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sábado, 7 de julho de 2018

Entrevista a Sebastien Void - XLV

XLV
Rui Carvalho: Podemos inferir que, do teu ponto de vista, a democracia nos trouxe a um beco sem saída?

Void: É a correlação dialéctica dos opostos que funda a realidade. Como em tudo o resto, também a história humana obedece a um processo dialéctico. A dialéctica senhor/escravo, é essa a correlação na qual se fundam as sociedades humanas. 
A instituição das democracias modernas tem como fundamento o reconhecimento da humanidade dos escravos. A relação senhor/escravo é entrecortada pelo advento do reconhecimento do servo como um igual. A partir do reconhecimento do direito universal ao voto é reconhecida a igualdade do servo perante o senhor. Os senhores passam a reconhecer nos escravos a sua humanidade. A partir do reconhecimento da humanidade dos escravos somos instalados numa situação de entropia. Não obstante o reconhecimento, este reconhecimento não é um reconhecimento altruísta, isto é, não é um reconhecimento que “venha do coração.” Ao reconhecer o servo como um igual o senhor quer unicamente sentir-se prestigiado. O prestígio. É a partir do reconhecimento do servo como um igual que os senhores alcançam o tão almejado prestigio. Isso mesmo, o reconhecimento e o elogio são muito mais valorados se provierem de alguém que respeitamos ou em quem confiamos e, sobretudo, se for dado livremente e não sob coação.
Neste contexto, o reconhecimento do servo como um igual é um reconhecimento circunstancial. O senhor reconhece o servo como humano unicamente para que nele possa projectar o seu sentimento de vanglória. Ao reconhecer o servo como humano, ao aceitar o sufrágio universal e a igualdade de direitos, o senhor fá-lo para encontrar a contrapartida do reconhecimento. No entanto, o servo não deixa de se exercer na servidão. A servidão do servo é o trabalho. O servo trabalha para o senhor como um assalariado. Os seus direitos são como que direitos de segunda ou terceira classe quando comparados com os direitos de que goza o senhor. Por conseguinte, o senhor reconhece no servo o seu direito à humanidade, mas não o seu verdadeiro valor humano. O que o senhor espera do servo é a contrapartida de ser reconhecido como tal. O senhor reconhece a humanidade do servo mas de um modo insidioso. 
É pois esta completa ausência de reconhecimento que gera no servo o desejo de mudança.  A posição de subserviência do servo é uma posição que a longo prazo se torna insustentável. À medida que o servo revela progressos no que concerne à sua educação, progride também no que concerne aos seus níveis de ambição. Os servos são muitos. A determinada altura o servo adquire consciência do poder, do seu incomensurável poder enquanto parte dos muitos.
No trabalho o servo recupera a sua humanidade, a humanidade que perdera com o receio da violência por parte do senhor. Através do trabalho o servo começa a perceber que, enquanto ser humano, é capaz de transformar a natureza. É neste contexto que o trabalho aparece como que representando a liberdade do escravo. O trabalho constitui uma demonstração da capacidade do homem em ultrapassar o determinismo natural. No trabalho o servo adquire a capacidade de criar através do seu labor. 
O senhor havia demonstrado a sua liberdade ao arriscar a vida numa batalha sangrenta, revelando assim a sua superioridade sobre o determinismo natural. O servo, pelo contrário, concebe a ideia de liberdade trabalhando para o senhor. Trabalhando o escravo acaba por se aperceber que, enquanto ser humano, é capaz de executar um trabalho livre a criativo. E que executando o seu trabalho adquire capacidade para alterar o curso da natureza.
O servo tem pois que considerar a sua liberdade em abstrato antes de a poder gozar na realidade e na sua plenitude. O escravo é impelido pelas suas circunstâncias a inventar os princípios de uma sociedade livre antes de a poder experimentar. A consciência do servo torna-se, pois, superior à do senhor no sentido em que é mais auto-consciente; mais reflexiva quanto a si própria e à sua condição. Antes de desafiar o senhor, o servo atravessa um longo e doloroso processo de auto-educação. Ao reflectir sobre a sua condição e a ideia abstracta de liberdade o servo atira fora várias versões preliminares de liberdade antes de chegar à verdadeira ideia de liberdade.
A questão que se coloca é se chegámos ao fim de dialéctica, sendo que o fim da dialéctica implica o fim da história, se com a democracia atingimos uma sociedade na qual já não existem mais contradições internas. Se assim fosse, a instituição da democracia ter-nos-ia trazido a um beco sem saída. Mas, não. As contradições internas da nossa sociedade são-nos postas fora de visão pelos meios de comunicação em massa. Somos massificados na mentira, no delírio da constante felicidade. 
Há, contudo, uma contradição fulcral que nos situa, o embate entre o homem quantitativo e o homem qualitativo. Não, a isotropia não é uma condição natural. A isotropia é uma fabricação urdida pelos muitos, pelo homem quantitativo. A existência do homem quantitativo depende do adormecimento das sociedades. A luta, a luta é contra o homem quantitativo. A luta é contra o adormecimento, contra o estúpido poder dos muitos. Enquanto houver um homem que pense jamais a contradição será elidida. É necessário saber saltar o muro do beco para onde somos conduzidos como gado.


Rui Carvalho, s. d.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XLIII

XLIII
Rui Carvalho: o advento do fim da história e a imposição do pensamento único como modalidade única de ser e de pensar é pois uma impostura hedionda.
Void: vivemos uma espécie de esquizofrenia quando, por um lado, achamos poder modular ou conformar a natureza à nossa própria vontade e, por outro lado, achamos que a realidade social não é mais moldável, que chegámos ao fim da história, que a história tem uma vida própria e que é a história que nos dita as suas próprias leis. 
Há um clara distinção entre natureza e sociedade, entre o domínio natural e o domínio social. 
As formulações sociais são ideológicas. Contrariamente ao que sucede com a natureza. Contrariamente aos que sucede com a natureza, que se rege pelas suas próprias leis, as sociedades humanas são realidades ideológicas. A realidade social humana é puramente ideológica. Ideias. As ideias são o fundamento da realidade social. As ideias, não os números. A realidade. A realidade social não são contas de somar e de sumir. A realidade social não se divide nem se multiplica. A realidade social vive-se. A realidade social vive-se através das ideias, não é uma equação matemática, é uma formulação ideológica. Ao contrário do apregoado, ao contrário do pregão neoliberal acerca da inevitabilidade, acerca da inevitabilidade dos factos sociais, a realidade social não é inevitável. A realidade social é mutável. A realidade social é aquilo que queremos que ela seja. Como se molda, como se constrói a realidade? Como se constroem as realidades sociais?
Acontece que o neoliberalismo é um processo que se funda na estúpida ideia da abolição da contradição do cerne da realidade. É essa a estúpida ideia que nos é vendida pelo ideário neoliberal. As contradições. A contradição abolida por decreto. Como abolir a contradição do mundo? O mundo. A mundanidade. O devir é a mais absoluta das contradições. A luta. Como abolir a luta do mundo? Como abolir do mundo o mundo? Como abolir do mundo a contradição? Sem contradição não há mundo. Não há mundo sem contradição. O mundo sem contradição é o não mundo. A existência. A existência é a mais radical das contradições. A vida e a morte. O mundo. A morte e a vida. Aqui e agora. O mundo. Vida e morte. Respiro? Não respiro? As contrações musculares. Até quando? As sístoles. As diástoles. Até quando? A vida. Até quando? A vida interrompida por decreto. Como interromper a vida por decreto? 
Tal qual o comunismo, o liberalismo funda-se na mesma estulta ideia que um dia o mundo deixará de ser contraditório. Que a determinado momento histórico não mais existirá processo dialéctico e a própria história atingirá o seu fim. Por fim, a finalidade encontrará a sociedade livre de contradições internas. O culminar de todo o processo histórico. O que diferencia ambos os modelos é o facto de que para os comunistas a implementação do estado liberal não resolverá a contradição fundamental. A luta de classes. A luta entre a burguesia e o proletariado. O conflito. O estado liberal não resolve o conflito de classes. O estado liberal não significa a universalização da liberdade. O estado liberal é apenas a vitória da liberdade para uma classe determinada. A burguesia. A classe dominante. Por conseguinte, o homem liberal não é um homem livre. O homem liberal permanece alienado de si próprio. O capitalismo. O capitalismo controla o homem, alienando-o. O homem liberal é o homem tornado escravo do capital. O fim da história. O fim da história só será concretizável através da vitória do proletariado. O proletariado. O proletariado, a verdadeira classe universal. Somente a implementação da sociedade comunista poderá pôr termo à contradição, à contradição que resulta da luta de classes.
Pelo contrário, para o neoliberalismo o estado neoliberal é o santo graal, a concretização do céu na terra. É contra o inculcar deste estúpido estado de coisas que nos devemos rebelar.


