinalizando a luz, nelas ardemos até à incompreensão. 
Tocadas em tons dóricos as escalas do fogo indiciam-me o caminho, os lugares inóspitos onde os homens não passam. Sigo as imagens, o intacto silêncio das pedras. Será aí que transpareceremos. 
É  necessário chafurdarmos no lodo para sabermos de onde provimos. 
Aguardemos pois a água e a lama, todos os lugares desabitados. Transcorrendo o rio Jordão,  desde o lugar onde se desce até ao desaguar no mar morto, há um mundo de permeio. 
Entre a água e a lama ocorrerá a vida, a tentação da queda, tão grande quanto a vontade de nela sucumbirmos. 
Que o desejo cresça tanto que nos tornemos Dioniso - as formas do vinho, o furor da paixão.

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho



sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Útero - XVIII - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho



A cal das paredes oculta uma terrifica verdade - Antígona - emparedada entre o amor e o sacrifício. 
Contudo, nada de preocupações. Sejamos cegos para o visível. Vejamos apenas a superficialidade das coisas. Talvez desse modo fiquemos a salvo do temor. 
Ainda assim, os cigarros fumados revelam-nos um tique neurótico.
Ah, mas deve haver qualquer coisa. Deve existir qualquer coisa dentro das paredes e é essa qualquer outra coisa que nos assusta. 
Restar. É esse o exacto e terno verbo que nos define. Somos a restar. Há gente que se resta, que dura séculos, milénios. Há gente que se gasta no perpetuar da sua infância. 
E.
De qualquer modo, haverá mulheres bonitas inalando o meu cheiro e só isso poderá já justificar uma vida; e uma morte também.

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho




quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

Útero - XVII - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho



Há um assomo de tristeza habitando o interior das casas quando os frutos abandonam o coração das árvores. 
Lá fora há o mundo e o mundo gera o medo. Os anos decompõem-nos as estações e a cada estação a dor aumenta em nosso peito. Vivemos a secura dos frutos e secos nos deparamos. 
Sim, o inverno dos dias é o tempo de todas as partidas e todas as partidas nos conduzem a quem  poderíamos ter sido.
Proviemos na neblina e aí nos insolvemos. 
Depois é tarde, demasiado tarde. 
Os frutos cingem-nos no medo, e no medo nos afogamos. Deixamos-nos afogar na expectativa do porvir até à impossibilidade do regresso.
Somos premissas de um mero silogismo, até nos tornarmos irrefutavelmente inconclusos.
É assim, é sempre assim que o amor nos seca.

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho


terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Útero - XVI - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho



O mar invade o pleito do meu fígado e hoje é já a tarde em que partiste. Depois, amanhã é um qualquer cinzeiro aguardando as cinzas do que fomos. De qualquer modo, é o vigor metafísico da paisagem que nos aproxima da melancolia. Há estes passos que nos alongam as manhãs; e é necessário segui-los até ao cerne das metamorfoses.  
Entretanto.
Entretanto vão chegando os vendedores de castanhas, julgo terem sido eles a trazer-me o cheiro da maresia.
E o vinho, o vinho não colmata já a tua ausência, a sequiosa precisão desde onde me chegavas.
Ainda assim, um oásis é o lugar onde sede e água se juntam como possibilidade e há ainda vários caminhos que precisam ser percorridos. Antes de lá chegarmos, de tocarmos o cerne da paisagem, lidaremos com miragens. É exactamente isso que somos uns para os outros, miragens que se erguem rente à precisão dos nossos olhos. 
Há contudo esta evidência larvar percorrendo o antro das coisas. E não obstante sermos cegos, tanto para o demasiado grande quanto para o pequeno em demasia, deve haver uma qualquer magia que nos funda. 

Tudo se trata de uma questão de fé.

