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domingo, 8 de abril de 2018

Tale of a man who whispered to the flowers - XXXVI - Fotografia: Céu Baptista; Texto: Rui Carvalho



A madrugada repete-se, indefinidamente. A clareza das manhãs contrasta com a estranheza da realidade e assim nos tornamos cercados na melancolia. A cada madrugada julgamos ter acertado o mundo. Olhamos o branco como um indicio de clareza, esquecendo que também o branco se escurece. Depois, a noite percorre-nos até que o brilho nos ofusque, e quando o brilho nos ofusca tendemos a cerrar os olhos. 
As qualidades secundárias não explicam o ser do mundo. Mesmo que pudéssemos pintar a realidade de cores distintas tudo se manteria o mesmo. A demíurgia apenas nos toca uma única vez. Após o acto de Criação tudo se repetirá do mesmo modo, para sempre. 
Então, cegos de exterioridade, tendemos a olhar para dentro. Olhamos para dentro e continuamos ausentes de sentido.
Somos em hecatombe, o bem e o mal derivando-nos em todos os caminhos.

Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho

domingo, 1 de abril de 2018

Tale of a man who whispered to the flowers - XXXV - Fotografia: Céu Baptista; Texto: Rui Carvalho



Rasgamos os dedos na colheita das flores e depois os espinhos acompanham-nos para sempre. A estultícia propaga-se, como um veneno. De tal modo que não há qualquer limite para o mal que causamos. Atraídos pela força da gravidade, ruminamos o chão até nos tornarmos infectos. E não, não há luz que nos ilumine. Há uma porta que se abre e depois se fecha para sempre.
Partimos às cegas por dentro do labirinto; depois andamos às voltas uma vida inteira. 
Procuramos pistas, indícios de um brilho que nos indique o lugar onde devemos permanecer.  Por vezes julgamos que sim, que encontrámos o tal brilho. Quando assim é, corremos como loucos  na direcção apontada. Acho que somos seres de vislumbres, uns mais outros menos. De quando em vez vislumbramos uma qualquer ilusão, um breve brilho reflectido no interior da caverna. Na ânsia de nos acendermos corremos então desalmadamente. 
Sim, os cavalos também se abatem. 
Temos a cenoura em frente dos nossos narizes e é a cenoura que nos guia os passos. Há quem pise. Há quem seja espezinhado. Por vezes as posições mudam. Os espezinhados gastam toda a sua energia tentando mudar de posição. Os que espezinham tentam manter-se assim, a todo o custo. Meras crianças brincando no escuro, é nesta amálgama de “não se sabe bem o quê” que desperdiçamos as nossas vidas.
Deveríamos ser criadores de mundos, ao invés de sermos crianças brincando na escuridão. A energia, somente a energia pode fazer brilhar o escuro.
Deus disse: “ faça-se a luz!” e a luz foi feita.

Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho

domingo, 25 de março de 2018

Tale of a man who whispered to the flowers - XXXIV - Fotografia: Céu Baptista; Texto: Rui Carvalho



As flores nascem e murcham no mesmo exacto lugar. Assim mesmo, a vida e a morte professam uma mesma exactidão, ambas tendem uma para a outra. Eu tendo para restar só, para que em solidão possa escutar o sopro do mundo. 
Atraídos pelo fogo, embarcamos verbos não dizíveis. 
No principio era o verbo, lembras? 
Esquecemo-nos do que mais importa. Que há fragrâncias que nos libertam, que tornados um somos tornados outros. Os opostos unem-se para o nascimento de um terceiro, o amor ou o ódio. A isso podemos dar um nome: dialéctica. 
Há fragrâncias que nos libertam. Sentimo-las nos olhos, fervendo até ao céu. Libertos do que somos seriamos mais perto do fluir das coisas. Isso é o máximo que podemos ser: elevarmo-nos no sopro e soprados atingirmos a razia de um outro mundo. 
Serei leve, leve até à queda. Na queda serei breve. 
Cairei, com estilo…

Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho


domingo, 17 de dezembro de 2017

Tale of a man who whispered to the flowers - XXIII - Fotografia: Céu Baptista; Texto: Rui Carvalho