Rui Carvalho, s. d. 

sábado, 2 de dezembro de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XLII

XLII
Rui Carvalho: aquilo que defines como mitologia do pensamento único tem como principal consequência o facto de nos ser imposto uma espécie de simulacro democrático?

Void: sim, tal implica que vivamos sob o jugo de uma espécie de simulacro democrático. A teia urdida pelo sistema financeiro a partir do seu grande instrumento de poder, os denominados mercados financeiros, coloca completamente à sua mercê o poder político. A comunicação social encontra-se ela própria completamente manietada pelo poder financeiro. Os jornais e as televisões são pertença da alta finança e dos grandes grupos económicos. Tal facto conduz ao manietar do sentido de voto das populações através da edificação de uma opinião publica bi-polarizada em torno de dois grandes partidos que se revezam entre si no acesso ao poder político. Tudo isto se edificou a partir duma crença, duma mitologia. 
As mitologias são fundamentos sociais. Os Gregos Antigos tinham as suas vidas fundadas na crença no Olimpo. Os Deuses Olímpicos eram os modelos em redor dos quais se erigia o mundo Grego. A mitologia é um advento fundamental, sem mitologia tornamo-nos secos. Secos e ocos. Secos e ocos perdemo-nos para a beleza das coisas. 
Contudo.
A mitologia do pensamento único sorve-nos as energias, a vontade, a vontade de pensar, a vontade de sonhar. O que é um mundo sem energia? O que é um mundo sem vontade? O que é um mundo sem necessidade de sonho? 
Precisamente isto. 
Andamos de olhos fechados um dia inteiro. Por vezes abrimo-los à noite. Mas apenas alguns de nós o fazem. Andamos de olhos fechados. Andamos de olhos fechados e a doença dos olhos fechados dura-nos uma vida inteira. Tememos as insónias como quem teme uma vida desconhecida. É esse o nosso medo. Tememos a verdade. E a verdade é esta: somos dirigidos como rebanhos de gente acéfala
Somos nós os responsáveis pela nossa própria cegueira. Não, não há instituições secretas por detrás de toda esta efabulação social. Não, não são os políticos os únicos responsáveis. Não, os políticos não são todos iguais. Não serão todos iguais enquanto defenderem uma qualquer ideologia. O problema é a não ideologia. O problema é o definhamento da vontade, sobremaneira da vontade de sonhar.  Somos nós que o queremos, somos nós que escolhemos o definhamento da vontade. Somos nós que diariamente nos sentamos frente aos televisores babando a estupidez das várias “telenovelas”. Desejamos coisas, tantas coisas. Desejamos tanto as tantas coisas que as confundimos com a nossa alma. 
De qualquer modo, as sociedades humanas são criações ideológicas, criações puramente ideológicas. Quanto somos imbecis. Quanto somos imbecis quando deixamos que nos imponham uma sociedade isenta de ideologia, uma sociedade asséptica onde nos possam escarrar na cara toda a estupidez. O assepticismo social implica a morte das ideias, a morte da ideologia. As ideias e as ideologias definham a cada instante. Somos nós os únicos responsáveis pelo seu definhamento. Raios partam as desculpas.

Rui Carvalho, s. d.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XLI

XLI
Rui Carvalho: podemos afirmar que a imposição do não valor como valor e a imposição do medo como fonte de governação derivam de uma mudança de paradigma ou implicam uma mudança de paradigma relativamente ao funcionamento económico/social das nossas estruturas societárias?

Void: sim, podemos afirmar que estamos perante uma radical mudança de paradigma nas nossas estruturas societárias. O modo de funcionamento da actual civilização ocidental e ocidentalizada assenta no triunfo, no completo domínio do sistema financeiro sobre todos os restantes vectores sociais. 
O domínio da alta finança é elaborado, é construído mediante uma completa e radical mudança de paradigma. Através de uma radical mudança estrutural no modus operandi da infra-estrutura económica que sustenta as nossas sociedades. Uma mudança estrutural que só poderá ser sustentada se for construída com base numa superestrutura financeira, superestrutura essa que terá necessariamente que ser implementada a nível mundial. A implementação dessa superestrutura é materializada na criação dos denominados mercados financeiros. Os mercados financeiros permitem a criação e multiplicação artificial da riqueza através do advento da especulação financeira. A riqueza. A riqueza que no anterior modus operandi económico era construída ou adquirida de um modo dialéctico, isto é, o denominado investidor ou empreendedor necessitava sempre da força de uma mão de obra que lhe permitia implementar o seu propósito de enriquecimento, passa a poder ser gerada sem mais, sem o recurso ao factor trabalho. O trabalho. O capital. A dialética trabalho/capital. Havendo a necessidade do processo dialéctico estabelecido entre um empreendedor e uma quantidade mais ou menos elevada de obreiros capacitados para levar a cabo a edificação do seu empreendimento, era sempre estabelecido um certo equilíbrio de forças, equilíbrio de forças esse que era adquirido quase sempre negocialmente e que estabelecia um equilíbrio entre os interesse do empreendedor e os interesses dos obreiros do empreendimento. Neste contexto, a existência dos sindicatos era uma condição fulcral para que fosse atingido o referido equilíbrio de forças e interesses. Com o triunfo do sistema financeiro esse equilíbrio de forças foi completamente erradicado. No seu actual modo de funcionamento o sistema financeiro possibilita a criação de riqueza a partir do nada. Os produtos financeiros são a pedra de toque para a criação de riqueza. A riqueza é criada e auto-multiplicada de  um modo completamente artificial. Através do investimento nos denominados produtos financeiros os investidores deixam de ter de preocupar-se com investimentos que apenas criam riqueza a longo prazo. Mais ainda, os ricos investidores deixam de ter que preocupar-se com sindicatos e trabalhadores. Os investidores têm nos mercados financeiros o seu grande instrumento de poder. 
Sim, estamos a vivenciar uma radical alteração de paradigma. A dialéctica capital versus trabalho foi substituída pela mitologia do pensamento único.

