Translate

Mostrar mensagens com a etiqueta Desertos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Desertos. Mostrar todas as mensagens

domingo, 3 de junho de 2018

Desertos - XLIII - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



Digamos que os sonhos de apagam, que se vão tornando cada vez mais ténues. No início dão-se com uma força tal que nos empurram à acção. Depois, é a acção que nos empurra. Deixamo-nos ficar colados ao mundo e colados ao mundo tornamo-nos horizontais. A verticalidade dilui-se com o tempo. Damos por nós sendo quem jamais quisemos ser. 
O mundo ocorre-nos como uma beleza hostil. Nós ocorremos com o mundo. Somos qualquer coisa transcorrendo entre a bestialidade e o divino. 
E.
Há imagens que nos espelham melhor que o nosso olhar no espelho. O abandono. Quando a manhã ocorre o mundo torna-se tarde. Como rios desaguando as encostas de uma qualquer lixeira, somos levados na enxurrada. O primeiro a chegar sente-se mais alto, mais próximo da afirmação. Aí chegados, perdemo-nos na obesidade mórbida.  
Deixamos para trás as incertezas. 
Deveríamos manter sempre uma distância segura relativamente à estupidez. Até porque, qualquer travagem do veiculo da frente nos trará a colisão. Subtraímo-nos ao que poderíamos ter sido e esse é o pior retrocesso. Rondamos o abismo cheios de certezas até cairmos de bruços sobre o nosso próprio vomitado.

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho


quarta-feira, 30 de maio de 2018

Desertos - XLII - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



Alguns lugares são inclinados, descem até às raízes das árvores. Apontados ao centro da terra, aí nos olharemos pela primeira vez. Despidos de roupas somos assim: pedaços de carne, diluídos até à putrefação. 
Abandonámos os quartos vazios, deixámos as salas plenas de insectos. Dirigimo-nos depois para longe. 
Alguns quilómetros antes do fim julgamo-nos perto de vencer o mundo. Basta contudo breves segundos para que tudo se desvaneça. 
Ainda assim, é importante o modo como nos damos à morte. 
Vamos sendo arquivados no fluxo das coisas, será nesse fluxo que ocorrerá nosso rasto. As direcções são múltiplas e, há escolhas que não têm retorno. O horizonte é longo e curvilíneo. Desse facto se infere a impossibilidade do voo. Boca a boca acendemos pequenos luzeiros. Como morcegos, irrompemos as cavernas guiados pelos ecos emitidos. Assim vamos caindo até rasarmos a descrença. 
Tornamo-nos voláteis. Voláteis e inúteis. Não há como evitarmos a perda das asas. Mesmo que a madrugada ocorra não deixaremos nunca de vagar na sombra do que fomos.

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

sábado, 26 de maio de 2018

Desertos - XLI - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



O tédio invade-me, irrompe por dentro das casas. Depois, em longos tragos, a inundação desapropria-me das várias dependências. Todas excepto uma. Aquela que comigo formará uma necessidade básica: o solipsismo, a pre-condição para que a existência ocorra.  
Os nossos passos tropeçam o chão e, além do mais, deus recusa o comércio dos homens. Essas são as duas condições que nos revelam quem somos. Ocupamo-nos de coisas supérfluas, nada que esteja directamente adstrito à noção de peso. Ainda assim, acedemos ao peso por via indirecta. Após o tropeço rasamos o chão. Somente então são nossos focinhos guiados para a assimilação das profundezas. Antes da queda o solo é uma realidade indescernível. Somente na queda o mundo nos dança.     
“A angústia faz-nos dançar!” - terá dito o Mestre.
Entretanto, haverá que aguardar o último instante antes que a loucura se instale. Enquanto isso, percorramos o percurso das sombras, brindemos o amor e o ódio, todas as artes perigosas em demasia. 
“Com as pedras afiadas dentro dos bolsos desafio-vos para o exercício da queda!” - terá ainda dito o Mestre.  
Então sim, estaremos aptos para ouvir-nos os ossos, o trote ascendente do cavalo de Turim.

