A distância é um local fugaz quando estamos a um palmo do mar, de embarcar o Oceano. Já não me reconheço. Os espelhos devolvem-me este rosto quase perto do cadavérico. Sulcado pelo tempo. É isso. É isso que nós somos. Sulcados pelo tempo. É isso que restamos. Cadáveres embatendo a crueldade do mundo. Não venham com subterfúgios. Detesto subterfúgios. Essa coisa positiva da alegria cavalgando os dias. Malditos positivistas. Malditos feitores de falácias. O tudo bem e o sim senhor. Não, não está tudo bem. Não, não senhor. Há comida que chegue, mas a comida não chega. Há riqueza criada, mas a riqueza se perde. Os bolsos dos ricos são ávaros em demasia. E as pessoas. As pessoas são famintas de tudo que não deveriam ser. As pessoas fazem coisas, muitas coisas. As pessoas estão sempre a fazer coisas. Coisas e mais coisas. As pessoas fazem tudo excepto o que deveria ser feito.
Reabrir os caminhos até nossa infância. Regredir. Regredir para avançar.
Deveríamos ser predispostos na arte da diminuição. Deveríamos estar aptos a tornar-nos diminutos. Deveríamos ser diminutos como Alice para nos podermos tornar imensos como Alice. Peritos na arte do Chapeleiro. Loucos como o Chapeleiro. Fazendo os segundos perdurar. Porque não perduramos os segundos? Porque desdenhamos a arte de tornar os segundos eternos? Porque não fazemos os segundos eternos? Porque não nos diminuímos até nos tornarmos imensos?
A um palmo do mar. A um palmo do mar toda a distância se torna fugaz.
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