Entrevista a Sebastien Void
IX
Rui Carvalho: Quando identificas a amálgama estás a identificar algo de pernicioso. A amálgama é constituída pelos muitos. No entanto, para o senso comum, os muitos constituem o plano da razoabilidade. Para o senso comum o sentido das coisas é dado no sentir dos muitos. Trata-se aqui também de formas de inclusão e exclusão. Os muitos constituem-se como centro de sentido, sendo que os outros são as margens. Os outros estão à margem. Os outros estão à margem no sentido mais feroz da radicalidade. Os outros que não os muitos são desde logo classificados como radicais. Como se processa esta separação entre os muitos e ou outros?
Void: Os mass media tratam das práticas de inclusão. O indivíduo comum é diluído nos discursos mediáticos, A televisão, os jornais, a rádio (algum cinema também), tratam a formatação dos indivíduos. Estas práticas de inclusão assumem uma feição convergente num duplo sentido, ou melhor, num duplo movimento. Por um lado, há uma convergência que deriva enquanto publicidade, enquanto reunião da atenção coletiva; sendo que a partir dessa diluição do indivíduo na publicidade há uma outra convergência que submerge o indivíduo na vulgaridade. Na publicidade, o foco de sentido de cada uma das atenções individuais passa a girar em turbilhão. A instantaneidade da informação veiculada no acto publicitário concorre para que a mesma não seja sequer digerida. Na ausência de processo digestivo, a informação veiculada não chega sequer a ser assimilada. Somos diariamente soterrados entre toneladas de informação. Informação essa que não chega sequer a ser assimilada. Por exemplo, passamos com uma rapidez assombrosa do choque de um bombardeamento na Palestina, onde se ceifam vidas de crianças, para a alegria de um qualquer anúncio publicitário. A rapidez é tal que não chegamos sequer a conceptualizar o choque. As atenções individuais girando em turbilhão constituem a massa, constituem uma espécie de amálgama dos vários pontos de vista individuais, os quais se concentram num único e uniformizado ponto de vista colectivo. Os muitos constituem para si uma determinada perspectiva, a qual passa a ser comum a todos os indivíduos que formam a massa. Não ser excluído. A afirmação de cada indivíduo passa a ser dada através da sua não exclusão. O incluido deverá ser apto para dominar todas as tendências informativas. O saber do incluido é um saber de superfície, é um saber superficial. No entanto, por mais superficial que seja, o mesmo constitui-se como norma. E constitui-se como norma porque é prescrito com base no critério dos muitos. Se muitos gostam é porque é bom. Se muitos vêem é porque também nós devemos ver. O critério dos muitos é um critério sem falhas. Onde estão os muitos estará a razoabilidade das coisas. A radicalidade é aquilo que se encontra fora do critério de razoabilidade dos muitos. O radical é invulgar. Ao sair fora do critério de razoabilidade dos muitos tornamo-nos invulgares. Há uma diferença qualitativa, há uma diferença de grau que se torna em nós constitutiva, e que está directamente relacionada com o fenómeno da precisão de verdade. “Porque o saber não é um dom que um possa entregar e outro receber passivamente, antes uma conquista que cada um deve fazer e refazer por conta própria”. O radical radicaliza-se. A processo de radicalização implica um afastamento do centro do turbilhão informativo.
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