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sábado, 12 de novembro de 2016

Entrevista a Sebastien Void - XIII

Entrevista a Sebastien Void

XIII

Rui Carvalho: o engodo quantitativo da publicidade implica que sejamos jogados pelos  actos publicitários. O ser jogado na publicidade implica a ausência de autodeterminação. No jogo publicitário somos seres predeterminados. Estamos predeterminados ao sucesso. O foco de sentido das nossas vidas cinge-se a atingir a fama e o sucesso. Sendo que a fama e o sucesso se erigem no plano quantitativo dos actos publicitários, não será que o atingir da fama e do sucesso estão indelevelmente ligados à falta de carácter e de personalidade? Não é esse um dos males da modernidade?


Void: a fama e o sucesso são os focos de sentido da modernidade. Trata-se de sobressair, trata-se de nos sobressairmos para agradar às massas. As massas são constituídas num ponto de vista único que é comum a todos os participantes da massa. Há uma determinada perspectiva da realidade que é compartilhada por todos os que enformam a massa. Os participantes da massa são figurantes. Os figurantes figuram, estão em segundo plano. Na maioria das vezes os figurantes não estão sequer em segundo plano, estão tão lá atrás que as suas existências não são sequer visíveis. Os figurantes existem no vislumbre da fama e dos famosos. O seu contacto com a fama e o sucesso cinge-se ao gostar de tudo que todos gostam. As revistas do coração e as grelhas de audiências televisivas dirigem as vidas dos figurantes. Os figurantes vêem e ouvem o que lhes é prescrito ver e ouvir. Sim, neste contexto a fama e o sucesso estão indelevelmente ligados à falta de carácter e de personalidade. Pelo menos é quase sempre assim. No fundo trata-se de agradar às massas. Uma vez que para distinguir qualidades é indispensável conhecimento, e uma vez que a ignorância das massas apenas lhe permite aceder às qualidades através de critérios quantitativos, segue-se que a fama e o sucesso são quase sempre sinônimo de algo qualitativamente inqualificável. Um “bom actor” ou um “bom músico”, por exemplo, não necessitam ser intérpretes de excelência. O bom actor e o bom músico são aqueles que se prestam a receber a maior quantidade de aplausos por parte do público. A modernidade trouxe-nos o fenómeno da massificação do gosto. A massificação do gosto não é propriamente um fenómeno novo. O que é novo é o facto da modernidade nos ter trazido a possibilidade do gosto ser partilhado por um numero quase ilimitado de pessoas. A massificação do gosto, ou melhor, a massificação do mau gosto foi elevada a um nível quase ilimitado. A massificação do gosto é correlativa ao advento da globalização. Antes do advento da globalização o mau gosto era mais democrático. Existiam vários nichos de mau gosto. Havia toda uma miriade de grupos de figurantes a gostar de uma outra miriade de objectos medíocres e inúteis. A modernidade trouxe-nos um novo especimén, o artista moderno. O artista moderno é aquele cujo foco se dirige justamente ao atingir da fama e do sucesso, ou seja, o artista moderno está focado na sua capacidade para convencer ou seduzir as massas. É em torno desse objectivo que é desenvolvida a sua carreira. O objectivo do artista moderno não é atingir a excelência, mas sim o encontro com a fama. 

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