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quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Excerto de "Visitação" - Rui Carvalho

O fim do mundo nunca é o fim do mundo. O fim do mundo é o mundo a tornar-se outro. O mundo roda, em círculos, sem princípio nem fim. Sem princípio nem fim, o Universo circula. São nossos olhos que criam o princípio e o fim das coisas. O rápido movimento do olhar. O rápido movimento do olhar cria-nos o espaço e o tempo. O espaço no tempo. O tempo no espaço. Sem espaço e tempo o mundo não fluiria. Sem espaço e tempo seriamos estatuescos. 
O ser outro do mundo é o que há de real. Constante. A constante mudança das coisas nos lugares. A constante mudança dos lugares em nós. A realidade. A realidade é em devir. Somos em devir. Estátuas vertidas em areia. 
Não olhar para trás. 
Nunca olhar para trás. 
Esse é o segredo. Devemos ser contrários à esposa de Lot. Sem olhar para trás. Devemos seguir em frente.
A vida, o mundo. 
A vida é Sodoma, O mundo é Sodoma e Gomorra. A vida não é o céu. A vida não é o inabitado céu dos anjos.  
Tal qual o mundo, a paixão circula, sem princípio nem fim. É nosso olhar que cria o princípio e o fim das coisas. A paixão não acaba. A paixão não acaba nunca. A paixão circula, tal qual o mundo. A realidade da paixão é circular. Circular e secular. A paixão são os corpos das jovens mulheres, das jovens em flor, das doces mulheres desfloradas. A paixão é subir o impossível em nós até ao limite de nós mesmos. A paixão. A paixão é o desejo de deus. A paixão é o desejo de deus a partir dos corpos.
Havia em nós o desejo de partir, de vislumbrar a remota origem de onde viéramos. Diria que sempre falámos de estradas, de caminhos que nos levariam a outros lugares. Ambos sabíamos que partiríamos. Esse era nosso desígnio. Nosso desígnio era partir. Partiríamos. Mais tarde ou mais cedo. Mais tarde ou mais cedo cruzaríamos o horizonte. Cruzaríamos o horizonte na senda da origem, da origem do que éramos.
Diria que somos ténues linhas cruzando o horizonte. Sem deixar rasto. Sem fazermos história. A maioria de nós. Ténues linhas. Eis o que somos. Era isso que não queríamos. Foi isso que não quisemos. Ser ténues linhas. Foi isso. Foi isso que nos separou. A possibilidade de não sermos mais que ténues linhas, dando filhos para a morte.

terça-feira, 15 de novembro de 2016

Excerto do inédito "Visitação" - Rui Carvalho

Gravito em torno de meu umbigo. É isso. Gravitamos em torno de nossos umbigos. Somos habitados pelo mal, desde o início dos tempos. Desde o princípio dos tempos, nossos corações, nossos corações são sinalizados na ambiguidade. O coração humano é um local ambíguo. Na ambiguidade tornei-me cínico, capaz de matar. Com o tempo, no correr do tempo fui arrancado a meu coração. Em seu lugar cicatrizou o mal. Sou o mal cicatrizado. Não já em ferida. A ferida foi suturada. Sou a cicatriz de minha infância. Por vezes julgo ser possível, por vezes julgo poder regressar, regressar à longínqua inocência. Regressar ao longínquo lugar de todas as possibilidades. Ter uma bola nos pés ou um berlinde entre mãos. Ter uma bola nos pés ou um berlinde entre mãos e o mundo ser isso mesmo. Só isso, nada mais. Por vezes julgo poder voltar a adormecer cansado de tanta clareza. Voltar a adormecer tocado pelo sol, pelo distante marulhar das águas tocando as areias da praia. Contudo, somos rios que não voltam à nascente. É isso. Desaguamos no mar. Desaguamos o imenso oceano da dúvida. Por vezes venho à tona. Por vezes dou à costa, junto com os demais detritos. O oceano é imenso, o oceano é demasiado para ser sequer pensado. Com o tempo. Com o correr do tempo tornei-me uma constante insónia. Com o tempo, com o tempo fui perdendo a capacidade de afecto. Tornei-me duro. Firme como rocha. Pelo menos por fora. Somos personas. Somos personagens numa farsa. Representamos papéis. O meu papel é a dureza. Embato-me com o mundo. Foi para isso que fui treinado. Treinei-me para vencer o mundo, para abrir passagem. Em Jerusalem. Em Jerusalem somos aclamados salvadores. Em Jerusalem, em Jerusalem somos chamados genocídas. Depende do ponto de vista de quem nos olha. Tal qual o coração, tal qual o coração, também o olhar é um local ambíguo. Somos ambíguos por todo o lado. Somos percorridos pela ambiguidade. É isso. Somos o melhor e o pior de nós mesmos. Para nós e para os outros. Fui treinado para a luta, para matar ou morrer. Lutei pela divina promessa da Terra arável junto ao rio. Sou orgulhoso de meu povo. Sou orgulhoso do padecimento. Sou orgulhoso da tormenta e da aflitiva escassez. O padecimento adaptou-me, tornou-me apto a sobrevir as piores circunstâncias. 

