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quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Entrevista a Sebastien Void - XIV

Entrevista a Sebastien Void

XIV

Rui Carvalho: a fama e o sucesso têm a sua antítese no fracasso. O ser para a fama exclui a possibilidade do fracasso. Como subsiste a miriade de fracassados que jamais atingem a meta teleológica do sucesso?

Void: o fracassado é um ser excluído. É um ser excluído a não ser que se torne figurante. O figurante é aquele que gravita a fama dos outros. O compartilhamento da fama dos outros reintegra o fracassado na trama do sucesso. O fracassado participa na farsa como figurante. O fracassado é uma figura de segundo ou de terceiro plano. É, contudo, uma personagem essencial na consecução da trama. Sem a figura do figurante seria de todo impossível alimentar e desenvolver a trama, a farsa do sucesso. Há uma relação umbilical entre a necessidade de visibilidade dos famosos e bem sucedidos e a necessidade de inclusão dos figurantes. Sair fora da farsa é uma possibilidade a evitar a todo o custo. O excluído é tido como um paria, é olhado de soslaio. O excluído é tido pelas massas como um imbecil que se nega ao compartilhamento. É o alguém que precisa ser exumado das relações de familiaridade que se estabelecem entre todos os outros ninguém. O alguém é o alguém que estabelece as diferenças. O alguém é diferente de todos os outros. O alguém difere de todos os outros. Por isso mesmo, o alguém é o alvo a abater. A diferença. A diferença do alguém é visada como uma falha no sistema. O sistema requer a possibilidade de todas as similitudes. No sistema tudo necessita ser similar. A similaridade é a precondição do erigir da fama. 
O alguém é o excluído que tem obrigatoriamente que percorrer o seu próprio caminho. O excluído é o que sai dos trilhos. Saindo dos trilhos necessita criar o seu próprio trilho. 
O caminho. O caminho faz-se caminhando. Essa é a verdade do caminhante. O excluído torna-se caminhante. É alguém que trilha o seu próprio caminho de verdade. Essa é uma tarefa espinhosa e difícil. O excluído está só. Estando só, erige-se na solidão. O erigir-se na solidão é uma tarefa espinhosa. É bem mais fácil trilhar os trilhos de todos os outros, seguir os passos de todos os outros. O atavismo e a mimese possibilitam-nos habitar um mundo já feito. Na familiaridade do mundo já feito e já dado não é necessário mexer um dedo que seja. Tudo cai em nosso regaço. Não é necessário pensar, basta que vaguemos a trama do sucesso 

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