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sábado, 7 de outubro de 2017

Breve curso de introdução à economia Grega - VII

Itaca

Sobre as águas me ergo e, sem caminhar, contemplo o mar alagando teu rosto.
Ao largo, ancorados na breve língua térrea 
quatro pés sulcam as águas do mar Egeu,
plenamente sentindo a Terra
o feroz fragor dos oceanos.

Não tentes nada Calipso, nada, 
peço-te,
é inútil sorrires.

Penélope, amor que me aguardas 
Itaca é o meu destino.


Rui Carvalho, s. d.


quinta-feira, 24 de agosto de 2017

Breve curso de introdução à economia Grega - VI

Afrodite

Quero-me raio rasgando-te as vestes 
até ser só teu assombro, 
assombrosa mulher que desejo 
até ti os milénios rasgarei, Afrodite, minha doce Afrodite
rasgarei milénios até que voltes a ser quem sempre me foste
até ti me regrido, minha Deusa
até ti me regrido o asfalto colhendo-me o desastre, 
a intempérie até ao instante milagre.
Não quero futuro, 
sombras que me desenhem lugares por haver
não quero habitar os longos planaltos onde nada me espera.
Percorrerei precipícios, 
terras e eras longínquas onde me desprendo e me despenho
na descida meus joelhos rasgarei 
rasgarei meu corpo até à suplantação do Aqueronte,
suplantarei o infernal rio até de novo me chegar a ti.
O rasganço rasgando séculos, 
milénios 
milénios rasgarei 
até que de novo minha mulher me sejas, Afrodite, minha doce Afrodite!

                         
             Rui Carvalho, s. d.

domingo, 13 de agosto de 2017

Breve curso de introdução à economia Grega - V

Matéria 

Expulso 
                do paraíso de minha infância
                via desenhar-se ante mim o ciclo de todas as coisas

                                             incessantemente cumprindo uma qualquer lei universal

             o mundo consumindo-se em mim próprio e 
             ao consumir-se em mim próprio gerando o outro de si.

Eu, gerando em mim o outro de mim.

O mito da Grande Explosão substituindo-se ao mito 
                                                                                    do Deus Criador.

Um avanço notável, dir-se-á.

A luz e o movimento,
                                  a inércia e a lei da atração dos corpos.

O impensável transcrito no dizível,
                                                         a traição de toda a metafísica.

No entanto, 
                     ultrajado na intriga de meus concidadãos
                     Sócrates repetidamente se deliciava perante o travo agreste da cicuta
                     incessantemente proclamando a incendiada prece:


"Eis o meu fardo, eu, o sacrificado à Grega derrota!"


Rui Carvalho, s. d.

quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Breve curso de introdução à economia Grega - IV

Europa


Alvo touro descendo na neblina
até ti
orgulhosa filha do rei da Fenícia.
Europa, a mais bela entre as mulheres.
Eis-me!
Eis a luminosa manhã fecundando em nossa re-aproximação.
O sedutor artífice da metamorfose
pousando meus olhos em tua face.
Junto a ti sulco as areias da praia avançando mar adentro.
Montai meu dorso cor de neve
porque a Creta te conduzo,
Ó futura mãe de Minos.
Escutai meu terno mugido anunciando vossa sorte,
agora que vos é dado vislumbrar a esplendorosa visão de Zeus.
Agora,
que chegado é o instante que vos tornará pródiga.
Desfrutai célere todo o prazer que de mim emana,
Ó vós 
que breve escutareis o suplicio das hordas tecnocratas
urdindo o terror.
Vós que enredada no terror tecnocrata, 
envolta sereis em arame farpado
pelos ignóbeis fantasmas que vos assolam.
Todo um Mundo em teu redor,
Ó bela e doce Europa 
transmutada
no ignóbil condomínio privado que hoje sois.
Em tuas praias, aos milhares
a Humanidade sucumbindo à vil ganância desta corja
implodindo o mundo.

Aviltando os dons de Zeus, teu fecundador.

Rui Carvalho, s. d.

segunda-feira, 29 de maio de 2017

Breve curso de introdução à economia Grega - III

Agamemnon 


Descera célere as colinas e célere embarcara o mar inóspito.
Loucamente buscava Helena, esposa de Menelau, rei de Esparta, meu irmão.
Loucamente buscava um amor perdido.
Educado na honra e na coragem, as mais nobres das virtudes
assim deixara meu amor verter-se noutros braços.
Contudo, tudo em mim se precipitara aquando do rapto perpetrado por Páris.
O saque de Esparta usurpara-me Helena, minha alma,
e assim me encontrara só, perante a adversidade do mundo. 
Perante a adversidade do mundo me era dado teu amor sobreposto, 
Helena, a quem por dever renunciara.
Corajoso e honrado na renúncia, corajoso e honrado voltaria a ser,
agora que minha humanidade me era devolvida.
Agora que me deparava com a virtude do ódio
agora que em mim odiava o outro de mim, 
o outro de mim que de Helena se havia alheado.
Agamemnon, o alheado de si havia retornado a si,
o meu amor implodindo aproximava-me da alteridade.
A chacina dos troianos, o resgate de Helena 
seria esse o meu último desígnio.