Rui Carvalho, s. d.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XL


XL
Rui Carvalho: E quanto à imposição do medo como fonte de governação?
Void: A imposição do medo como fonte de governação é um advento que está directamente relacionado com “a tese do fim da história”. Sendo que a tese do fim da história se relaciona por sua vez com o fenómeno da “astúcia da razão” e com o seu modo de funcionamento. A astúcia da razão tem um funcionamento fenomenológico que lhe é próprio. O progresso histórico não deriva de um continuo desenvolvimento “racional” das sociedades humanas. Pelo contrário, é a cegueira da paixão que impele os homens para o conflito, para a revolução, para a guerra. A astúcia da razão. A razão não é um fenómeno puramente “racional”. A racionalidade é imbuída na paixão. É imbuída na paixão que a racionalidade adquire a forma da astúcia da razão. A astúcia da razão é o advento que faz funcionar o mundo, que faz mover o mundo. No seu funcionamento, a astúcia da razão desenvolve-se dialecticamente, não obedece propriamente a um processo histórico de índole evolutivo. Ao discernirmos a história da razão humana estaremos desde logo a discernir, também, o modo de funcionamento do mundo. A razão funciona, desenvolve-se de forma dialéctica. A razão humana prescreve-se num intenso processo de conflito consigo mesma, ocorre num intenso processo de continuados conflitos internos. A dialéctica. A dialéctica é a força motriz da razão. Sendo a força motriz da razão é também a força motriz que move o mundo. A história humana corresponde a um processo de avanço continuo no cerne da conflitualidade. Os conflitos. A conflitualidade. A conflitualidade colide os diversos sistemas de pensamento, os variados sistemas políticos colidem e desmoronam. As contradições internas dos sistemas conduzem os sistemas ao colapso. Os antigos sistemas desmoronam e são substituídos por outros menos contraditórios. 
A dialéctica. 
A questão que se coloca é se existirá um fim para o processo histórico? Se é possível conceber o fim da dialética? Se é possível conceber a razão humana destituída das suas contradições internas? Se é possível conceber um mundo sem contradição? Sendo a contradição imanente no mundo, como pode haver mundo sem contradição? Como poderá haver um mundo sem mundo? Um mundo de onde a dialéctica se ausentasse seria um mundo perfeito, um mundo no qual existiria a liberdade plena e a plena felicidade. Será alguma vez possível a realização da liberdade na terra?
O neo-liberalismo vende-nos essa ideia, a ideia que se encontra finalizado o processo de realização da plena liberdade, da plena felicidade na terra. O neo-liberalismo defende que o processo histórico não é algo que possa progredir indefinidamente. Segundo a propaganda neo-liberal, o processo histórico caminha para um fim, sendo que esse fim é justamente o neo-liberalismo.  A teleologia. A crença teleológica na implementação de sociedades de tal modo livres que não haja mais liberdade a conquistar. A conquista da felicidade plena. O fim da história. A plena conquista da liberdade e da igualdade são os princípios fundamentais do moderno estado liberal. O estado liberal é tido como estando ausente de contradições internas. O estado liberal traz-nos o fim da dialéctica, o final da história. O moderno estado liberal. O moderno estado liberal é a  personificação da liberdade, do progresso da história universal da humanidade até à elevação do homem à racionalidade plena. A racionalidade plena é alegadamente expressa no liberalismo.
As sociedades liberais assentam na conquista dos mais elevados graus de riqueza material e de estabilidade política. São sociedades, alegadamente destituídas de quaisquer resquícios de contradições internas fundamentais. São sociedades auto-satisfeitas e auto-sustentadas nas quais ocorre o mais livre fluir da actividade económica. A modernização. A modernização é implementada através da conquista de níveis de riqueza e prosperidade sem precedentes. O desenvolvimento industrial. O desenvolvimento industrial é guiado num padrão de crescimento coerente. Tão coerente que acaba por originar determinadas estruturas sociais e políticas universais e uniformes nos diversos países e culturas.
O medo é-nos imposto a partir da instalação da ideologia da crise. A ideologia da crise faz-nos temer a astúcia da razão, faz-nos temer a dialética do mundo. A ideologia da crise mostra-nos um único caminho possível, a rendição, a total submissão aos mercados financeiros, às premissas que nos são impostas pelo funcionamento dos mercados financeiros. Os mercados financeiros são-nos dados como uma espécie de Deus ex-machina que faz mover o mundo, que impede a prossecução da conflitualidade. É-nos inculcada a ideia da desobediência como pecado. O grande pecado do mundo é a desobediência ao funcionamento dos mercados. Somos soterrados no medo da desobediência. A desobediência dos estados ao funcionamento dos mercados tem um preço, a bancarrota, os resgates financeiros, a vinda dos abutres, do FMI e das organizações supra-estatais designadas como Troica. O medo, somos governados pelo medo, somos soterrados pelo medo. 

Rui Carvalho, s. d.

sábado, 26 de agosto de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XXXIX

XXXIX
Rui Carvalho: Identificas a imposição do não valor como valor e a imposição do medo como fonte de governação como duas condições essenciais para o exercício da perfídia. Podes explicar-nos melhor com ocorre ou como ocorreu o fenómeno da imposição do valor como não valor?