Não, não podemos ser mais que um único triunfo. Após a aquisição da juventude a queda torna-se-á irreversível. Será essa aguda consciência da queda que nos fará perder o pé. Sim, somos aqueles que se perdem, uma estranha gente ecoando na tristeza. 
De qualquer modo, a desorientação é um lugar iniciático, uma condição fundamental para a procura de sentido.
E olha, quando os dias correrem sobre nós, nós esticaremos os elásticos onde pende a miséria que nos une. Depois soltá-los-emos de repente e, com ambas as mãos abertas sobre o mundo, moldar-nos-emos nas possibilidades.
Se medirmos bem os percursos tudo isto é mitologia. 
O sangue corre-nos desde o coração, por entre os túneis abertos em nossas veias e, atingiremos a velocidade máxima antes de sermos tolhidos pelo Minotauro. Creta existe desde sempre e a memória de Teseu ata-nos no mesmo fio onde juntos perderemos a respiração. A realidade é labiríntica e os nossos sonhos também. Resta-nos rever a eternidade da Tragédia, alcançar a catarse através da re-persecução da beleza. 
Com um olhar sólido entre ambas as margens e o som das cascatas brilhando, assim nos resgataremos as paisagens.

Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho

domingo, 29 de outubro de 2017

Tale of a man who whispered to the flowers - XVI - Fotografia: Céu Baptista; Texto: Rui Carvalho



Caímos no mundo após o romper das águas e é essa queda que nos cria o espanto das coisas.  
De qualquer modo, deverá existir uma razão desconhecida que justifique o nosso choro. Talvez o oxigénio pela primeira vez inalado. Damos por nós resgatados ao útero materno e poderá ser essa uma das razões que justifica a dor em nossos pulmões. Repletos até à imanência do vácuo somos então pegados ao colo.
Comigo foi assim: em criança devo ter-me assustado com o reflexo da minha própria monstruosidade. A minha sombra reflexa no chão deve ter-me causado medo. Então, por alguns dias deixei de andar. Recusava-me a andar, pura e simplesmente. É deveras assustadora a nossa sombra no chão, o nosso reflexo numa qualquer parede. 
Levei tempo a perceber que o meu corpo faz parte de mim. 
Até determinada altura sentia-me prisioneiro, essa vivência do aprisionamento tornava-me estranho. Como se tivesse de mover toneladas para me mover a mim mesmo, para dar um simples passo em frente. 
Só depois a luz chegou, muitíssimo depois. 
Houve um instante em que transpareceste. A luz reflexa em teu rosto iluminou-me o mundo e só então me habituei a mim. Agora já não temo o meu corpo, não sinto sequer a anterior estranheza. 

Deve ser isto a reminiscência: recordar-me de ti como luz, conseguir andar sem receio. 

Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho

domingo, 22 de outubro de 2017

Tale of a man who whispered to the flowers - XV - Fotografia: Céu Baptista; Texto: Rui Carvalho



Em baixo, rente à mudez do solo, há uma longa planície aguardando a água, o incendiário  regresso do verbo. 
Fiat. 
Faça-se o início desde o início, e desde o início seja outro o mundo. Que tudo se inicie em Eva e Adão e na certeira serpente. Que haja maças em demasia e que as demasiadas maçãs sejam para sempre trincadas. Bem assim, hajam anjos desnudos dançando-nos os corpos. Que em Eva haja a macieza do toque, a florescência dos sentidos, e que em meus dedos haja o secreto dom da alegria. Que os anjos nos ensinem a proeza dos corpos inflamados no sopro da vida, e que nossas línguas possam ser dançadas até à exaustão. Que então nos possamos completar até formarmos o vicejamento do todo.  
Em baixo, rente à mudez do solo, poderei escutar o marulhar das águas. Seguindo o rasto das águas acercar-me-ei dos oceanos. Estarei na berma, aguardando a chegada das baleias - de Jonas, o meu regresso.

Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho

domingo, 15 de outubro de 2017

Tale of a man who whispered to the flowers - XIV - Fotografia: Céu Baptista; Texto: Rui Carvalho



