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sexta-feira, 4 de novembro de 2016

A kind of poetry - por Rui Carvalho

Adão

No principio era o verbo,
    e o verbo florescia na dor.

Todos os vocábulos me eram indizíveis,
 até que alguém apontava: 
      isto é uma maçã;
      isto é a substância de todas as coisas. 

Então,
todo o meu ser me era dado de encontro 
à agridoce dureza das macieiras,
                das improváveis macieiras dando fruto.

Chamaram-me Adão.

Adão, aquele que cuida das macieiras,
aquele que cuidando das macieiras adquirira a substância do mundo.

Através do fruto que me era dado provar tornei-me cínico,
capaz de matar.

Questionava-me porquê, 
mas as respostas não chegavam a mim,

apenas me seria dado saber o domínio dos vocábulos 
e que o domínio dos vocábulos me traria esta dor,

esta dor imprecisa, 

transcorrendo dos infindáveis pomares duvidando em mim.

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