Void: A quantidade. A quantidade é-nos imposta como valor. A imposição da quantidade como valor está directamente correlacionada, por um lado com o advento da democratização das sociedades e, por outro lado, com o desenvolvimento da ciência moderna. 
Somos completamente dominados, manietados pelo paradigma quantitativo. O quanto é o valor. O quanto torna-se valor. O mais do quanto. Quanto mais melhor. A quantidade. A magia do mundo está na quantidade. O mais e o menos. O mais é sempre mais que o menos. O mais gostado. O mais valorizado. O mais caro. O bom. O bom identificado como mais. O número. O sistema numérico tornou-se uma arma de poder.
O advento democrático trouxe-nos o desvelamento do muito como valor. Nas sociedades aristocráticas imperava o despotismo, e no âmbito do despotismo a quantidade não era sequer tida em conta enquanto fonte de poder. O poder era o poder do mais forte, do mais capaz, do mais rico, do mais pérfido. As tabelas axiológicas deste tipo de sociedades fundavam-se em valores de índole não quantitativo. A quantidade nada tinha que ver com os fenómenos de poder. É na passagem deste tipo de sociedades para as sociedade democráticas ocidentalizadas que se verifica o dealbar do quantitativo como valor, do mais e do menos enquanto formas de medida no acesso ao poder. Nas sociedades ocidentalizadas o mais e o muito são o valor por excelência. Ora, o mais e o muito das quantidades são algo absolutamente subjectivo. Imagine-se que os muitos são absolutamente estultos. Se os muitos são absolutamente estultos, a estultícia passa a ser discernida, passa a ser reconhecida como algo de bom. Neste tipo de sociedades o muito é desde logo identificado com o bom. O que é muito é o que é muito bom.
Quanto à importância da ciência moderna como fonte de quantificação e de imposição do quantitativo como valor, a mesma tem sobretudo a ver com a identificação da natureza como um conjunto de átomos e vazio. Com o advento da ciência moderna, a natureza é identificada como um conjunto de átomos e vazio. Ora, uma realidade composta de átomos e vazio é uma realidade quatificável. Assim sendo, tudo no mundo se resumirá a quantidades. Após a determinação das quantidades estamos habilitados a ler a natureza. Com a possibilidade de leitura da natureza vem colada a possibilidade de domínio da natureza. A natureza é desde logo identificada enquanto entidade quantitativa. Enquanto realidade determinada e determinável. Ora, uma entidade determinada e determinável é desde logo uma entidade previsível. Assim sendo, os fenómenos da natureza são previsíveis, são predicáveis. Sendo os fenómenos da natureza predicáveis torna-se possível prever a ocorrência dos vários acontecimentos. Tudo se resumirá então a premissas e conclusões. A natureza e o mundo são realidades conclusivas. Tudo que necessitamos são unidades de medida. Sejam-nos dadas unidades de medida e a realidade ser-nos-á descrita ou explicada. Meios de cálculo. Só necessitamos de meios de cálculo. A realidade natural é um fenómeno instrumentalizável. Usando a técnica adequada é-nos possível dominar a natureza. O domínio técnico, a técnica torna-se predominante. O domínio das várias técnicas tornam legíveis os vários domínios da natureza. Física. Química. Biologia. Matemática. Estatística. As ciências da natureza. O número. Os bits. A informática. Zeros e uns. O predomínio das quantidades, o império do quantitativo.

Rui Carvalho, s. d.

sábado, 5 de agosto de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XXXVIII

XXXVIII

Rui Carvalho: a génese da Hidra do capitalismo institui-se então a partir da imposição do não valor como valor e da imposição do medo como fonte de governação. O exercício da perfídia é a condição que nos move, é a condição que possibilita o funcionamento do capitalismo financeiro?       
Void: O triunfo do capitalismo financeiro representa a tomada de assalto da economia e do poder político por parte dos banqueiros e da alta finança. Sim, a imposição do não valor como valor e a imposição do medo como fonte de governação são as duas condições primordiais do exercício da perfídia. Ou melhor, o exercício do capitalismo financeiro e o exercício da perfídia estão tão interligados entre si que se tornam uma e a mesma coisa. 
Vivenciamos uma mudança histórica no que concerne ao paradigma que funda as estruturas societárias, principalmente no mundo ocidental. Especialmente o mundo ocidental. Especialmente no que concerne à estrutura societária europeia. A mudança de paradigma. A mudança de paradigma deriva da transição de um modelo de sociedade que teve como base o capitalismo económico para um modelo de sociedade que tem como base o capitalismo financeiro. A transição entre estes dois modelos de sociedade é aquilo que está na origem da hecatombe social e política que devasta nesta altura os países da Europa do Sul e que acabará por devastar inevitavelmente a própria Europa e o modelo social europeu tal como o conhecemos.
O capitalismo económico encontrou os seus alicerces na revolução industrial e na correlação entre dois factores fulcrais, a saber, o trabalho e o capital. Neste tipo de sociedade, porque o capital não era auto-multiplicável a partir de si próprio, mas sim a partir da força de trabalho que constituía a sua alavancagem, a obtenção do lucro, o objectivo primacial deste tipo de sociedade, era completamente dependente da força de trabalho. Assim, a correlação entre o factor trabalho e o factor capital era visceralmente interdependente e como tal a relação de poder entre os capitalistas, os investidores, e a forca de trabalho, os operários, representados pelos sindicatos tinha vários factores de amortecimento que impediam a total subjugação do factor trabalho ao factor capital. As várias conquistas sociais transcritas no modelo social europeu resultam desta simbiose, desta simbiose entre trabalho e capital.
O problema. Os problemas derivam da instituição do capitalismo financeiro. O paradigma do capitalismo financeiro possibilita que o capital seja auto-multiplicável a partir de si próprio. O capitalismo encontrou maneira de prescindir do factor trabalho. O trabalho deixa de ser fundamental na obtenção do seu objectivo primacial. O lucro. O lucro financeiro pode agora ser obtido a partir do nada. O lucro financeiro pode ser obtido a partir da mera especulação. A mera especulação e a criatividade associada aos produtos financeiros permitem que a riqueza se auto-multiplique a partir de si própria. Os investidores, os capitalistas não necessitam mais preocupar-se com trabalhadores e sindicatos. Não necessitam mais preocupar-se em lidar com o poder dos trabalhadores e das organizações sindicais. O lucro. O lucro é agora o lucro pelo lucro. O capital depende de si próprio. Pode auto-multiplicar-se de um dia para outro. É desnecessário aguardar anos, décadas para que os investimentos se tornam viáveis e lucrativos. O capital é agora auto-suficiente. A auto-suficiência capitalista é a gangrena do mundo ocidental. O mundo ocidental e o seu estado de providência gangrenam ao peso do jugo capitalista. A lógica e a dinâmica do contrato social perdem cada vez mais sentido sob o jugo da gangrena do capitalismo financeiro.
A partir do momento em que são os próprios governos e os estados a sucumbir perante este estado de coisas, tornando-se reféns dos denominados mercados financeiros e tomando mesmo partido como defensores dos bancos e da alta finança, aquilo que se verifica é um claro rompimento do contrato social. Os governos que deveriam funcionar, na sua essência, como verdadeiros reguladores e estabilizadores da vida em sociedade encontram-se neste momento de tal modo conluiados e manietados pela teia habilmente urdida pelo sistema financeiro que são eles próprios os impulsionadores dos mais hediondos desequilíbrios sociais. Quando se exige a um assalariado que aufere rendimentos mínimos que contribua para o financiamento da banca, torna-se por demais evidente que estão claramente a ser ultrapassados os mais elementares limites do decoro e da mais elementar ética política e social. Quando se exige a um desempregado, ainda que a receber subsidio de desemprego, que desconte parte desse subsidio para obstar a falência do sistema bancário está-se a cometer um acto hediondo, um acto criminoso.
Se tudo isto não se trata de um claro exercício da perfídia...

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XXXVII

XXXVII

Rui Carvalho: Parece termos passado de um tempo onde o poder era exercido pelo mais forte para um tempo em que o poder é exercido pelo mais pérfido. Qual o poder mais justo, o poder do mais forte ou o poder do mais pérfido? 