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Útero - XV - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho



Há uma estranha gente crescendo com o que resta do mundo, erguendo nos ombros a proximidade do fogo. Comigo procuro uma matéria terrifica. O perplexo olhar dos espelhos, qualquer sopro rondando-me o susto. Não somos outra coisa que não esta névoa gravitando a orla das coisas, os passos perdidos de quem ainda nada entendeu. 
Deve ser mesmo assim. Tudo começa nesta necessidade de praticar o espanto. Depois há pássaros que voam e outros que não. E nós, que não somos pássaros e queremos voar…
Em tempos prendi-me em tuas asas. Devo ter voado perto de Ícaro, pelo menos a julgar pelo som, pela incandescente matéria rondando-me o corpo. Nossas vozes devem ter rasado a melodia do mundo. Sim, devemos ter sido por um triz. 
Contudo, após rasarmos o fogo tornamo-nos outros. É inevitável que assim seja. Que alonguemos os passos até não sabermos onde é o lugar da perda de pé.  
Deve ser mesmo assim, rasamos a melodia das coisas para depois nos perdermos no acicatar das desarmonias. 

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Útero - XIV - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho


Necessitaríamos superarmo-nos, tornar-nos outros a cada instante. Rodar em círculos até à previsão do mágico toque dos druidas. Contudo, somos esquecidos da magia das coisas. Teimamos em apegar-nos às vicissitudes, a toda esta estupidez. Deixamo-nos cercar pelo mundo até que o mundo nos seque. 
Percorri a lonjura dos trilhos para me distanciar do medo, escondi-me de mim mesmo até tornar-me toda esta inanidade. É muito mais fácil habitarmos o cerne da distração. Sentarmo-nos à mesa e dizermos tudo o que não importa.  
Pois é, somos esta gente vaga que se mina na perfídia. Fogos fátuos, pouco mais que fogos fátuos; ardendo na imensidão deste deserto.
Um dia habitarei os relevos da paisagem, crescerei junto às ervas. Com as ervas atingirei o norte dos meus sonhos. Habitei então alturas descabidas, lugares onde é proibida a permanência. 

Sim, somos tiros no escuro. E não, não há vitórias antecipadas.

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Útero - XIII - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho



Procuro na água a fundura dos poços. Sim, mesmo desconhecendo qual a razão que funda todas as assimetrias. 
Continuo a procurar. 
Fogo e água são opostos desde há muito identificados. Contudo, não foi ainda possível discernir com clareza qual o sentido da angústia, qual o motivo que nos distancia uns dos outros. 
Será por sermos cegos que não vislumbramos um passo que seja à frente dos nossos olhos? Deve ser isso, o nevoeiro é uma viagem agreste e nós não estamos aptos a ver o fundo das coisas. 
Somos gente superficial, tragando cerveja nos cafés. E as mulheres, em casa, tricotam a vida que não tiveram. 

Não. Não deve ser aqui que te encontro. Os ponteiros marcam as horas e o tempo é infalível. 

Pronto. Já está. É chegada a hora de partir. E eu, eu que tenho pleno conhecimento das horas. Como sei bem quanto as horas são exangues. 
Olho para cima e vejo o vácuo cingir-me nesta inanidade. Como deixei cingir-me? Recordo-me que dantes vestias vestidos vermelhos e o teu decote era simétrico aos meus olhos. 
Agora, agora há qualquer coisa que falta. Uma chama talvez. Uma chama, exacto. Uma chama que possa reunir-nos em torno deste desespero. 
Não, não basta não nos vermos. Não basta não querermos ver o que quer que seja. Não basta cerrarmos os olhos, tornarmo-nos fantasmas de nós mesmos. Seria necessário que fossemos tolhidos pelo mesmo comboio, aquele que está prestes a partir para depois regressar novamente. Seria necessário que a linha férrea se tornasse a nossa cama de sempre, para sempre. 

E agora? E agora que tudo arde? O que fazer quando tudo arde? 

