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domingo, 13 de novembro de 2016

Excerto do inédito "Visitação" - Rui Carvalho

Defronte uma mesa sempre igual, junto ao pão endurecido e algum leite coalhado servindo de alimento. Assim me arrefeço na desordem, dedos e mãos gretados pelo frio. Há quem julgue ser fácil estar aqui, depressa e vagamente. Há quem julgue fácil co-habitar toda a tristeza. Há quem jamais se tenha habitado, nem um dedo que seja. Há quem, após ter partido uma unha, julgue que o mundo se lhe partiu. Eu, que na desordem me reconheço, estendo a mão às circunstâncias de minha vida, como se Te re-visitasse. Aceito o mal que me chega. Aceito que me sejam reabertas as feridas suturadas. Aceito não mais regressar, não mais regressar a minha infância. Aceito ser perdido, gasto nas possibilidades. Tudo aceito. Tudo aceito, excepto a miséria. Não apenas a miséria do corpo. Não apenas a miséria do corpo, mas sobremodo a miséria do espírito. A miséria provindo do mal, o mal natural. Eis o que não aceito. Aceito a culpa. Toda a miséria é culpa nossa. O mal social. O mal social é da nossa responsabilidade. Somos seres carnívoros. Enquanto seres carnívoros praticamos o mal por necessidade. Há uma necessidade ôntica, imediata, que deriva da nossa necessidade de sobrevivência. Essa necessidade imediata sustenta-nos a apetência pelo mal. É a interiorização social da nossa apetência pelo mal que nos leva a sublimá-lo como algo natural. A socialização do mal invade-nos. Somos invadidos pela socialização do mal. Assim nos sucumbimos. Gastos pelos dias. Gastos pelos dias irrompendo-nos a maldade. Sobrevindo na miséria. Baixando os olhos. Baixando os olhos sem mais ver. Defronte nos esquecemos a comiseração. Somos determinados. Somos predeterminados ao sucesso. Tudo o que conta é o sucesso. No sucesso somos sucedidos. Sucedemo-nos sem deixar rasto, como vagas fluindo as marés. O que conta. Tudo o que socialmente conta é o que jamais deveria contar. O que conta. O que verdadeiramente conta, o que verdadeiramente deveria contar é a  aposta, a intensidade da aposta. Apostar e não o ser apostado. Ser a-social, ser insocial. O que conta é a aposta, é a escolha de um determinado modo de vida em detrimento de todos os outros. O que conta é a importância de se saber jogar em detrimento de se deixar jogar. Não que o modo de vida escolhido possa ser ontologicamente melhor ou pior que qualquer outro, ou, que faça mais ou menos sentido que qualquer outro. É a escolha, a determinação na aposta feita, que torna relevante um determinado modo de vida. Aquilo que é determinante é a constância, o grau de vontade e persistência com que se realiza a aposta (veja-se o exemplo do Hindu que, sentado e sem se mover, constantemente repete durante anos a palavra “redenção"). A redenção. O que conta é a redenção. Praticar o mal para que nos redimamos do mal. 

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