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sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Sobre toda a escuridão - XIV - Fotografia: José João Loureiro; Texto: Rui Carvalho



A vitória da luz sobre a escuridão é uma ambição que nos dura desde sempre. A invencibilidade do fogo, esse ardil de Prometeu. Após adquirimos o poder do fogo julgámo-nos invencíveis. Desejamos que a realidade brilhe, deve ser isso. Desejamos tanto que a realidade se cinja ao fenómeno do brilho que tudo parece brilhar. Somos contudo idênticos à linha do equador; e isso significa que em nós não há solstícios. Doze horas de luz e doze horas de escuridão - eis tudo o que somos.
Sim, todas as nossas vitórias se fundam em meras ilusões. Tendemos para olhar a realidade tal qual pretendíamos que ela fosse. É aí que reside a nossa ilusão.

Doze horas de luz e doze horas de escuridão. 

Em nós, em nós não há solstícios.


Fotografia: José João Loureiro
Texto: Rui Carvalho

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Sobre toda a escuridão - XIII - Fotografia: José João Loureiro; Texto: Rui Carvalho



Como não percebemos que a história se revela tão mitológica quanto a mitologia ela mesma, e que chegamos à figura de Cristo através do percurso dos mitos? Transformámos a mitologia do Sol vencedor num acontecimento teológico. Sim, a vitória da luz sobre as trevas é uma ambição de sempre. 
Mantemo-nos contudo na periferia das coisas. Há vitórias que não nos dão nada de novo. Pelo menos neste mundo. E não seria necessária a sua reversão para que existisse qualquer outro? Qualquer outra coisa que não esta imensa escuridão?
Aproximamo-nos do solstício de Inverno como se nos aproximássemos de um trem em andamento. Corremos céleres até estarmos quase próximos. Quando estamos próximos, o trem afasta-se de nós. De qualquer modo, não temos fôlego para mais…

Fotografia: José João Loureiro
Texto: Rui Carvalho

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Sobre toda a escuridão - XII - Fotografia: José João Loureiro; Texto: Rui Carvalho


Um deserto que tudo acolhe não é lugar para gente como nós. Os proscritos são isentos, escolhem lugares onde jamais poderão estar. E nós, os isentos proscritos, vagamos silêncios que mais ninguém ouve. 
Não temos mais com quem falar a não ser com gente como nós. Nós, os incomuns proscritos, desdenhamos o comércio deste mundo. Desdenhamos os lugares onde todos os outros vagam, este império de dejectos assombrando a mesquinhez. 
Procuremos idênticos ouvintes e caminhemos então. Caminhando, façamo-nos medrar entre as pedras em caminho. 
E o silêncio, o silêncio é uma escuta árdua, exige toda uma solidão.
Sejamos pois em continua fuga aos resquícios deste mundo, ao soterramento que nos impingem. Fujamos do mundo como quem foge de um Deus irado. Ao fugir do mundo aproximar-nos-emos da queda, da queda e da água antes da queda. 
Aproximemo-nos da água escorrendo em catadupa, esse lugar desde onde nossos ossos nos escreverão as mais belas canções. Em nós haverá o poder da água ardendo dentro das gargantas sedentas, o íngreme lugar desde onde nos ocorre o intuito das palavras. 

De qualquer modo, este deserto que tudo acolhe jamais será lugar para gente como nós.

Fotografia: José João Loureiro
Texto: Rui Carvalho

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Sobre toda a escuridão - XI - Fotografia: José João Loureiro; Texto: Rui Carvalho


A realidade gera-se na constante luta dos opostos, e a isso se deve o facto de estarmos desde logo condenados a singrar no absurdo. Mesmo que nos fosse possível correr o mundo de trás para a frente, em nada se alteraria a sequência das nossas vidas. Tal qual um corredor de barreiras na inversão da corrida, seriam exactamente os mesmos os obstáculos onde cairíamos. 
É isto: somente  sabendo quem somos seremos aptos a saber aquilo de que somos capazes.
Adquiri a sabedoria das coisas, a evidência que o mundo se restringe a isto. Qualquer coisa entre a profunda tristeza e a mais intensa alegria. 
Ou vice-versa. 
Sim, somos nós o mito de Sísifo; aqueles que transportam a intensa alegria da pedra que nos coube. 

Eis-nos a consciência da queda, Camus, meu Irmão. 


