Para trás. Para trás fica uma paisagem. Lisboa, Portugal. Um pais governado por merceeiros. Salazar, Caetano, ambos com os seus respectivos e inseparáveis lápis atrás das suas respectivas e soturnas orelhas. Contas de somar. Contas de sumir. Contas de somar e de sumir. As continhas certas senhores, as continhas certas. O aprumo nos costumes exacerbado ao limite do patológico. Um povo amordaçado, tristonho, quase orgulhoso na sua pequena e infeliz mediocridade. Um povo curvado. Olhando atentamente para o chão, para um chão conspurcado. Escarros. Sílabas pronunciadas entre dentes que não chegam sequer a palavras. Uma tenebrosa ausência de sentido. Plêiades de olhares ausentes perscrutando o chão das ruas. Não olham em frente, não olham para cima. Parecem evitar o encontro com o outro. Talvez temam no encontro com o outro o encontro com um qualquer delator. Ou talvez temam verdadeiramente o encontro consigo próprios e com os seus mesquinhos mundos, as suas mesquinhas existências de moços de recados e criados de servir. Os olhares que não se encontram. Os olhares que não se cruzam. Os olhares que se temem. Que se refugiam no chão. Num chão conspurcado pela pobreza. Um conspurcamento que se transmite aos espíritos. Macadame. Calçadas. Pedras sujas, imundas. Mais que a pobreza nas ruas, a pobreza nos espíritos. A mais completa ausência de espiritualidade. Uma plêiade de fantasmagóricas personagens cruzando as ruas.
Para trás fica uma paisagem, um pais.
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