Rui Carvalho, s. d.

domingo, 28 de maio de 2017

Breve curso de introdução à economia Grega - II

Ao contrário de mim


Descendo os céus sobre Roma
a intangível tarefa do reencontro, 
                  o fugaz vislumbre
                    desse reflexo que um dia fui
                    minha alma cindida
                                                     nas vozes da infernal multidão.

Publios Virgilius Maros
                                      este nome que tão só o cheiro da morte me exala.

                                      A decomposição de um corpo,
                                      o que de mim resta ferozmente abandonado 
junto ao átrio das verdades hipotéticas,
         agora que uno já não sou.

Um único e último desejo me aproxima das Musas:
                                                                                    um qualquer fio de Ariadne 
                                                                                    que me conduza
                                                                                    à mais tenaz acrobacia,

                                                                                    essa inadiável coabitação com o meu fim.

Ao comércio com a ciência me expus
e aí me deveria ter tornado sábio.

Ao invés, 
                  toda a minha incerteza se dissolveu na obra onde este povo erigi.
                  Toda uma lucidez metaforicamente transcrita
                                                                                             na Eneida.

Hoje, 
mais que nunca 
                           amaldiçoo o funesto dia em que Mecenas ao Imperador me apresentou
                             a mim, que voz não tive para negar a escrita da odisseia de Eneias.

Ó Deuses, 
                   em Mantua me fazei presente
                   para que de novo minha doce infância possa vislumbrar,
                   não mais esta infinidade de grãos de areia 
                   perdendo-me entre meus dedos.

Abençoado 
                    no dom de com a minha arte tocar o coração do mundo,
                    de ao humano proporcionar um qualquer passo mais 
além da pura vulgaridade
        um qualquer passo mais além da atroz vileza crepitando 
onde quer que o vulgo se assome,
        no sono me deixei perder os escombros da intrépida realidade.

Estilhaço-me agora na noite há muito esquecida 
aí onde erigo o panegírico do Império que agora renego, para sempre.

Ó Grécia, 
ó eterna habitação dos deuses 
eis-me a minha dação às origens 

a realização do sonho há muito acalentado:
morrer o meu regresso

  junto a Brundísio. 

Rui Carvalho, s. d.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Breve curso de introdução à economia Grega - I

Ao avesso da Maratona

Algures, na honra e coragem forjadas
receando porém a junção de sua humilhante violação 
ao sacrifício de nossos filhos,
as mulheres quedadas perante a iminente chacina persa marchando sobre Atenas.
Mulheres temendo a mais terrível das escolhas:
o inelutável suicídio ou a personificação da derrota.

Partira dias antes, junto com os soldados atenienses 
e breve alcançara a planície de Maratona.
Erigidos em combate à afronta persa
nossos corpos tornar-nos-iam unos, para que unos ansiássemos mulheres e filhos.

A mim, Filipides, fora incumbida a tarefa de iluminar toda uma cidade  
na boa nova da vitória grega sobre os persas.
Não sem o concurso da divina e alada ajuda de Hermes
corri veloz sobre Atenas,  
comigo transpondo a almejada notícia.
Situada a vastos quilómetros de Maratona,
de onde havíamos repelido a ousadia persa,
necessário seria agora que a distância entre o campo de batalha e a doce acrópole 
fosse com urgência elidida, de modo que 
tal luz em suas vidas se nos desse.

Ao avesso da maratona por mim vencida, 
o vislumbre exangue da meta jamais me aproximaria da singular e inaudita glória.
Eu, o dilacerado na voragem do Tempo.
Aquele a quem a distância transcorrida se tornara mais vasta que a distância a transcorrer.
Filipides, 
o mais bravo dos atletas, o predestinado à celebração da vitória
breve tombado na extrema dureza do esforço.
Filipides, 
aquele a quem num último sopro de vida apenas uma prece me foi dado proclamar:
"Eis o meu fardo, eu o sacrificado à vitória Grega!"

Ó vós que pelo tempo dos relógios vos guiais 
na inconstante busca do vil metal constrangendo vossos bolsos,
para sempre olvidai o heróico feito de Filipides.
Pois tão só quando a voragem do heróico Tempo Grego
vos tragar de um só sorvo 
estareis aptos a comigo proclamar a aguardada prece.

Rui Carvalho, s. d.