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

quinta-feira, 24 de maio de 2018

Desertos - XL - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



Fornicando o dilúvio, Jocasta levita os espasmos até que Édipo perca a visão. Antígona permanece emparedada entre os meus olhos. Sigo o mesmo caminho de sempre, percorro-me até à densificação do solo. A paisagem intensifica-se e, como se nada fosse, as paredes ruem. Após haverem ruído tudo fica a descoberto; a loucura, inclusive. Da vulva da viúva de Laio irrompeu o trágico desmando, os longos frutos do incesto. 
Toda a sorte me abandonou com excepção de Antígona, minha filha. Somente Antígona não me abandonou ainda. Foram curtos os meus dotes de pai e ainda assim sou bafejado no amor filial. Expulso de Tebas por meus próprios filhos, vago agora o que de mim resta, meu próprio exílio no rio dos mortos. 
Tal qual a paz, a guerra não conduz a lugar algum. Polinice e Etéocles, meus filhos, morrerão na cobiça, e na cobiça darão meu trono a Creonte. Somente Antígona permanecerá no amor. Perante o insepulto cadáver de Polinice se reerguerá a sua dor. Contrária à proibição imposta por Creonte, pois que quem sem os rituais fúnebres morresse condenado seria a vagar as margens do rio que conduz ao mundo dos mortos, sem poder jamais alcançar o outro lado. Com suas próprias mãos, Antígona enterra seu infeliz irmão. Ao enterrá-lo se enterra em sua própria morte. 

Emparedada entre meus olhos, assim Antígona permanece. Desde agora, para sempre.

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Desertos - XXXIX - First and Last and Always



São as máscaras que usamos que suportam o peso de sermos quem somos. Contudo, tarde ou cedo teremos que haver-nos com a crueza dos factos. A luz da noite irromper-nos-á os dias e as máscaras cair-nos-ão no desassombro. Saberemos então que nada resiste à temperatura do fogo, nem os homens de fatos de amianto retorcendo o aço, nem as mulheres que em casa os esperam com filhos de colo nos braços. 
Somos mais ou menos dúcteis, é certo. Diferimos quanto ao grau de deformação que nos é possível suportar, pelo menos até ao momento da queda; esse incurável precipício onde todos nos devastaremos. Atingida a temperatura de fusão os átomos dispõem-se de modo que a estrutura atómica irradie a possibilidade de deslizamento. Os átomos deslizam então uns sobre os outros, permitindo assim o estiramento da matéria. Há pois quem seja apto a estirar-se sem romper-se, a transformar-se na ténue espessura desde onde o espirito transcorre. 
Outros há que jamais se estiram, e, assim se gerem na necessidade dos muitos: revestir-se no incombustível asbesto, adquirir-se  na estúpida pretensão de resistir ao incomensurável arbítrio do fogo.
Contudo, as máscaras usadas apenas podem permitir-nos escapar à intensidade das chamas, jamais à asbestose, às incuráveis lesões do tecido pulmonar causadas pelo ácido exalado no interior do organismo. Esgotada pois a tentativa de dissolver as mortais fibras que nos jazem, as lesões tornar-se-ão tão extensas que nos impossibilitarão o funcionamento dos pulmões. 
Aguardemos então o período de incubação, a latência da doença. Aguardemos cerca de 30/40 anos:

A fragilidade no rasgo, o instante da ruptura.

