Entrevista a Sebastien Void
X
Rui Carvalho: A radicalização é correlativa a um processo de descentramento e afastamento, o qual implica a fuga ao poder centrípeto da publicidade. A fuga ao poder centrípeto da publicidade pode ter pelo menos um efeito secundário. A fuga à publicidade pode tornar-nos impessoais, pode colocar-nos sob a vigência de uma espécie de solipsismo. É o solipsismo uma atitude existencial fundamental?
Void: Sim, sim, claro que sim. O solipsismo é uma atitude existencial fundamental. A vulgaridade dos meros actos publicitários formata-nos o olhar. Só estando em fuga nos é possível contemplar a realidade na sua crueza, sem que nos venha embrulhada no artificio do engodo publicitário. A publicidade confecciona-nos uma realidade fabricada, melhor dizendo, uma realidade pre-fabricada. A radicalização envolve todo um processo de descentramento. É indispensável abandonarmos o centro de sentido que deriva do critério de razoabilidade dos muitos. Além do mais, estar descentrado implica também uma posição difícil de sustentar, quer física quer intelectualmente. O descentrado necessita adquirir alguns dotes acrobáticos de modo a conseguir sobrevir o ímpeto do vácuo publicitário. O descentrado é uma espécie de funâmbulo. É um perito no exercício da arte do funambulismo. O descentrado voa. Voa a irrealidade. O descentrado é um ser em transformação. É a continuidade do outro de si. O radical não se cristaliza. O saber inclusivo da publicidade é um saber cristalizante. O radical não se deixa cristalizar. Resiste. Há uma forte confluência entre a radicalização e a resistência. O saber da publicidade é o saber que tudo sabe. Pelo contrário, o saber radicalizado é o saber que nada sabe. O saber radicalizado é o saber que se procura a si mesmo. O radical é na constante procura do saber. A sabedoria é maiêutica. O saber é o que se dá à luz. O dado à luz sai da penumbra. Sai de uma escuridão anterior e interior. O radical é não só em luta com o mundo, mas sobremaneira em luta consigo mesmo. O radical é em luta contra o outro de si, contra o outro de si que se deixa ficar. O deixar-se ficar é entediante. A determinada altura há uma parte de nós que tende a deixar-se ficar. Há uma parte de nós que tende a deixar-se ficar na segurança do já conquistado. É o tédio do já conquistado que nos irrompe. O radical sobrevive o tédio do já conquistado. O radical é em conquista. Contrariamente ao que sucede com os indivíduos vulgares, que pretendem a conquista do mundo, ou das coisas do mundo, o radical anseia a conquista de si próprio. O radical anseia a sua própria contemporaneidade. Estar a ser-se. O descentrado anseia por se estar a ser. Estar-se a ser implica um constante renascimento. Por isso o descentrado se torna artista. O artista é o mais perto da demiurgia que a um ser humano é permitido ser. O artista é aquele que na arte se renasce, a cada instante. Irrompendo-se na luz, a arte transforma-se no lugar do ser iluminado.
Sem comentários:
Enviar um comentário