Void: A auto-preservação. A auto-preservação mostra-se o facto moral elementar que socorre a transição entre o poder do mais forte e o poder dos muitos. A necessidade de preservação da existência física individual torna-se uma lei da natureza a partir do momento em que os mais fracos adquirem a consciência que são muitos. A consciência de ser muitos dos mais fracos tem como contrapartida a consciência que o senhor adquire de que a sua vida corre perigo. O senhor passa a poder vislumbrar a sua morte à mão dos muitos. A génese de todos os conceitos de justiça e de direito estão directamente fundados nessa necessidade vital, nessa busca racional da auto-preservação. 
O receio da morte, o receio da morte violenta é o impulso que conduz o humano até ao advento do estado liberal. A injustiça e o erro mostram-se assim como factores que conduzem à violência, à guerra e à morte. 
O estado de direito não só se funda, como verdadeiramente nasce a partir das cinzas do estado de natureza. Antes da instituição do estado de direito e da positividade da lei, apenas existia o direito natural, o direito natural de cada um a preservar a sua própria existência permitia-lhe utilizar todos os meios indispensáveis à conquista do fito da própria sobrevivência, inclusive a violência. 
O antídoto fulcral para a anarquia que grassa o estado natural foi a instituição do Estado. O Estado é estabelecido a partir do contrato social pelo qual todos os homens concordam em abdicar do seu direito natural a todas as coisas e a contentarem-se com a mesma quantidade de liberdade em relação aos outros que permitem em relação a si próprios. A legitimidade do estado de direito reside justamente na sua capacidade de proteger e preservar os direitos que todos os indivíduos possuem enquanto seres humanos. 
O direito fundamental é o direito à vida, isto é, a preservação da existência física de todos os seres humanos e o único governo legítimo será aquele que seja capaz de preservar adequadamente a vida e evitar o regresso à guerra de todos contra todos.
Não existe pois uma “justiça ontológica” que justifique o exercício do poder. O exercício do poder deriva de uma necessidade prática. Neste sentido também as noções de justo e injusto são "meras" necessidades práticas. 
A perfídia evidencia-se quando o exercício do poder não cumpre esse paradigma, essa necessidade prática de prover a preservação da existência física de todos, nem a existência física nem a existência espiritual. O espirito, o único foco de sentido capaz de dar sentido às nossas vidas é a cada segundo destruído pela deriva capitalista. É aí que reside a perfídia, na deriva capitalista. Na imposição do não valor como valor. Na imposição do medo como fonte de governação.     


Rui Carvalho, s. d.



sexta-feira, 19 de maio de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XXXVI

XXXVI

Rui Carvalho: Do modo como descreves a génese da Hidra do capitalismo a partir da  industrialização das sociedades modernas e a imposição do consumo como cerne da sociabilidade comunitária podemos depreender que o poder tem uma história, uma cronologia que lhe é própria. Segundo parece, ao longo dos séculos terá ocorrido uma transformação ou mutação nos modos de ocorrência do poder, é isso que podemos depreender? 

Void: Nos primórdios do seu exercício o poder era conquistado através da luta, assim foi desde os primórdios dos tempos. A conquista do poder implicava um acontecimento fundamental: que o suor escorresse, que o sangue escorresse. O acesso ao poder implicava a carnificina, que o cheiro ocre da carne habitasse o instinto das lâminas guerreiras. O poder era adquirido na luta, era uma conquista dos mais fortes. A riqueza estava intrinsecamente interligada ao poder. Com o acesso ao poder vinha o acesso à riqueza. A riqueza provinha do suor das terras conquistadas, palmo a palmo. Era assim que o vencedor guerreiro se tornava senhor. Tornado senhor, o aguerrido guerreiro impunha a diferença. Foi a partir da primazia do senhor/guerreiro que se estabeleceram as diferenças sociais. O triunfo era reconhecido como um valor e esse mesmo valor constituía uma mais valia que era recompensada com a conquista de poder, da riqueza que dele emanava. O poder era o poder do mais forte e o poder do mais forte era imposto como lei. Ao vencer na luta, o senhor era reconhecido como superior pelos que se tornavam seus humildes súbditos. Foi pois na vaidade e no orgulho de ser reconhecido como senhor que o vencedor guerreiro se moldou na figura do aristocrata. 
A premente disposição para a luta era aquilo que distinguia o senhor e o carácter do senhor. Tal como o orgulho e a vaidade eram sentimentos que derivavam do imperial desejo de reconhecimento aristocrata. A luta podia inclusive estar dirigida à conquista de meros objectos ou objectivos simbólicos, nada alterava o epicentro da vontade de lutar. O epicentro da vontade de lutar era exclusivamente alicerçado na imperiosa vontade de vencer. 
Onde e quando ocorreu então essa quebra na vontade de vitória, na vontade de poder? Porque é que o processo civilizacional nos foi amolecendo os instintos até prescindirmos da sangrenta luta pelo poder? Porque quebrou o senhor o seu orgulho aristocrata e se deixou dominar no igualitarismo? 
A imposição do domínio quantitativo. É essa a resposta. A difusão e predomínio do império do quantitativo conduz o senhor aristocrata ao temor da quantidade, a temer as quantidades. O predomínio do quantitativo revela-se o instrumento fundamental que conduz à quebra do poder do senhor e do seu ímpeto aristocrata. A partir de uma determinada altura os servos descobrem o poder do quantitativo, o poder das quantidades e da ideia de quantidade. A ideia de quantidade torna-se o instrumento de guerra dos servos. 
Os servos são imensos, sempre foram imensos. O momento do descobrimento do poder da quantidade é o momento chave que sinaliza a quebra do poder aristocrata. Os servos descobrem que são muitos e que sendo muitos podem agrupar-se. Ao agruparem-se entre si, os servos adquirem-se no modo da manada. A manada é o instrumento de guerra dos servos. No modo da manada os servos percebem que podem contrabalançar o poder do senhor. A determinada altura, os servos tomam consciência da miséria do seu estado. Os servos encontram-se num estado de submissão. No estado de submissão, a miséria é algo que é comum a todos os servos. Os servos são os muitos na miséria. Aí está a chave. Os servos são muitos. A multitude. É na aquisição da consciência da multitude que se erige o poder dos servos. Somente a multitude poderá contrabalançar, competir com o poder do senhor. Os servos existem num estado de submissão, esse é o seu estado natural. O estado de natureza do servo é o ser submisso. Enquanto submissos, os servos não podem ser considerados homens, pelo menos em sentido pleno. Dai a revolta, dai a insubmissão dos muitos.
Perante a ocorrência da insubmissão dos muitos, o senhor tropeça no receio da morte, no receio da morte violenta. O receio da morte torna-se o pior inimigo do senhor aristocrata. Se antes o receio da morte violenta apenas habitava o coração dos servos, a partir do momento que que o servo se pesa no poder da multitude, o receio da morte violenta passa a habitar também o coração do senhor. A partir daqui não só os servos recearão a sua morte violenta às mãos do senhor, também o senhor aristocrata passa então a temer a morte violenta às mãos da multitude de servos. É neste estado de coisas que a preservação da existência física individual se mostra o mais forte imperativo moral. 

O poder deixa de ser o poder do mais forte para se tornar o poder dos muitos. 

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XXXV

XXXV

Rui Carvalho: Como erigir então uma comunidade? Como erigir uma comunidade de sentido fundada no estigma da utilidade?