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

segunda-feira, 12 de junho de 2017

Desertos - XXXVIII - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



Mais coisa menos coisa, a adolescência foi a cem metros daqui - enrolando bobines de aço fervendo - descortinando no trabalho a sua estupidez genérica. Os homens indo e vindo, rotativamente, em turnos rotativos, sujos de um trabalho sujo. O pior que fica é essa experiência da igual soma dos dias, os dias somando-se sem nada que verdadeiramente nos importe ou acrescente. Apenas algumas queimaduras nos braços marcando a solidez dos ferros em brasa. 
O lugar onde meu pai nasceu, o cemitério onde jazem alguns amigos, alguns deles tendo acertado a vida em cheio, tal qual os elefantes se abatem na senda do marfim. 
Há noite a música saía da eterna garagem de um amigo, tudo no mesmo perímetro. A vida, a morte e o seu intermédio.
A adolescência foi a cem metros daqui, a cem metros da morte, a cinquenta metros de não se saber bem o quê. 
Haverá uma zona intermédia onde a vida se agita, desde lá até então. O sumo sai agora. É isso que importa: 
- que o sumo verta e que em cheio atinja o cerne do mundo;
- que os corações se gastem de tanto bater; 
- que o fumo dos cigarros se nos pregue nos pulmões;
- que o álcool me mine até à putrefação do fígado. 

A adolescência, esse amor para sempre!

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

quarta-feira, 7 de junho de 2017

Desertos - XXXVII - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



Haverá sempre alguém que corre em contramão, alguém que deteste a finitude e detestando a finitude dure todo o tempo a apreende-la. 
De qualquer modo, a luminosidade dos túneis por onde o sangue passa é pelo menos tão intensa quanto isto. 
Apressamo-nos na fuga àquilo que somos, um desastre tão simbólico quanto o desrespeito pelos sinais vermelhos. Podemos sempre escapar-nos às multas por excesso de velocidade, mas jamais ao sangue que nos corre por dentro das veias. A determinada altura a pressão será tão intensa que a alma rebentar-nos-á por dentro das vísceras. 
É para isso que me preparo. Para saber cumprir a morte. Ouvi-la chegar de raspão, essa fracção de segundo que é tudo que somos. 
Pouca coisa resta dos lençóis de água onde um dia vibrámos os sonhos, pouco mais que a  precoce necessidade de seguir em frente. Ouvir o sinal de alerta e ainda assim prosseguir a marcha. 
Depois do sinal de aviso virá o trajecto do comboio. Ninguém esperará mim. Nem o comboio deixará de seguir seu destino, nem eu darei a mão a quem não quero. 
Não me restarão mais estações nem apeadeiros, tão só este precipício sem fim. 
Esta coisa tramada a que chamamos Vida. 
Haverá sempre quem morra em contramão, alguém que deteste a finitude e detestando a finitude dure todo o tempo a apreende-la.  

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

domingo, 4 de junho de 2017

Desertos - XXXVI - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



Assim sou:
uma vida erigindo a passada, adquirindo o modo da velocidade não excessiva; este vício de nada querer de raspão. Qualquer outra coisa que não a precisão da dor de todos os ossos penetrando fundo. 
Esta estúpida pretensão: algo como a elasticidade dos segundos, que os segundos sejam elásticos, que me durem mais que o possível. A eterna ressaca de um qualquer conforto  contornando a embriaguez do desabrigo, esse algo que me permite ainda dormir, encontrar o sono, nem que seja um lugar mínimo, um par de horas que seja. Uma margem de segurança que me impeça de enlouquecer. 
Enquanto isso, os mecanismos do tempo fazem de mim cinzeiro. Tantas beatas que em mim se apagam. A imensidão das cicatrizes. Essa estrita simbiose entre a humana existência e a vida dos cinzeiros. A concisa estranheza nos objectos apagando beatas. Não, não essas beatas, não as beatas que vão à igreja. As outras. Aquelas que se fumam até ao tutano, que gangrenam nos pulmões dos fumadores. 
Há qualquer coisa de tóxico neste vício, nesta necessidade de fazer sentido da eterna repetição do mesmo. Uma vez não me deveria bastar para perceber que não vale a pena a oferenda de flores, que as flores são breves a murchar? Que nenhum sopro me salvará. Nada. Nada me abrigará das intempéries. 

