Entrevista a Sebastien Void
XI
Rui Carvalho: A iluminação é, então, uma experiência pessoal e intransmissível. Tal significa que o Iluminismo não nos acrescentou nada em termos colectivos e que continuamos a viver numa espécie de trevas medievais?
Void: As trevas constituem uma categoria ou uma condição ontológica e não propriamente uma condição histórica. Não existe um antes e um depois das trevas. O esclarecimento da razão, o pretenso grande feito do Iluminismo, é uma falácia como qualquer outra. O advento Iluminista e a sagração do método científico abriram os caminhos da instalação do relativismo positivista. Sendo que o relativismo positivista culmina na total supressão da problematicidade existencial e ontológica. Sem problematicidade, os modos de relacionamento da razão consigo própria e com a realidade circundante tornaram-se cada vez mais débeis. O esclarecimento da razão implica, de certo modo, a debilidade da razão. Antes do período Iluminista as trevas derivavam da infra-informação e do infra-conhecimento. A penumbra da razão era resultante de toda uma superestrutura histórica na qual a realidade se encontrava soterrada pelos dogmas da religião. O principal aspecto positivo do movimento Iluminista foi ter-nos liberto dos dogmas religiosos. Contudo, o culminar do Iluminismo no relativismo positivista e na supressão da problematicidade, conduz-nos a uma espécie de desinstalação da dúvida. Se as trevas medievais eram resultantes da infra-informação e do infra-conhecimento, as trevas hodiernas derivam do seu contrário, ou seja, do excesso de informação e do sobre-conhecimento. O excesso de informação. Somos soterrados no excesso de informação. Soterrados no excesso de informação somos cegos à dúvida. Cegos à dúvida somos incapazes de ousar saber, de Sapere aude! Enquanto acontecimento histórico, o Iluminismo é pois um acontecimento contraditório. Tendo-nos liberto dos dogmas da religião, acabou por soterrar-nos numa espécie de endeusamento da razão humana. O advento da supressão da problematicidade existencial e ontológica é um acontecimento que nos devolve às trevas. Desta vez não já às trevas do infra-conhecimento, mas às trevas do sobre-conhecimento.
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