Fotografia: José João Loureiro
Texto: Rui Carvalho

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Sobre toda a escuridão - X - Fotografia: José João Loureiro; Texto: Rui Carvalho



Permaneço sentado, com a cabeça entre as mãos. Assim me reservo a embriaguez dos lugares. Dirijo-me ao centro das coisas para que ai me possa habitar, tornar-me rente aos precipícios, todos os locais onde me faça cair. 
Como uma chuva de flechas certeiras, que a verdade sobre mim se abata. Que seja o mundo uma realidade incompreensível e que ainda assim me possa restar ao gritante desespero. 
De qualquer modo, correrei célere após o cansaço. Abrirei os braços como asas sobre o mar e assim permanecerei. Haverá um instante em que serei seguro, seguirei a sombra dos meus gestos, o mais intenso dos percursos. 
Nada há após a morte. Nada excepto o brilho do que fica. 
É essa a única luz que me interessa, a das estrelas cintilando rente aos olhos dos viventes. 

Deus disse: que a luz se faça! 

E no instante a luz se fez.


Fotografia: José João Loureiro
Texto: Rui Carvalho

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Sobre toda a escuridão - IX - Fotografia: José João Loureiro; Texto: Rui Carvalho



Segundo parece, a realidade é imbuída na mecânica do salto. Tudo terá começado a existir no salto dado de um vazio para outro vazio, com um outro vazio pelo meio. Desde o início dos tempos nada mais houve a não ser essa profusa repetição. 
Também o humano é um ser repetivel. Jamais deixámos de ser a repetida profusão de vazios sobre vazios. 
De tempos em tempos julgamos poder prosseguir a marcha; até porque há saltos que nos levam desde não sabermos onde até não sabermos onde. Ainda assim, não podemos escapar à acessa mania de nos situarmos. Criamos lugares fictícios onde julgamos poder fixar-nos, e aí mimamos os figurinos da alguma felicidade. Vestimos fatos pré-feitos que achamos ficar-nos bem.
Contudo, é o umbigo, são os nossos umbigos que nos centram o mundo. Pouco mais somos que essa peculiar cicatriz. Após termos chamado a nós o poder gravitacional do mundo não existirá mais nada a fazer a não ser mantermo-nos sustidos na força de Atlas, suportando o peso da realidade com os nossos ombros. Quando nossos ombros ruírem, nossas vidas ruirão com eles.

De qualquer modo, que outra coisa poderia existir no hiato entre a não vida e a vida, entre a  unicelularidade e a pluricelularidade, que outra coisa que não o incompreensibilidade do vazio?

Fotografia: José João Loureiro
Texto: Rui Carvalho

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Sobre toda a escuridão - VIII - Fotografia: José João Loureiro; Texto: Rui Carvalho



Poucos são os objectos à altura dos nossos olhos e há distâncias impossíveis de elidir. Ao aproximarmo-nos da realidade a realidade afasta-se de nós, e, quando nos afastamos, a realidade aproxima-nos. 
A dada altura, a morte ser-nos-á tão próxima que nela tropeçaremos. 
De qualquer modo, quando deixarmos de nos colocar perguntas as perguntas encarregar-se-ão de vir até nós. Bom, desde que não sejamos completamente imbecis, o que já não é coisa pouca. Um pouco antes da morte, o mais tardar, será esse o momento da descoberta dos instrumentos. Descobriremos que os instrumentos não têm apenas uma funcionalidade, que a instrumentalidade do mundo nos é transmitida na função do tropeço. Que continuamente tropeçaremos nas coisas, como crianças, e, que, na verdade, nunca deixaremos de fazê-lo. 
Seria pois fundamental treinarmos os gestos, colocarmos os corpos em sintonia com o rasar do risco. Sabermos depois encarar o vazio, esse peso que nos suga, de dentro, para dentro. 
De qualquer modo, as vísceras aguardam-nos um destino animalesco, tornar-nos-ão podres de desconhecimento. 

Que o mundo me seja rente à precisão dos ossos, o feroz momento em que a carne se rasga até ser um sortilégio de lugares difusos. 

De qualquer modo…


Fotografia: José João Loureiro
Texto: Rui Carvalho

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

Sobre toda a escuridão - VII - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho



 Que as divindades nos re-enviem a destruição, o mito do dilúvio; o mais humano desejo - a vida.
Que chova a potes, direi:
necessitaríamos esticar as cordas vocais até ao rebentamento dos tímpanos. Talvez desse modo o humano pudesse deixar de ser “isto”, esta coisa chafurdando a inocuidade. Seria necessário sermos adquiridos na arte de nos fazer doer a voz. Que na voz doída soubéssemos re-interpretar-nos nos sonhos. 
Alguém teve o talento de construir a arca onde vagarmos os oceanos. Sim, sempre houve  quem tivesse o dom de predominar na beleza. 
A arte. 
A arte aqui está, basta deixarmos que nos perpasse. 
Somos contudo falhos de sabedoria. Falta sabermo-nos adquirir no dom do embarque, sabermos que sem embarcarmos jamais desembarcaremos, jamais deixaremos de ser a vil mesquinhez. 
Entretanto.
Nada terá valido a pena quando as águas baixarem se quando as águas baixarem o mundo voltar a ser o mesmo, se continuarem a existir arco-íris mas nenhuma promessa que grasse. 