Void: As comunidades erigem-se com base numa necessidade reciproca de pertença, de comunhão de uma realidade sensível e palpável - um pedaço de terra, por exemplo. As congregações mais primitivas radicam justamente nesse sentimento de pertença, de partilha da terra, de um pedaço de terra tornado “nosso”. É a partir desse pedaço de terra tornado nosso que se erige a noção de comunidade. À medida que uma determinada comunidade vai conquistando terras e mais terras, vai-se tornando cada vez mais vasta e mais próspera. A prosperidade comunitária fica desde logo indelevelmente conectada com o sucesso. O mais bem sucedido é o mais relevante, é o que mais contribui para o bem estar comunitário. Desde a Idade Média às sociedades modernas, desde a nobreza à burguesia, as comunidades são guiadas como rebanhos na senda da prosperidade no sucesso. O próspero e bem sucedido burguês tornou-se o mais relevante símbolo da vitalidade de uma determinada comunidade. A prosperidade está desde logo vinculada à posse da propriedade, aquele que mais terras possui é o mais próspero. Com a posse de terras vem a riqueza, a posse de coisas, quantas mais coisas melhor. A partir da revolução industrial a riqueza deixou de estar directamente ligada à posse de terras e passou a gravitar em torno do empreendedorismo e da assunção do risco através do investimento. Digamos que a riqueza se democratizou, deixou de ser usufruto da nobreza, assim como a posse de terras deixou de ser conquistada pela força dos mais fortes. Com a industrialização verificou-se uma generalização e uma banalização do consumo. O consumo torna-se o cerne em torno do qual gravitam as sociedades industrializadas. É com base no consumo e na consequente lei da oferta e da procura que se desenvolve a Hidra do capitalismo. Tudo aquilo que é objecto de procura se mostra produtível e tudo aquilo que é produtível pode ser objecto de consumo. O objecto de consumo é o útil. É a possibilidade de consumo que determina a utilidade ou inutilidade de todas as coisas. Todo o contexto social indicia e premeia o empreendedorismo e o sucesso. O consumo e a posse de coisas úteis constitui-se como mola impulsionadora da sociabilidade. 
Assim se gera o nevoeiro, o ténue e tenebroso nevoeiro capitalista. O nevoeiro. Perdidos no nevoeiro não alcançamos um palmo, um palmo que seja à frente do nosso nariz. As únicas coisas que nos são visíveis são as que nos são dadas através do consumo. Deixamos de ser homens ou mulheres para nos tornarmos meros consumidores. As nossas existências são gravitadas em torno do consumo, da estúpida necessidade de consumo. Somente consumindo nos tornamos visíveis como alguém. As comunidades contemporâneas são toldadas no consumo, na utilidade consumista. Tal significa que o sentido de comunidade se perdeu por completo. Somos comunidades de consumo, meras comunidades de consumo. Somente adquirimos existência quando consumimos. Vemos e somos vistos no modo da aquisição. A nossa existência torna-se mais ou menos visível consoante o número de coisas que possuímos. Bom, não apenas através do número de coisas que são nossas, mas fundamentalmente, e também, através do valor monetário daquilo que possuímos.  

domingo, 30 de abril de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XXXIV

XXXIV

Rui Carvalho: os conceitos de utilidade e inutilidade são conceitos fulcrais à compreensão da sociedade contemporânea e à compreensão do seu modo de funcionamento. O útil e o inútil são estigmas sociais que nos tornam vitimas indefesas da estupidez? 

Void: a utilidade é um conceito “burguês” que surge ou se torna premente logo após a revolução industrial. Útil é tudo aquilo que nos serve o dia a dia. A partir do momento em que nos tornamos escravos do trabalho automático e automatizado tudo aquilo que temos acesso é ao dia a dia. Nada mais, nada menos. O dia a dia não nos sobra tempo. Somos carcomidos pelo dia a dia até nos tornarmos meros cadáveres adiados. Somos gravitados em torno do dia a dia. Gravitados em torno do dia a dia tudo aquilo que nos serve terá necessariamente que servir o dia a dia. Ora o que é isso de servir o dia a dia? 
Servir o dia a dia implica agir como autômato. Todas as nossas “acções” são automatizadas ao ponto de não pensarmos, sequer por um segundo, a razão de ser dos nossos actos. O dia a dia ocupa-nos, e ocupa-nos o tempo todo, o tempo inteiro. No dia a dia é como se já não houvesse tempo, como se tivesse deixado de haver tempo. O dia a dia hipnotiza-nos de tal modo que somos levados a achar que já não há tempo que nos reste, que nos sobre.  
É deste modo que arte se torna a sobra dos dias. Acercamo-nos da arte como alguém se acerca de algo inútil. A nossa utilidade é posta à prova no modo como operamos as coisas úteis do dia a dia. 
Levados na automaticidade das coisas é como se fossemos levados na maré do mundo. É esse ir e vir nas ondas que enforma as nossas vidas. Essa é uma das formas da estupidez. Esse ser levado na maré do mundo, como uma mera gota de uma enorme onda que nos sufoca. Contudo, somos incapazes de sentir esse sufocar, esse sufocamento. Tal ocorre porque somos drogados na distração. A distração é o instrumento fulcral ao funcionamento das sociedades contemporâneas. Qualquer tempo livre, todos os tempos livres nos são oferecidos ou impostos como formas de não pensar, de não exercermos o pensamento. 
O pensar aprende-se, e aprende-se fundamentalmente a partir da prática, do exercício. Tal como acontece com o aprender a ler e a escrever, há instrumentos que nos são dados, o alfabeto, a numeração e as palavras que a partir dai se geram. Contudo, todo o esforço tem que ser nosso. Somos nós que temos que nos deslocar com os instrumentos dados e a partir dos instrumentos dados, até alcançarmos o lugar, a perspectiva mais adequada à percepção do mundo. Contudo, tudo isso dá trabalho, dá mesmo muito trabalho, e tudo que temos é o dia a dia. O dia a dia e a estupidez das distrações mais imediatas. Como não sermos estúpidos? Como não sermos soterrados na estupidez? 
Regra geral, o único acto que é praticado pelo cidadão comum é o acto plebiscitário. E ainda assim não parece que o mero acto de votar se possa constituir como uma acção. Na maioria dos casos as pessoas são meramente induzidas a votar, não têm sequer noção do fundamento ideológico do seu voto, até porque, a cada rajada dos mercados, a ideologia partidária é cada vez menos visível. 
Sim, o útil e o inútil são estigmas sociais. E sim, somos vitimas mais ou menos indefesas da estupidez.

Rui Carvalho, s. d.

quarta-feira, 26 de abril de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XXXIII

XXXIII

  Rui Carvalho: a moldagem do húmus do mundo, tal como a referes, implica que sejamos actores e não meros espectadores, que saibamos agir o mundo em vez de nos deixarmos agir pelo mundo. Como se processa esse processo de moldagem?