Esta estúpida mania de transportar objectos simbólicos no pulso, nos dedos, no coração. 
Quando a intempérie se abater sobre nós nada nos salvará.
Meros poemas, uma qualquer musicalidade reflectindo o contrário do mundo.  

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho                      

terça-feira, 30 de maio de 2017

Desertos - XXXV - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



Os anos restam-nos desde a primeira vez e quando soar a hora da partida nada mais haverá que partilhar. Seremos qualquer coisa insidiosa. Qualquer coisa esboroando-se rente à simplicidade, algum pão acompanhando um vinho barato. Sobre a mesa jazem copos acicatando os corpos. Algumas cadeiras vagas, nada que possa já resgatar-nos ao cansaço.
Este é o intenso lugar onde nossos caminhos se bifurcam.
O céu como uma pintura de William Turner, um breve estudo sobre a cor e a luz. Poderíamos ter ficado na contemplação deste céu sobre Lisboa, teimando que só a arte nos pode salvar as vidas. 
Há contudo vozes que nos chamam, uma ponte unindo ambas as margens. É essa ponte que nos grita a necessidade de partirmos. Arranjamos então uma desculpa e assim corremos céleres rumo à infelicidade. 
Esta tenebrosa ânsia, a procura de um sentido onde ele não se faz. Percorreríamos linhas rectas, treinaríamos alguns exercícios de geometria. Contudo, o auge é sempre algures, entre o início e o fim. A acme. A partir daqui já não é possível o retrocesso e a excepção é um longo caminho, sempre em frente. 
Não estamos adequados a viver o absurdo. Esse é o anátema que nos tropeça. Deixamos que a trama da razão nos erija o mundo e nada é mais longe que esta estúpida procura pela verdade.

Os dias são longos como gelo e as horas o limite da corrida.  

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

domingo, 28 de maio de 2017

Desertos - XXXIV - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



Cimento e ferro forjado, nada que impeça a força das águas deglutindo aquele que jamais fui. 
A orgânica matéria suplanta em tudo as misturas. Sim, os materiais jamais suplantarão o húmus do mundo. Para mais, há a certeza de também nós sermos dados à corrosão. 
Conto até cinco, inspiro - expiro. 
Seja como for, tudo é dióxido de carbono, e, todos morreremos de asfixia. 
Conto até cinco. Reverto a contagem. Descolo-me dos dias como animal ao abandono. 
Ainda assim, educo-me o desejo. 
Algo como descentrar-me toda a ambição. Nada ambicionar excepto: um percurso ao contrário, isso mesmo, da morte para a vida. 
Reconto as frases feitas, os calendários com crianças sorrindo, alguns breves animais de estimação. 
Então, e, de seguida, adequo o desejo ao seu ideal objecto: quem me dera ter quatro braços e quatro pernas! tudo fazer com a precisão dos anjos. Vestir qualquer roupa intrajável, tornar-me invisível e invisível peregrinar esse fundamental gesto - destruir toda a mentira. 
Procurar ainda a substância das coisas, que as marés me atinjam e ao atingir-me revertam a contagem do tempo. Ser impossível, tal qual toda a impossibilidade. 
Entretanto, é fundamental viver as oficinas, esses locais onde as mulheres são nuas e descartáveis como fósforos; onde tudo é possível acender-se e somente tu és tão longe quanto os Km´s que nos distam.