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

Sobre toda a escuridão - VI - Fotografia: José João Loureiro; Texto: Rui Carvalho



O cair da noite revela-nos uma proposição fundamental: para que as luzes brilhem é necessário que o escuro se faça. Além do mais, as bermas da estrada são repletas de luzes. Não, não há como transpor a matéria, a espessura do mundo. Outra coisa que não seja o sofrimento da inadequação.
Existem cinco caminhos possíveis: seguir em frente, voltar atrás, tombar as bermas ou restar no mesmo sítio.  
Resta-me permanecer sentado, com os livros a arder-me nos olhos. Sentir que - tudo se move, que o espirito vaga sem peso. 
O trânsito flui, como um rio correndo. Se o seguirmos com o olhar vêmo-lo tombar no horizonte. 

Seja como for: o futuro não existe, nada que não seja esta intensa prontidão para partir. 

Fotografia: José João Loureiro
Texto: Rui Carvalho

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Sobre toda a escuridão - V - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho



Habitámos casas perto da rendição, pintámo-las de cores vivas, entre o vermelho sangue e o brilho de teus olhos. Pintados de negro, exercemos o  esforço guerreiro de durar. 
Sim, procurámos o mundo onde ele não existe.
Quanto a mim, quero apenas manter-me branco, forte; branco e alcalino como a cal. Assim saberei controlar a aridez do solo. 
Quanto às casas: todas perecerão. As casas são devolutas e, além do mais, um qualquer abrigo me serve. 
Sejamos claros: somos vitimas do passado, do nosso passado; a partir de agora apenas teremos futuro, e, algumas rosas rareando nas pétalas - silabas tombadas no abandono. 
Será que apenas eu saberei dizer as coisas difíceis? A dificuldade da partida. 

Nem mais nem menos: saberei ser a superação do deserto. Abandonar-te-ei por não saber já  como amar-te mais.

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Sobre toda a escuridão - IV - Fotografia: José João Loureiro; Texto: Rui Carvalho



  Este seria o caminho… As pedras seriam purificadas e o solo abalaria nossos pés.
Libertar-nos-íamos das arestas. Seriamos carcomidos pelo fogo até atingirmos o limite da paixão. 
Jerónimo caminharia connosco, os proscritos.  
Em nada me interessa a economia do mundo. Nada excepto os frutos secos, as íngremes paisagens cortando a respiração, a aprendizagem desse salto tornando-me maldito. 
Que as vozes entrecortem a visão deste silêncio. Que minha mão se torne escrita. Que nela ecoe um sopro vindo de longe, da inóspita lonjura onde lentamente Jerónimo enlouqueceria.
O deserto calcídico, a sudoeste de Antioquia.
Roma é já um lugar distante, essa longínqua cidade onde aprendi a mestria da multiplicação dos orgasmos, onde as mulheres que possuí me foram dadas na mais intensa e espasmódica alegria. Aí, junto ao prodígio de Stridon fui mestre na oferta do prazer.
Contudo, a mundana alegria das mulheres que possuíra jamais de mim elidira a mais agreste e profunda tristeza.

Jerónimo, o Homem, tocando a maldição!

Fotografia: José João Loureiro
Texto: Rui Carvalho

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Sobre toda a escuridão - III - Fotografia: José João Loureiro; Texto: Rui Carvalho



Parar de crescer, o primeiro passo. Não permitir que as obrigações sociais nos minem ao ponto de subverter-nos à mera factualidade. Estabelecer o equilíbrio no ponto de equilíbrio e aí permanecer. O primeiro passo. O primeiro passo é dado de encontro ao mundo, de encontro à factualidade do mundo. O primeiro passo consiste em saber que por detrás dos factos existem ideias, que são as ideias que sustentam os factos. 
Por conseguinte, as sociedades são o que são e tal qual são porque alguém as idealizou assim. O primeiro passo consiste em perceber que existe uma realidade natural e uma realidade social. À realidade natural temos que nos adaptar o mais possível, viver em consonância com os factos naturais, o mais possível. Quanto à realidade social, essa é uma realidade que apenas depende de nós, do modo como idealizamos o mundo. É esse o primeiro passo, percebermos que não existem inevitabilidades. As inevitabilidades sociais são falácias que nos pretendem fazer tropeçar, que pretendem fazer-nos cair no engodo da pós-história. Apenas as inevitabilidades naturais são quase irreversíveis. As catástrofes sociais são da nossa inteira responsabilidade. 
Assim sendo, depende de nós tornamo-nos a natureza morta que quisermos ser, frutos apodrecidos até não ter retorno ou o vicejar por entre as chamas.
De qualquer modo, a defesa do capitalismo é algo que resulta da nossa incapacidade para perceber o mundo ou isso ou o facto de sermos gente absolutamente abominável. 