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Útero - XII - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho


Quando iniciei o Outono ainda a morte não era profusa. Contudo, a desolação da paisagem indiciava já uma prodigiosa solidão. Junto às folhas amarelecidas sentei os primórdios da minha vida e, sentado, aguardei o devir, a água tombando a rodos. 
Todos os anos aqui voltei. 
Todos os anos aqui voltarei. 
Todos os caminhos me trarão aqui, ao simbolismo das folhas aguardando o meu corpo. Esse breve amarelecer do céu devolvendo-me a impossibilidade da permanência. 
Virá um dia em que tudo será distante. Então, com os olhos partindo abrangerei a visão de outros mundos. 
Um dia virá esse dia. 
Virá um dia em que tudo será distante. 
Um dia. 
Um dia haverá o rápido instante da partida.

Deixarei então partir meus olhos. Serei a rápida visão das águias.

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Útero - XI - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho



Seria necessário um milagre para que os carreiros deixassem de ser lugares infectos, para que reencontrássemos os caminhos; algo como o re-acontecimento de Abraão, o peito de Isaac a descoberto aguardando em desespero. Talvez assim voltasse a haver futuro, qualquer coisa outra, qualquer coisa mais que todo este passado à minha frente. 
Sem fé, condeno-me ao degredo as mãos gastas de tanto caminhar. 
Desabitei-me das cidades procurando lugares ermos, os corações em chaga dos pobres de Deus.
Transponho-me às costas o percurso até ao fim.
Talvez as palavras possam elevar-me junto ao patamar dos deuses, esse distante lugar onde o vento é certeiro. Essa é toda a esperança que me resta. 
Possamos nós ser amantes, tornar-nos loucos ou vingar na mentira. Que o amor possa visar a incerteza, torná-la um tiro certeiro nos cornos do mundo.

“Lovers, thieves, fools and pretenders!” 

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Útero - X - Fotografia: José João Loureiro; Texto: Rui Carvalho



São os flocos de neve inscritos no solo que me apaziguam a intensidade da névoa, essa promiscuidade do gelo na paisagem. 
Entretanto.
Há uma beleza que me resta desde a antiguidade do solo, uma espécie de murmúrio que me irrompe no desejo das ervas, por entre a relva resplandecendo até ser tarde. 
Aqui me habito nos desastres, é deles que me alimento.
Enquanto isso, em ânsia aguardo a aquisição deste maldito dom. Como quem guarda em si a morte do corpo, em oração me regrido até rasar o rompimento das águas. 
Após rasar o útero do mundo serei de novo prestes no dom do esquecimento, essa longínqua maldição tornando-me apto a suportar o inefável peso do saber, o alagar dos olhos até à profusão do esquecimento. 

É isto: nada resiste à barbárie dos dias, sequer os dias eles mesmos.



Fotografia: José João Loureiro
Texto: Rui Carvalho

sábado, 16 de setembro de 2017

Útero - IX - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho





No inicio nenhum peso havia. Nada mais havia a não ser o fogo, a precisão das chamas lançando-nos ao encontro da paixão. Os dias eram claros como água, e, como água, saciavam-nos as incertezas. Nada pedíamos ao saber das coisas, nenhuma verdade que pudesse perder-nos os sentidos. Vertíamo-nos no fluir das horas, nele provávamos os vinhos provindo nossas bocas. Sedentos de vida chamámos a nós os rios onde mergulhar os corpos. 
Cometemos, contudo, o erro de todos os principiantes; olhámos a copa das árvores e aí julgámos vislumbrar a certeza do mundo. Quisemo-nos colar nessa certeza, balançarmo-nos nos ramos a pressa de nos mantermos os mesmos. 
Caminhámos até onde foi possível caminhar, até à insuficiência das possibilidades. Sim, o percurso daquilo que queremos é sempre mais longo que as possibilidades disponíveis; a exiguidade do mundo nunca se mostra suficiente quando a vontade nos é em chamas. Assim, continuamente nos espatifamos de encontro à realidade, e, após nos espatifarmos, ansiamos tornar-nos invisíveis. Tentamos gestos impossíveis para não voltar atrás, para não desistirmos dos sonhos. 
Tal como o mundo, somos em metamorfose, e isso é tudo o que sabemos. Tornamo-nos outros a cada segundo e o tempo é uma realidade impossível de suster; as intempéries contrariam-nos a vontade, dotam-nos com a insegurança das coisas. 
Fomos de mãos dadas até ao suor das mãos e foi esse o lugar onde escorregámos os corpos. 
Percorrermo-nos de novo seria persistir no mesmo erro, termos de novo nossas vidas em desalinho, mantermos-nos textos que já não batem certo com o vicejar das paisagens. 