Void: a moldagem do húmus do mundo implica qualquer coisa similar ao acto do oleiro moldando o barro. Bom, não apenas um acto de olaria, nada que resulte apenas do mero artesanato, talvez uma espécie de cisão entre a olaria e a arte de Geppetto. Sim, o tal Geppetto. O Geppetto do Pinóquio, o criador do Pinóquio. Talvez um acto entre o artesanato e arte no seu sentido pleno. Somente o artista - no seu estado pleno, no seu sentido pleno - está apto a poder moldar o mundo. O artista é aquele que age a realidade. Agindo a realidade, o artista torna-se Actor. O Actor dá vida às suas personagens. 
O Actor. Quem é o Actor? 
O actor é um vírus, o actor é um vírus que germina e age no interior do tecido social. Um vírus que reage ou age em resposta ou face ao amorfismo característico das restantes células sociais. Contudo, o actor é indivíduo, logo a sua acção sempre se caracteriza por ser um acto solitário e isolado. O agir do actor não é um agir colectivo ou corporativo, não se presta à acção colectiva. O actor não pertence a grupos de acção ou a grupos de pressão. Por conseguinte, a acção do actor não é nem pode ser pandémica. A acção do actor erige-se como chaga. Como chaga que se abre, que se irrompe no seio do mundo e contra o mundo, jamais com o próprio mundo. Ao agir contra o amorfismo social o actor torna-se proscrito, torna-se um ser à margem. 
Nesse contexto há uma certa similitude entre a marginalidade do actor e os outros tipos de marginalidade social. Ao estar à margem da comunidade, do que é comum, o actor radica-se no incomum. É essa incomunabilidade que torna a acção do actor incomunicável. 
O maior receio da comunidade consiste em deixar-se contaminar pelo incomum. Dai o desrespeito, o desprezo com que o artista é tratado pela comunidade em geral. Dai a incapacidade das comunidades para aceitar e assumir o objecto artístico como algo “seu”. Dai o medo do novo, da mudança. Dai o medo que a arte nos invoque, que a arte nos faça implodir nossas pequenas e medíocres existências. 
A arte é inútil e o mundo detesta a inutilidade. 
O mundo está forjado no exercício da posse. Nas sociedades modernas ou contemporâneas todo o valor se resume no acto de posse. Bom, é assim desde sempre, desde que o humano apareceu sobre a terra. De qualquer modo, o mesmo acontece com os animais, com os animais irracionais. O acto de posse enforma a peripécia do mundo. Aquele que possui coisas torna-se visível na posse e no acto de pose. Não é despiciendo analisarmos os actos de poder, os actos de tomada de posse. Todos os actos de poder radicam numa tomada de posse. Quando um partido ou um indivíduo vence as eleições ou quando alguém assume um cargo de poder há sempre uma tomada de posse. O ritual de tomada de posse implica uma transferência de poder. Sendo que essa transferência de poder implica o posar, o estar perante as “câmeras” e perante as câmeras assumir que se é alguém. O ser alguém corresponde a um acto de delegação, delegamos num determinado partido ou numa determinada pessoa o poder que advém do sermos muitos. 
O mesmo também acontece com o possuir coisas, com a posse de algo que se torna nossa pertença. O humano desembarca-se na pose. Primeiro na posse e depois na pose.  Apenas existimos como pessoas quando possuímos algo, quando somos proprietários de algo. A posse e a propriedade são as alavancas que suportam a engrenagem social do mundo. Ao assumirmos a posse de algo tornamo-nos objectos de reconhecimento, tornamo-nos reconheciveis.   
Pelo contrário, a arte desapossa-nos, na arte deixamos de ser o centro do mundo. O objecto artístico tem o poder de nos descentrar, de nos tornar outros, de nos deixar levar no âmbito da levitação. Quando contemplamos arte, e o termo contemplar abarca todos os sentidos de exercício do humano, somos levados num processo de levitação, é quase como se perdêssemos pé. 
Não sei se alguma vez se deram casos semelhantes, mas é bem possível que um tipo minimamente sensível à arte possa ficar durante dias siderado frente a uma obra de Picasso ou de Kandinsky, de qualquer outro génio. E não, não se tratariam de casos de loucura. Deveria acontecer-nos a todos. Deveríamos ser aptos a deixar-nos permanecer siderados pela arte, pelo objecto artístico. Deveríamos tornar-nos aptos a ver a realidade, não apenas a olhar a realidade. O nosso olhar é um olhar formatado. E é um olhar formatado porque somos desde cedo acostumados a olhar em rebanho. Quando olhamos em rebanho vemos tal qual os outros veem e ouvimos tal qual todos os outros ouvem. O problema é precisamente esse. O problema reside no facto de nos deixarmos ser todos os outros. Quando contemplamos arte deveríamos ser predispostos a estar lá a sós. Nós e o objecto que contemplamos. Sem mais delongas. Nós e a nossa intensa solidão. Somente assim é possível que a arte nos toque. O raio da arte, esse algo que ninguém sabe bem o que é. Porque é que alguém decide destruir a sua vida na fabricação de coisas inúteis? Para que servem as coisas inúteis? Será que? Será que é a arte que é inútil ou somos nós que nos deixamos sorver na inutilidade das nossas estúpidas existências? Que raio de sociedade esta? Que raio de sociedade peneira de tal modo a realidade que somente permite o reconhecimento da estupidez?

domingo, 9 de abril de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XXXII

XXXII

Rui Carvalho: se o mundo é em constante devir, se o mundo está constantemente a ser o outro de si mesmo, como se verifica esse atolamento na mesmidade? Como é que a mesmidade acontece num mundo que nunca é o mesmo? Como é que esse atolamento na mesmidade nos mostra o mundo tal qual ele é? Como é possível acedermos à verdade? Como é que podemos aceder a qualquer tipo de certeza, por mínima que seja?

Void: o mundo é a eterna repetição do mesmo. Contudo, nada permanece igual a si mesmo no decurso desse processo de eterna repetição. Basta contemplarmos uma fotografia nossa quando adolescentes ou quando éramos crianças, compará-la com quem hoje somos. Qualquer semelhança é quase mera coincidência. 
Somos outros sendo os mesmos que éramos. Há uma identidade que percorre as nossas vidas. É em função dessa identidade que nos erigimos como pessoas. O mesmo acontece com tudo aquilo que nos rodeia. Não obstante o constante processo de deterioração que é imanente ao mundo enquanto tal, há uma identidade que percorre os vários momentos constitutivos do ser a ser-se. A esse processo chamamos devir. O devir é a nossa única realidade. Tudo aquilo a que temos acesso é a essa amostragem do ser a ser-se. Acho que não podemos chamar-lhe “verdade” em sentido pleno. Tudo aquilo a que podemos ter acesso é uma mostragem do mundo. A “verdade” é-nos dada como amostra, é-nos mostrada ou desvelada. Nada nos é dado no âmbito da certeza. 
Nossa única certeza é sermos entre o nascimento e a morte. 
Somos as várias etapas entre o nascer e o morrer. O que verdadeiramente conta é o modo como nos exercemos no decurso das várias etapas que constituem as nossas vidas. Podemos exercer-nos melhor ou pior. Podemos nem sequer exercer-nos. A maioria das pessoas jamais se exerce ou exerceu. O que conta é o modo como tentamos ou não tentamos moldar o mundo. Podemos falar da realidade como sendo uma espécie de húmus que pode ser por nós moldado. Podemos tornar o mundo um pouco mais belo ou um pouco mais estúpido. Isso depende do modo como nos exercemos, do modo como cada um de nós se exerce. 
É fundamental que nos deixemos atolar na mesmidade, que nos deixemos tocar pelo tédio, pelo tédio resultante da eterna repetição do mesmo. Que nos deixemos rodopiar pelo tédio, que o tédio nos impregne na vontade de mudar o mundo, de moldar o mundo na beleza. Sim, o húmus do mundo é moldável. É fundamental que possamos moldar o mundo no sentido da beleza, que constantemente nos exerçamos contra a estupidez, a cada passo dado. É fundamental que não nos deixemos ser gente meramente quantitativa. Que nos ergamos contra o mal da estupidez, contra o homem quantitativo, contra o homem meramente quantitativo, contra um mundo meramente quantitativo. A estupidez é deixarmos que nos moldem, a nós e ao mundo, como entidades meramente quantitativas. 