Fotografia: José João Loureiro
Texto: Rui Carvalho

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Sobre toda a escuridão - II - Fotografia: José João Loureiro; Texto: Rui Carvalho



      Nascemos dentro de carruagens. Dentro das carruagens nos exercemos na fugacidade. É esta a primeira paisagem que vemos, o primeiro foco de sentido: as coisas fugindo-nos os olhos, como cometas. Contudo, os órgãos de equilíbrio possibilitam-nos andar sem cair, tornar-nos mais seguros a cada passo. 
Ao fim de muitos passos adquirimos a forma do caminhar. 
O caminhante é aquele que caminha. 
Há uma correlação ontológica entre o caminhante e o caminho que perfaz. Regra geral o caminho é-nos predeterminado, são as predeterminações que nos enformam na segurança. Na segurança todo o lodo se mostra plausível. É no lodo que nos deixamos seduzir. O equilíbrio ausenta-nos à vertigem. 
A carruagem segue o andamento das coisas, induz-nos no sincronismo. Adquirimos a noção que as coisas nos são síncronas. No sincronismo deixamo-nos acompanhar no delírio da certeza, de estarmos absolutamente certos no percurso que nos é dado percorrer. Toda a dúvida se revela então um empecilho no sistema. 
As carruagens seguem os trilhos da indubitabilidade.
Logo após a segurança atingimos a vanglória. Tomamo-nos de temor pelo desequilíbrio, pelo temor ao movimento durante um período prolongado de tempo.
Rodo sobre mim próprio com os olhos vendados. Assim atinjo a labirintite, a forma súbita da  vertigem, o processo infeccioso que afeta o ouvido interno. 
A náusea e o vômito são condições necessárias ao recobro. Sem a vivência do nojo jamais vislumbraremos a vagueza do mundo, que somos atrelados como sombras nos trilhos da indubitável certeza de nada haver a fazer, quando na verdade nada sequer ainda foi feito.   
Os objetos são algo em redor, algo que se mantém em constante movimento. Há toda uma  realidade vagando no vácuo. 

O sentido da vertigem, é aí que devemos cair. Sem o percurso da queda jamais vislumbraremos a possibilidade de nos ergueremos do chão.


Fotografia: José João Loureiro
Texto: Rui Carvalho

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Sobre toda a escuridão - I - Fotografia: José João Loureiro; Texto: Rui Carvalho



Erigimos esta imensa prisão a céu aberto e escondemo-nos por detrás das grades. Seria expectável termos deixado os banqueiros de cabeça para baixo, enterrados no lodo até ao tutano. Mas, não. Os mais vis seres habitando este solo usufruem total liberdade no exercício da perfídia. 
Há uma lei a que chamamos lei da causalidade. É essa a mais poderosa das leis. Não as leis dos códigos. Códigos penais, códigos civis. Os códigos e as leis que os códigos ditam. Raios partam as leis dos códigos e o que elas permitem: que a riqueza fuja sempre para lugares paradisíacos.
Fosse eu um Cínico (um Cínico Grego, tal qual se deve ser) dir-vos-ia: a estupidez tem consequências, meus Amigos. Melhor dizendo: “Se não A, então não B”. 
Não fossemos abstrusamente estúpidos estariam os banqueiros presos e exerceria-mo-nos nós na liberdade. Dito de outro modo, a lucidez seria um requisito necessário à prossecução da alguma justiça. Sim, a alguma justiça, não a justiça total, a qual implicaria a erosão do mal. O mal, que tão só é uma condição natural do mundo. Sem o mal não existiria o bem, e, sem bem nem mal seriamos no âmbito do angelical. Há contudo mínimos exigidos para que o humano se exerça na decência e esses mínimos nunca foram cumpridos. 
Foi coisa pouca Jesus. Jesus e a expulsão dos vendilhões do Templo. Os vendilhões sabem muito bem como auto-multiplicar-se, a eles e ao comércio do engano.  
Acontece que deveríamos ser aptos a estabelecer não apenas a correlação significativa entre a razão da pobreza e a pobreza em concreto, mas essencialmente os reais mecanismos que permitem a perfídia, isto é, deveríamos ser certos que apenas a ausência de A poderá inibir a ocorrência de B. Não é suficiente sabermos tão só a razão lógica de um determinado fenómeno, seria essencial  perscrutarmos, apreendermos a sua inteligibilidade.
Em suma:
Não é possível extirpar a ganância do coração dos homens, mas é possível extirpar os homens abjectamente gananciosos do coração do mundo. 

Claro está, não fossemos estultos como pedras.

Fotografia: José João Loureiro
Texto: Rui Carvalho