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho



sexta-feira, 26 de maio de 2017

Desertos - XXXIII - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



Anseio tornar meu coração uma biblioteca, pejar-me de livros até ao tecto e acompanhar-me assim a secreta ambição de sobrepor-me aos mosaicos. 
Os mosaicos apenas duram até formarem a abóbada onde a vista se perde.
Adquiro o olhar no cinzento, esse tom que me sulca o bem e o mal. Aí me adequo às grandes catástrofes, e, às pequenas alegrias. 
Também os livros formam longínquas paisagens e a vida é um túnel apertado que nos conduz algures onde nos perdermos, ou não. 
Somos conduzidos como gado até esse local onde nos querem mortos, um qualquer sofá babando a estupidez que nos impingem. Tudo se trata de movimento, da inócua berraria dos apresentadores de telenovelas reduzindo-nos as diferenças, menos ainda que o preto e o branco, sem cores intermédias. 
Seria necessária a dureza do granito para suportar tanta inocuidade. Seria necessário esvaziar-me o espirito, tornar-me tão estulto quanto as várias modalidades do estar sentado. Esquecer que o mundo existe e exige participação. 
A participação nas formas são degraus a subir até um qualquer lugar onde a realidade irrompa. Por conseguinte, devo treinar os músculos até ser apto. 
Percorro agora as virgulas, todos os pontos de interrogação. A dialéctica do mundo: 
a eterna luta dos contrários até à síntese, ou, a miserável vitória do maior poder? Isso e apenas isso.
Seja como for, devo libertar-me as amarras, ganhar calo na estranheza até que nada me seja estranho.

Um desígnio; um desígnio apenas!

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Desertos - XXXII - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



Um labirinto de troncos e ramos, nada mais que a realidade que nos cerca. Iludimo-nos a imberbe tentativa de domar a natureza esquecendo-nos a escuta das raízes crescendo - que as raízes do mundo crescem até ao cerne da lava, até se tornarem puras metáforas. Por baixo deste solo existem rios correndo até ao magma, esse distante lugar que o universo nos centra. Segundo parece tudo começa aí, nas enormes bolas de lava rebentando por todo o lado. 
Fomos ardendo até ao arrefecimento, nós e a matéria do mundo formando uma unidade esférica - singular. 
Que esta história dure desde há milhares de anos é desde logo um milagre. Contudo, talvez seja possível saber o que o mundo é, mesmo sem conhecimento directo dos factos. Aliás, nunca pode ser de qualquer outra maneira. Trata-se de nos pormos a adivinhar, essa mínima diferença entre o xamanismo e a filosofia. Trata-se sempre de chamarmos a nós a Natureza, invocarmos dentro de nós os rios, os mares, as montanhas. Basta sentarmo-nos num qualquer penhasco junto ao mar. Aí onde tudo se ouve, onde o mundo nos segreda nossa precariedade. 
Estamos sempre a um mero passo de cair. 
Por mais que treinemos andar jamais seremos seguros. Bom, a não ser que sejamos nados e criados no estupor. Os estupores gostam de julgar-se invencíveis, de subverter todos os outros no riso da sua ganância. Como são gananciosos os estupores, querendo tudo para si! Não apenas a riqueza material, também as almas que a criam. 
A perfídia está tão bem engendrada que sequer alguém dá conta dela. 
Pois é, os muitos não leram os Antigos. Nem os Antigos nem qualquer outra coisa. Nem um passo deram. Os livros são duros como ferro e as cabeças são ocas como o vento.
De qualquer modo, a vida explodiu na matéria unicelular e um dia tudo voltará a explodir de novo.    

Se tudo isto não for poesia, não vislumbro que outra coisa possa ser. 

