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quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Entrevista a Sebastien Void - XII

Entrevista a Sebastien Void

XII

Rui Carvalho: O infra-conhecimento e o sobre-conhecimento constituem dois planos que, à partida, parecem ser absolutamente antagónicos entre si. No entanto, ambos são sinalizações do âmbito das trevas. Como podemos nós escapar então à penumbra? Se é que nos é possível fazê-lo.

Void: A nossa existência é-nos dada através das nossas experiências. Sendo que essas mesmas experiências nos são pessoais e intransmissíveis. Existimos nas nossas experiências. Todas as nossas experiências nos são interiores. Tudo o que nos é dado conhecer é fundado em estados interiores e pessoais. É impossível estabelecer uma relação direta entre os nossos estados interiores e o conhecimento objetivo de uma realidade exterior, de uma realidade fora dos nossos actos noéticos. Somos o nosso acto de pensar. Os nossos actos noéticos enformam-nos, entificam-nos como um eu. Tudo mais parece poder ser contestado ou posto em dúvida. O solipsismo implica precisamente o resplandecer da dúvida, sendo que o resplandecer da dúvida se erige na procura pelo rasgo da claridade. O rasgo da claridade constitui o primeiro indício do abandono da nossa sitiação nas trevas. A liberdade de espirito, a libertação do espirito relativamente aos ditames da publicidade é o primeiro passo a ser dado. A publicidade germina no seio da multidão. Os muitos são a representação de uma entidade abjecta. É contra a ditadura da multidão que o espírito livre necessita rebelar-se. É lutando contra a ausência de espírito que é característica da multidão que o espírito se liberta e adquire consciência de si e da sua realidade concreta. De modo a ser dada a possibilidade da existência concreta do espírito livre, é pois indispensável, antes de mais, que se verifique a pre-existência de uma entidade espiritual. Ora a pre-existência de uma entidade espiritual é correlativa a uma vivência determinada, que no caso do humano se concretiza na experimentação de um eu que se debela contra um mundo que lhe é adverso. A adversidade que nos é imposta pelo mundo exterior constitui-se como primeiro nível de constituição e constatação da situação em que se está. Sendo que este sitiamento não nos é dado sem mais, uma vez que implica um esforço de tematizacão e determinação. A tiranizarão quantitativa imposta pela publicidade implica que mesmo as qualidades só possam ser avaliadas através do recurso a critérios quantitativos, sendo que esse facto torna problemático não apenas o perscrutar axiológico da realidade, mas sobremaneira o erigir do próprio conhecimento enquanto tal. Somos subjugados na tirania quantitativa e, enquanto permitirmos que assim seja, jamais estaremos aptos ao conhecimento, sendo que não estando aptos ao conhecimento é-nos impossível estabelecer qualquer contacto com a axiologia valorativa, e muito menos estabelecer qualquer hierarquia valorativa. Estando longe da tematização da situação em que nos encontramos estamos sujeitos a ser embalados no engodo quantitativo da publicidade. 

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