sexta-feira, 7 de abril de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XXXI

XXXI

Rui Carvalho: Segundo afirmas, o inconformismo é um sintoma de algo que classificas como doença da verdade. Estamos então perante uma patologia? O inconformado está doente? Está doente e precisa ser curado?
Void: O doente de verdade sofre a patologia da inadequação. Ora, o que é isso a que chamamos de inadequação e porque é que se trata de uma patologia? Acontece que ao inadaptado não lhe chega a realidade das coisas a ser. O sendo das coisas é volátil, dá-se-nos a uma velocidade estonteante. Tanto a velocidade quanto a volatilidade são empecilhos ao conhecimento. É impossível conhecer aquilo que está constantemente a ser de várias maneiras e modos. O crescimento e a deterioração da matéria são sinónimos ao mundo. Contudo, como aceder à verdade daquilo que é o seu próprio deterioramento? 
Inadequado às estratégias da mundanidade, o doente de verdade necessita adquirir um foco de sentido, necessita ter a realidade parada perante si de modo a poder auscultá-la. Para que tal aconteça, o primeiro passo é estar só. Somente na solidão a realidade nos pára. Junto com o ruído de todos os outros é impossível a concentração. O doente de verdade precisa da lonjura dos outros para estar perto da paragem do mundo. O doente de verdade é pois no âmbito da solidão. É só e quer estar só. É no decurso dessa vivência da solidão inerente à paragem do mundo que se verifica o acontecimento fulcral do tédio. O tédio. O tédio é a sintomatologia do mundo a ser-se, sendo que essa sintomatologia do mundo a ser-se é sentida no cerne da vida do doente de verdade.  A vida é precisamente o tédio a acontecer-nos. A sintomatologia do tédio deriva do sentir a constante e eterna repetição do mesmo. É justamente a vivência dessa sintomatologia do tédio a acontecer-nos que enforma o artista enquanto tal. O auscultamento da realidade é o oficio do artista. Refiro o artista enquanto criador, enquanto ser que age a realidade, que a molda consoante novas formas de ser e de pensar. O artista molda a entediante realidade numa qualquer outra coisa mais excitante. O primeiro movimento criativo consiste no atolamento na mesmidade. Atolado na constância do ser mesmo das coisas o artista entra em turbilhão. É precisamente aí, no  decurso do turbilhamento, que ocorre a criatividade. Na criatividade o artista gira em turbilhão. É aí que encontramos a génese do acto criativo. 
É neste contexto que o artista se torna actor. O actor é aquele que age a realidade, aquele que não se conforma com aquilo que o circunda e que não se conformando com aquilo que o circunda o transforma ou pretende transformar numa outra coisa.
Sim, até certo ponto podemos dizer que o inconformado é uma pessoa doente. É uma pessoa doente porque não consegue adequar-se à realidade tal qual ela é. Contudo, é justamente esse inconformismo que molda o húmus do mundo, que transmite ao mundo o grau de excitação que nos impede de morrer de tédio. Sem arte, sem artistas, sem doentes de verdade, qualquer humano com pelo menos três neurónios a funcionar ao mesmo tempo rapidamente morreria de tédio. Não, não há cura para a doença da verdade. Há a estupidez, mas a estupidez não nos cura de nada. Muito pelo contrário, a estupidez é a origem de todo o mal.  

sábado, 25 de março de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XXX

XXX

 Rui Carvalho: Consegues definir melhor esse conceito de necessidade de verdade?

Sebastien Void: A necessidade de verdade é uma espécie de doença. Trata-se de uma inadequação que nos obriga a perscrutar indícios de certeza no domínio da incerteza.  O diagnóstico da patologia ocorre da verificação de um movimento de recusa. O doente de verdade recusa-se ser um mero espectador, um mero habitante passivo de um mundo fabricado. A artificialidade do mundo é dada em oposição ao denso semblante da natureza. Digamos que a natureza é cruel, pelo menos numa perspectiva humana. Trata-se de matar ou morrer, matar ou deixar-se matar. Perante a fatalidade da luta de morte que é constitutiva na natureza enquanto tal, o humano inventou a artificialidade. A artificialidade constitui-se como uma segunda pele, como uma espécie de camuflagem da natureza. É nesta tentativa de camuflagem da natureza que se erige a sociabilidade. O homem social recusa a fatalidade da luta, recusa a inevitável fatalidade da vitória do mais forte. No âmbito da sociabilidade o bom não é mais o mais forte, o bom é aquele que melhor se sabe camuflar. O âmbito da sociabilidade é um âmbito artificial. Bom, o problema é que a ambição humana é desmedida, desmesurada. A ambição humana extravasa todos os limites da razoabilidade, não raras vezes ocorre no domínio da mera loucura. Por vezes essa loucura é uma loucura colectiva que acomete não apenas um indivíduo ou um grupo de indivíduos, mas toda a sociedade. No limite da loucura aquilo que se pretende não é já uma mera camuflagem, ou a constituição de uma segunda pele. No limite da loucura aquilo que se pretende é domar a natureza, moldar a natureza ao gosto de quem a molda. Ora, esta tentativa de domar a natureza é uma tentativa insana. É claro que a natureza é indomável. Podemos precaver-nos ou minimizar os estragos de uma natureza em ebulição, contudo, é impossível agrilhoá-la ao ponto de fazê-la estritamente obediente aos ditames do humano. 
A realidade é o âmbito da incerteza. Somos habitados pelas areias movediças do quotidiano. As areias movediças do quotidiano são inseguras. A cada movimento somos lentamente soterrados numa espécie de conformismo. A recusa ao conformismo é um indício que estamos doentes. Somos tocados pela necessidade de verdade, e ao sermos tocados pela necessidade de verdade somos desde logo condenados à patologia do absurdo. A maioria das pessoas não tem sequer noção que é habitado pela incerteza. A generalidade das pessoas é conforme àquilo que é e à situação em que está. Traduzidas na ambição, as pessoas moldam-se ao meio ambiente. Também os nossos mundos são moldados pelo que ambicionamos, pelas nossas pequenas ambições. 
Aquele que percorre a necessidade de verdade é habitado pelo inconformismo, um inconformismo até à medula. O inconformismo brota precisamente dessa necessidade de verdade que tinge a vida do artista. Neste contexto o artista é sempre aquele que mais perto está das figuras do louco ou do criminoso. O inconformado está à margem. E está à margem porque quer estar à margem, é-lhe de todo impossível ser de outra maneira. O artista é o verdadeiro doente de verdade.