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

domingo, 21 de maio de 2017

Desertos - XXXI - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



A fuligem pre-anuncia o desastre. Os anos passam, ou, vão passando até nos tornarmos o gerúndio de nós mesmos - sem passado nem futuro - somente toda uma sombra que nos estica até ao limite.                           
Os instantes retratam a vida melhor que a vida se retrata a si própria e a volatilidade do tempo impossibilita a fixação de sentido. De qualquer modo, nossos olhos não acompanham a velocidade das coisas e, assim sendo, o mundo é uma assombração que nos visita a cada vislumbre. Sim, as paisagens são-nos sempre outra coisa diferente do que vemos. 
Somente a memória nos fixa. 
Não fosse a memória seriamos loucos como peixes, embatendo nos vidros do aquário a cada vez que o mundo nos chama. Talvez fosse melhor assim. Teríamos um olhar sempre novo e a magia dos encontros acontecer-nos-ia a cada segundo. Desconheceríamos os aziagos factos. Que o mundo é sempre aquém daquilo que precisamos que seja. Que a ilusão nos ilude até nos deixarmos sem pé. Depois da queda nossos dentes auto destroem-se e outra coisa não nos resta senão o destino das vacas, ruminando erva até à regurgitação. 
Somos o breve vomitado de deus. Habitamos casas limpas e acéfalas, alguns campos junto ao rio. João Batista aqui viveu até ter sua cabeça decepada nas mãos de Salomé. 
É sempre assim. 
Procuramos a purificação do espirito e tudo que sobra é este insólito desejo, a sólida carne da mulher amada tornando-me cada vez mais longínquo.   

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

quinta-feira, 18 de maio de 2017

Desertos - XXX - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



A vegetação sempre aqui esteve, mesmo quando esta sala era habitada pelo choro das crianças - todas elas nascidas no percalço de não haver mais lugares onde nos habitarmos. Após terem nascido era necessário acalmá-las para o susto do mundo. Alguém me pegava ao colo para que sentisse a estranheza dos braços, o vigor de perder o pé, ser retirado ao chão. Ao fim de poucos abraços habituei-me ao escuro. Dormia sozinho num quarto amplo onde os pequenos ruídos se tornaram a minha paisagem. Os sons dos passos e o ranger de portas foram toda a música com que cresci. Assim apreendi os tons do mundo, toda a musicalidade entre o riso e o choro. 
Quando voltei já nada havia. 
Parti levando comigo o esquecimento, os pequenos alforges repletos de vegetação, a amalgama dos dias, uma espécie de assombração. Tentei habituar-me noutros lugares, pôr minha vida a funcionar com o auxilio do motor de velhos automóveis. 
Abandonei depois a beira da estrada, como se a algum lado fosse. 
Pois é, desenhamos figuras na paisagem, linhas rectas, tracejados. Deixamos sinais, a violência que o tempo nos exerce. Somos criados em círculos. Sem inicio, sem fim. Repetições, somos meras repetições. Eternamente nos repetimos na miséria de não ter conserto. 
Apenas isso. 

Os corações estragam-se e o resto das coisas pouco ou nada importa. 

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

domingo, 14 de maio de 2017

Desertos - IXXX - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



Este é o trabalho de deus. A época das vindimas e o lento pisar das uvas. Somos semeados nos mais íngremes socalcos e depois colhidos como sumo. Nós, que nos prenhes lagares nos pisamos para gáudio de um deus sedento. 
Os dias são claros como água, somos nós que criamos as virgulas onde nos tropeçarmos os corpos. No tropeço nos pisamos. Pés e mãos trucidando quem connosco se atravessa.
Para além do mais.
A vida cresce para lá dos pontos cardeais e a leste da cidade antiga de Jerusalém há um monte onde foi perpetrada a perfídia. Todos os anos aqui nos recolhemos, no jardim de Getsamni, no dia anterior à crucificação de Jesus. Segundo os Evangelhos, a angústia aqui foi tão profunda “que Seu suor tornou-se grandes gotas de sangue, correndo até ao chão.” Suor e sangue, essa linguagem única que os judeus sabem interpretar como ninguém. 
Cristo é na proporção de 1 para 1.000.000,00. 
Tal implica que entre nós haja vários Judas e a despedida com um beijo indicie sempre o pior que o mundo é.  
Para além do mais.
O húmus vermelho é uma condição necessária à criação. 
Devemos pois ser moldados na terra áspera e sedenta. É que sem sangue escorrendo - quase eterno - a vida secar-nos-ia até ao definhar da pele. 

