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sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Excerto de "Vácuo ou as estratégias da finitude" - Rui Carvalho

Assentar tijolo. Ter a cabeça repleta de leis, de códigos, de artigos de códigos. Memorizar os códigos e os artigos dos códigos. Aplicar as leis, com maior ou menor destreza. Adequar as leis às situações. Assentar tijolo. Misturar terra, água e cimento. Erguer muros e paredes, a fio de prumo.  Erguer muros no fio de prumo da lei. Com tijolos se constroem casas. Com as leis se habitam prisões. 
Na imbecilidade. 
Na imbecilidade tornamo-nos próximos de erigir o inferno. Na terra erigimos infernos. Somos pródigos na artimanha de erigir infernos. 
Entre o grave e o agudo. Somos esdrúxulos. Silabas tónicas acentuando o degredo. Não bastasse a finitude. Não bastasse a finitude de todas coisas, somos maníacos na estupidez. Nada aprendemos com a repetição. A história repete-se, sempre a mesma. Os erros. Sempre os mesmos erros. Somos a histórica repetição da estupidez. 
O medo. 
O medo do desconhecido não explica tudo, não justifica tudo. A insegurança não explica o ódio. As pessoas não votam na estupidez por insegurança ou medo. As pessoas votam na estupidez porque são estúpidas. Erguemos a estupidificação em nosso redor. Idolatramos a televisiva imbecilidade. 
Raios partam as boas maneiras. 
Raios partam as imprecisões. 
De imprecisões está o inferno cheio. As nações são contingências históricas. A nacionalidade é uma mera contingência geográfica. Tememos o desconhecido por cobardia. Na cobardia ficamos reféns de nossa própria rotina, de nossa própria miséria. Lá atrás, bem lá atrás, perdemos a cortesia da hospitalidade. Perdemos o dom de bem receber. Somos para turistas. Somos para turistas porque os turistas nos trazem esmola. Tememos o desconhecido, desconhecendo que o pior habita entre nós. O pior não é a estrangeira surpresa e o encanto de novos saberes. O pior está entre nós, gangrena nas nossas mesquinhas certezas. Sem dúvidas, sem dúvidas tudo sabemos. Somos repletos de falsos saberes, de falsas sabedorias. O saber não é o saber que se sabe. O saber. O saber é o saber que se não sabe. Deveríamos ser Gregos, deveríamos ser Gregos no saber.   

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