De qualquer modo, fomos até onde deveríamos ter ido, até ao findar das possibilidades…

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho



quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Útero - VIII - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho



São as perspectivas que nos dimensionam o olhar, tudo o resto em seu redor. Olhando compulsivamente na mesma direcção somos adquiridos nas paisagens. A habituação enforma-nos ao ponto de nada vermos excepto o que nos é oferecido. 
É isto: 
o oferecimento do mundo tolda-nos os olhos, e de olhos toldados caminhamos a inoquidade. Em pouco tempo tornamo-nos o que pretendem: vozes acéfalas votadas à familiaridade do mundo. É a familiaridade das paisagens que nos incute a estar aí sem mais. 
Ainda assim, há quem se anseie no tropeço, quem caminhe a possibilidade última de sentido. 
É pois necessária uma devoção, um fito elevado à máxima potência, qualquer coisa como a arte tornada vida, ou, vice versa. É fundamental transbordar as possibilidades, todas as direcções. Treinar depois o vertiginoso acto de estar só, fazer com que o solipsimo vingue o inaudível murmúrio do mundo. Saber ensaiar-se na arte do salto, o primeiro gesto que nos ocorra. Correr velozmente em direcção ao precipício e estancar no último instante. Aí permanecer o tempo necessário à paragem do coração. 
Olhar então em redor e ver tudo de novo, auscultar a realidade, o olhar primevo.

Aguardar que o coração nos ocorra, pela primeira vez.

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

sábado, 12 de agosto de 2017

Útero - VII - Fotografia: José João Loureiro; Texto: Rui Carvalho



Em pouco tempo serei traçado pelos navios. Cargueiros de grande porte sulcar-me-ão os rombos em minha carne. Aí se reabrirão cicatrizes onde o inciso desejo buscará o seu lugar. 
Serei então perdido para te encontrar. Sofrerei de inadequação, esse vírus onde germina o ócio, a inteligência das coisas.  
Tornei-me um acidente alimentado pelos mares, pelos terríficos oceanos, esses distantes lugares onde escreverei para não morrer de tédio e não matar de ódio. 
Tal qual Jesus Cristo, fomos abandonados pelo Pai, e, no abandono nos tornámos órfãos de nós mesmos.
Contudo, jamais deixarei a vida ser coisa pouca. 
Quando o mundo chegar para me abater estarei pronto, 
                                                                                   serei já literatura.


Fotografia: José João Loureiro
Texto: Rui Carvalho

terça-feira, 25 de julho de 2017

Útero - VI - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho


       
Não, não somos nada, nem o nosso destino nos ocorre nem poderemos dar qualquer destino ao destino dos outros. As manhãs não frutificam, jamais frutificaram; interrompidas pela sede das coisas estilhaçam-nos agora nesta febre. Brindemos pois o Sol como quem brinca com a poeira, essa efemeridade das coisas. 
Somos perdidos entre os dias, desde a epifania da pele até ao silêncio dos crepúsculos. 
Ainda assim, são tão lindas as mulheres povoando-se na transparência. Os vestidos subindo-lhes as pernas até ao lugar dos afectos. 
Vermelhos, os decotes escorrendo-lhes até aos seios. 
Não, não há claridade que nos revele nossa tez, nada mais que o obscuro equilíbrio do tropeço. Caminhamos várias direcções, as várias cores que nos elegem; longas estradas onde o gelo ainda nos arde. Somos em redor de nossa pele, uma eterna fuga ao suplicio de não saber onde ficar. Como faquires, treinados no ilusionismo, levitamos os pregos do caixão, as almofadas dormindo-nos os ossos, tolhendo o impacto dos projécteis em redor.  
Deixei o amor para mais tarde, esse reino que jamais foi meu. 
Os vidros podem estilhaçar-nos a vida, todos os ecos vibrando desde longe. Tudo pode ser estilhaçado, tudo. 
Tudo excepto a grandeza, o que poderíamos ter sido.