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho 

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Desertos - XXVIII - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



Todo este cimento, forjado na monotonia, rarefeito como a atmosfera. Ao inalá-los guardo em mim o destino dos terríveis lagartos. O que representam 230 milhões de anos na economia do Universo? 
Tudo se trata de enormissimas explosões. Meteoritos. Profundas crateras. Espessas nuvens  de poeira eliminando as espécies. 
Muito bem, chegámos ao humano, esta evidência fóssil da acumulação de todos os detritos. Um quadrúpede que se sustenta sob duas pernas. A inteligência, já se sabe. Somos distintos, tão distintos. Excepto quando o nevoeiro nos traga. 
O nevoeiro - este lugar onde me situo. Será aqui que o recobro virá, ou não. Nunca se sabe o que o nevoeiro nos esconde.
Resta-nos esperar, por dentro do nevoeiro. Esperar jamais colidir uma qualquer predeterminação. São as predeterminações que nos sufocam, que nos tornam imbecis como todos os outros. As predeterminações cegam-nos para o que verdadeiramente importa. 

A Arte.

Antes correr o labirinto de olhos vendados que sustentar-me na predeterminação.

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

domingo, 7 de maio de 2017

Desertos - XXVII - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho


Às 16H00, religiosamente. Assinalava-me na piromania. Terminava as aulas nesse horário quando as aulas terminavam muito depois. 
A música chegava de continentes distantes, de Inglaterra basicamente. Estranha coisa essa, deixar namoradas esperando em troca da mera voz de um homem. Havia contudo esse éter que me embriagava a descoberta. 
Mesmo aqui ao lado havia vida - O Som da Frente. 
Aqui nada havia excepto o enfadonho fado do ensimesmamento. Era necessário sairmos de nós próprios para voltarmos a nós mesmos. Havia a magia das bandas fazendo magia. Echo and the Bunnymen, a paixão antes ainda das paixões.    
Os transistores percorrem o vazio, emitem sinais que se propagam numa determinada frequência de onda. Daqui até minha adolescência. À adolescência dos seres vivos que se reservam à aprendizagem da queda. 
Tanta miséria faz lembrar-me alguma coisa. Que há algo que nos une, essa pira de corpos transmitindo sinais por entre as chamas - o espirito. 
Há chamas que jamais se extinguem e pessoas que são eternas.
Dance, dance, dance to the radio!


À memória do António Sérgio.

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

quinta-feira, 4 de maio de 2017

Desertos - XXVI - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



Cerco-me de palavras dançando o desequilíbrio e no desequilíbrio me danço. Fui estulto ao ponto de acreditar nas cores do mundo, perder-me entre a vegetação. Deixei meu coração tornar-se leve e assim me fundi nas folhas beijadas no vento. 
Doem-me agora os resquícios do sonho que um dia fui. 
Acho que sempre quis ser parte de um dom agudo; vago, como peixe em escamação. Cercar-me na angústia e na angústia ganhar calo para a morte. 
Coisa estranha essa, uma criança querendo atear fogos em detrimento de deixar-se apagar com os incêndios.
Sim, o peso de um coração morto é toda uma medida, o merecimento de uma vida. Por conseguinte, todas as páginas deveriam ser meticulosamente escritas. Deveria ser essa a nossa única e maior ambição.
Aqui seria o reino de Osiris, Juiz dos Mortos e deus da vegetação, e o humano criado a partir das lágrimas e suor de um deus. Nós, o miserável “gado de Rá” irritando o mundo até aos confins do inferno. Ainda em vida o faraó aqui começaria a construir o túmulo para seu corpo. No sarcófago seria colocado o Livro dos Mortos, essa espécie de biografia que Osíris utilizaria aquando de meu julgamento.
Uma certeza aguda me fere: alguns de nós são filhos do Sol. Outros são filhos da estupidez. Tantos outros não passam de filhos de uma enormíssima puta, todos paridos ao mesmo tempo e no mesmo lugar.

São estas as areias que me movem - próximas - tão próximas do Egipto, desse sonho delirante. 

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho