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domingo, 20 de outubro de 2019

De Rerum Natura - XI - Fotografia: Paula Santo António; Texto: Rui Carvalho


Não é possível sabermos como a vida eclodiu, mas é provável que no início de tudo tenha havido uma mistura entre um lugar mais perto e um outro lugar mais longe. Talvez o lugar mais perto aconteça no epicentro de um coração e o lugar mais longe ande sempre em deriva. 
Ao olharmos para muito longe sentimos uma energia em crescendo. Quando a energia cresce rondamos o acontecer das coisas. É no interior dessa energia que ocorremos como forças. 
Tudo se trata de colisões, da repetição de vários choques em cadeia. Na colisão entre duas ou mais forças há sempre duas possibilidades que se geram: o encontro e o desencontro.  
O humano. 
Somos qualquer coisa entre a atracção e a repleção, uma quase infinda série de espaços vazios que se completam. Ou não.
De qualquer modo, talvez as cores possam voar. Talvez no decurso do voo possam as cores trazer um lugar até um outro. Talvez após dois lugares se haverem reconhecido haja sempre um novo mundo a ocorrer. 
Fotografia: Paula Santo António
Texto: Rui Carvalho

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

De Rerum Natura - V - Fotografia: Paula Santo António; Texto: Rui Carvalho



Os loucos acampam rente ao mar. Como se estivéssemos nos primeiros dias de verão, os loucos vão chegando cedo. As praias estão ainda desertas e eles já lá estão, sentados. Os loucos erguem tendas em redor das paisagens, sentam-se frente a frente com o impossível. Mais tarde, quando as pessoas chegarem, os loucos adormecerão. Sem que ninguém saiba que adormeceram farão o sol chegar. A canícula ecoará nas paisagens e depois fará ricochete. Convém que as portas fechem rápido, de modo a que do incêndio só nos fique o calor.
Enquanto dormem os loucos sonham. Dentro dos seus sonhos há lugares repletos. As paisagens serão alagadas e nós estaremos lá, seremos alagados pela preciosidade do tempo. Nada se dá da mesma maneira porque tudo se mistura. 
Até que a depuração nos alcance serão necessários muitos rombos, inúmeras noites em branco resolvendo as formas do mundo. 
Estas são as águas, este é o fogo que as move.

Fotografia: Paula Santo António
Texto: Rui Carvalho

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

De Rerum Natura - IV - Fotografia: Gusha Lawrence; Texto: Rui Carvalho





Há um mundo eivado de palavras longínquas. Mapas mundi. Dedadas de criança querendo aceder ao longe. Somos nebulosas de dedos cruzando os hemisférios, um mar em cima e um céu por baixo.
Os dias reflectem vagas promessas. A cada segundo, a ampulheta - o som do tempo pingando. O amor disfarça-se e o tempo também. Concorrendo lado a lado, trata-se de sermos prestes na corrida. 
Antes que o mundo caia convém sabermos adivinhar-nos. De qualquer modo, o tarde será tarde e o escuro é sempre escuro. Cabe-nos a nós reinventar as coisas, aprender alguns truques de prestidigitação. Desde o inicio, a esperança escorre. O desespero também. 
A memória. Embarcamos cidades que nunca são nossas, vamos de um estado a um outro estado. Tudo é tão repentino. A matéria é volátil e nós somos volúveis, nascemos num corpo e regressamos a lugar nenhum. 
Ainda assim,
                       há lugares tão belos! Lugares tão belos e pessoas perto do assombro!

Fotografia: Gusha Lawrence
Texto: Rui Carvalho

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

De Rerum Natura - III - Fotografia: Gusha Lawrence; Texto: Rui Carvalho



Dois hemisférios, um barco, uma travessia. Cada um de nós é uma ilha, e cada ilha é um continente. Regulamo-nos pelo cansaço, não pelas horas do mundo.
O tempo dos relógios difere da realidade, e tal facto implica que sejamos apenas uma breve aragem, que ocorramos distantes de tudo. Deslocamo-nos no vento, na hipnótica certeza de estarmos sós.
Eis os dias, colando-se entre si.
Não fora o nosso apego às coisas tudo seria sempre igual.
Ainda assim, entre a tristeza e tudo o resto há uma breve aproximação, as velas enfunadas enfrentando os vendavais. É disso que se trata, de processos de descolagem. A contagem decrescente vai do máximo até ao mínimo. Quando o mínimo se assoma somos perante a partida, o intenso abandono dos lugares.
Entre o preto e o branco, livro-me das cores intermédias. Navego até ao desapego, ao rasar de uma adolescência perdida. Talvez haja uma vantagem no sofrimento. Talvez seja esta a vantagem: saber-me no mar como se em Deus me soubesse.

Fotografia: Gusha Lawrence
Texto: Rui Carvalho

domingo, 28 de outubro de 2018

Útero - XXII - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho



 Ausente para somas e subtracções, retrocedo a um tempo ímpar. 
Música, apenas música, os seus múltiplos ângulos e arestas. 
E.
Deus, na proporção inversa do cansaço. 
Quanto mais cansados mais perto estamos da falência, do soçobro dos orgãos vitais. 
Há uma estrada ligando os continentes e o medo sufocando a minha voz. 
A ordem das coisas é o caos, não o conhecimento. Estamos em situação, somos seres sitiados; nada do que verdadeiramente importa  pode ser-nos explicado ou demonstrado. 
A ironia, o dissipar da ilusão.
 O sentido do ser é ser mostrado. 
Música, apenas música, os seus múltiplos ângulos e arestas. 
E.
Deus, na proporção inversa do cansaço. 

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

De rerum natura - II - Fotografia: Paula Santo António; Texto: Rui Carvalho



Eis o lento trabalho da paciência, o rendilhado das águas escorrendo até à nossa sede. Acho que fomos ganhando balanço com a força da nascente. Seguindo o balanço deixa de haver atrito que nos fixe, somente um lastro que nos ganha - mesmo no decurso dos mais íngremes caminhos.
Devemos ter rondado coisas supérfluas, a mera imitação de uma vida. Tementes ao grito, continuamente saltámos por cima dos instantes. Após darmos por nós já não temos onde cair, nenhum outro lugar que não seja o vazio material das coisas.
É aqui que o mundo nos rompe, no exacto local onde a natureza é prenhe de sentido. Percorremos tantos rios para aqui chegar. 
Os peixes não têm água a mais, transcorrem numa espécie única de beleza. Aqui nos devemos debruçar os olhos, alcançar o cerne dos elementos. Até porque: o mergulho é uma arte exigente.
Agora é agora - o local onde mergulhamos a intensa meticulosidade dos peixes. 
Eis-nos no espanto, acabados de chegar a nós mesmos. 

Fotografia: Paula Santo António
Texto: Rui Carvalho

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Breve tratado acerca de jardinar

Eis um escritor: um animal ardendo na descrença, vagando as palavras para não morrer de tédio, ou não matar de ódio. 

Rui Carvalho, s. d.