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

sábado, 15 de julho de 2017

Útero - V - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho



É a perecível beleza das coisas aquilo que mais nos indicia no abismo. Não, não se trata de rugas e do fenecimento dos corpos, mas de saber que sempre que uma porta se abre há um mundo que atrás de nós se fecha. 
Seguimos as portas abertas, a solidariedade abandonada ao fenecimento, toda a beleza do mundo soterrada no engodo. 
Sim, Hamelin é uma longa estrada que nos enrola o pescoço, uma espécie de cordão umbilical do qual não nos cortámos ainda. 
Seguimos o encantamento do flautista, as notas ofegantes de quem busca algum sentido. 
É este o problema: ser a polis infestada de ratos. 
As cidades são infestadas de ratos e os esgotos seguem-nos todo o caminho. Ao contrário da fábula, a hipnose traz-nos a infestação para dentro das cidades. 
Após os campos, são agora as cidades minadas pela peste, esta estúpida gente que deixamos nos governe.  
Ratos de esgoto - esse é seu nome. 
Não. Os ratos não foram afogados no rio e a culpa é só nossa. Fomos cegos para as vozes que deveríamos ter ouvido e assim tornámos o rio Weser um esgoto a céu aberto.
As crianças abandonaram a cidade, trancaram-se nas cavernas para de nós se protegerem. 
Tornei-me este maldito manto de silêncio e tristeza:
muitos ratos 
criança nenhuma.

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

terça-feira, 11 de julho de 2017

Útero - IV - Fotografia: José João Loureiro; Texto: Rui Carvalho



Apreender a técnica para girar até à possibilidade do polimento, a transmutação deste lugar num lugar vazio. Adquirir a forma da vagueza. Ser vago, tanto quanto possível. Atingir assim o cerne da necessidade de repleção. 
Chamar a si a atração gravitacional, a repercursão do prodígio galáctico nas circunstâncias moleculares. O humano e o divino centrando o universo, girando o mundo até à plenitude da ausência. 
Entre a cabeça  e os pés, a continuidade do giro. 
Girar no sentido horário. 
Após várias voltas, levantar a palma direita da mão e abaixar a palma esquerda. Deixar o céu incidir na palma direita para que possa perpassar o corpo. Centrar-se no centro da terra e aí adquirir a forma da instrumentalidade, deixar ser-se um mero instrumento. 
Deus - o poder que entra é idêntico ao poder que sai. 
Trocar a posição dos braços, inverter a direção para a esquerda, no sentido anti-horário. Deixar o cérebro girar, também em círculos. Os círculos que a cabeça executa devem ser executados na direção inversa à das voltas do corpo.
Executar uma série completa de mudras até atingir a plenitude da respiração, o controle da velocidade dos giros.
Tornar o corpo o local onde a energia flui, a sensação de darshan desde o centro da terra. O divino, entre a Terra e o Sol. As estruturas moleculares, os campos energéticos centrando o Universo.
O domínio. 
Ver algo é tornar-se esse algo. Adquirir o modo do vislumbre. 
Girar pois até à ausência de si mesmo. Tão só a ausência de si pode abarcar o ser universal. 
Adquirir a forma de uma casa vazia. Adquirir-se assim à possibilidade de tornar-se uma casa cheia.

Sema, a busca por Deus, a verdade - girando.

Fotografia: José João Loureiro
Texto: Rui Carvalho