domingo, 13 de novembro de 2016

Excerto do inédito "Visitação" - Rui Carvalho

Defronte uma mesa sempre igual, junto ao pão endurecido e algum leite coalhado servindo de alimento. Assim me arrefeço na desordem, dedos e mãos gretados pelo frio. Há quem julgue ser fácil estar aqui, depressa e vagamente. Há quem julgue fácil co-habitar toda a tristeza. Há quem jamais se tenha habitado, nem um dedo que seja. Há quem, após ter partido uma unha, julgue que o mundo se lhe partiu. Eu, que na desordem me reconheço, estendo a mão às circunstâncias de minha vida, como se Te re-visitasse. Aceito o mal que me chega. Aceito que me sejam reabertas as feridas suturadas. Aceito não mais regressar, não mais regressar a minha infância. Aceito ser perdido, gasto nas possibilidades. Tudo aceito. Tudo aceito, excepto a miséria. Não apenas a miséria do corpo. Não apenas a miséria do corpo, mas sobremodo a miséria do espírito. A miséria provindo do mal, o mal natural. Eis o que não aceito. Aceito a culpa. Toda a miséria é culpa nossa. O mal social. O mal social é da nossa responsabilidade. Somos seres carnívoros. Enquanto seres carnívoros praticamos o mal por necessidade. Há uma necessidade ôntica, imediata, que deriva da nossa necessidade de sobrevivência. Essa necessidade imediata sustenta-nos a apetência pelo mal. É a interiorização social da nossa apetência pelo mal que nos leva a sublimá-lo como algo natural. A socialização do mal invade-nos. Somos invadidos pela socialização do mal. Assim nos sucumbimos. Gastos pelos dias. Gastos pelos dias irrompendo-nos a maldade. Sobrevindo na miséria. Baixando os olhos. Baixando os olhos sem mais ver. Defronte nos esquecemos a comiseração. Somos determinados. Somos predeterminados ao sucesso. Tudo o que conta é o sucesso. No sucesso somos sucedidos. Sucedemo-nos sem deixar rasto, como vagas fluindo as marés. O que conta. Tudo o que socialmente conta é o que jamais deveria contar. O que conta. O que verdadeiramente conta, o que verdadeiramente deveria contar é a  aposta, a intensidade da aposta. Apostar e não o ser apostado. Ser a-social, ser insocial. O que conta é a aposta, é a escolha de um determinado modo de vida em detrimento de todos os outros. O que conta é a importância de se saber jogar em detrimento de se deixar jogar. Não que o modo de vida escolhido possa ser ontologicamente melhor ou pior que qualquer outro, ou, que faça mais ou menos sentido que qualquer outro. É a escolha, a determinação na aposta feita, que torna relevante um determinado modo de vida. Aquilo que é determinante é a constância, o grau de vontade e persistência com que se realiza a aposta (veja-se o exemplo do Hindu que, sentado e sem se mover, constantemente repete durante anos a palavra “redenção"). A redenção. O que conta é a redenção. Praticar o mal para que nos redimamos do mal.