Que a realidade se inverta, que espaço e tempo se convertam no seu contrário. Que a temporalidade transcorra, da frente para trás. Que no início de tudo esteja a morte e a morte transcorra o percurso até à vida. Quanto à espacialidade, rapidamente nos adaptaremos a tocar o cume das coisas. A copa das árvores tocará nossos pés, e isso tornar-se-á um hábito. Habitaremos então o solo como quem habita a sua casa de sempre.
Que o mundo possa aguardar nossa chegada, aqueles que na mortandade buscam o toque da vida. Os que na morte soam as inequações, as incógnitas e as variáveis, os gestos até ao findar do medo. 
Com as vozes ecoando ouviremos os relâmpagos; trovejaremos a ausência de sentido, e, na ausência de sentido, desocultaremos os milagres. 
De qualquer modo, mais facilmente atingiremos a proximidade dos deuses. 
Que sejamos tão inexistentes quanto as profissões que aqui nos moldam. Que as profissões não se colem a nossas peles e assim estejamos mais perto da transparência. 
Quando olharmos os espelhos serão os espelhos a olhar-nos. Viveremos uma espécie de animismo, uma intensa correlação com as coisas em redor. 
Sim:
“We are the children of the sun” 
and, yes:
“our journey’s just begun!”


Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho

domingo, 8 de outubro de 2017

Tale of a man who whispered to the flowers - XIII - Fotografia: Céu Baptista; Texto: Rui Carvalho



Leva-nos uma vida inteira o afinamento das cordas para serem tocadas. 
Após a acmé resta-nos aguardar: os gestos oblíquos dos deuses ou a fala agreste dos demónios. Pouco importa, desde que sejamos dados como música, que em nossa pele façamos vibrar a musicalidade do mundo. 
De qualquer modo, é fundamental saber invejar a inteligência das pedras, aguardar que nossos pés flutuem até à lisura do escorregamento. 
Ao rasarmos o vácuo estaremos já perto daquilo que o futuro nos reserva. Será esse o momento em que nos mostraremos aptos para testar o salto. 
Saltar ou não saltar depende do talento para a queda, para o exercício da acrobacia. A execução do salto implicaria cair com os pés já fora do chão, já fora do mundo. 
Seria necessário estarmos aptos. Sermos férteis de equilíbrio, da dose de estranheza necessária ao vislumbre, ao acompanhamento da velocidade do milagre.

Sim, a verdadeira Fé é muito para além da loucura.

Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho

domingo, 1 de outubro de 2017

Tale of a man who whispered to the flowers - XII - Fotografia: Céu Baptista; Texto: Rui Carvalho



O mundo inicia-se no sopé das coisas, na radical proximidade com o solo. No início há uma adaptação ao meio ambiente, qualquer coisa como uma aprendizagem da queda. Numa primeira fase trata-se de nos adquirirmos na posição bípede. Para tal é necessário arrastarmo-nos sobre quatro patas num longo processo de tentativa e erro. 
Após várias quedas estaremos aptos para nos exercermos no andar. Pé ante pé atingiremos o equilíbrio, a plasticidade motora que nos distinguirá da mera animalidade. 
Quanto à espiritualidade nada funciona assim, são raros aqueles que deixam a posição quadrúpede para trás das costas. 
A espiritualidade.
Quanto à espiritualidade, é fundamental que nos saibamos adquirir na habilidade da secagem. A transpiração das mãos. A transpiração das mãos é um óbice à subida. Por conseguinte,  torna-se indispensável a utilização do carbonato de magnésio, dos múltiplos utensílios que nos possibilitem a aderência do corpo às rochas. Sim, a espiritualidade equivale à constância na escalada. Devemos habitar-nos nos íngremes caminhos rasgados nos rochedos. Quanto mais elevada for a nossa posição, mais perto estaremos de nós mesmos. Devemos pois manter-nos na posição mais elevada possível durante o maior período de tempo possível. 
Sim, é o modo como nos posicionamos que revela a nossa situação no mundo.

Subirei os penhascos até alcançar-te.  

                                                              A escalada será íngreme até que possa habitar teu nome.

Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho

domingo, 24 de setembro de 2017

Tale of a man who whispered to the flowers - XI - Fotografia: Céu Baptista; Texto: Rui Carvalho



Acabarei guardado num livro, no cimo de uma mesa onde não mais poderei transbordar.
Ainda assim: 
aguardo essa luz, incidindo de cima para baixo e de baixo para cima, descrevendo linhas entre-cruzadas, perpendiculares ao som de teu riso. Seguirei esse destino. Nele saberei desenhar-me.  Saberei seguir o curso dos rios de luz que nos entre-cruzam. 
Reservo-me a escolha das planícies onde me habitarei nas montanhas. Nelas farei fincar meu corpo para que o espírito aí transcorra. Não, nada poderia ocorrer de outra maneira. Nada poderia ter ocorrido de qualquer outra maneira. 
Saberei desenhar-me, pintar meu corpo para a guerra. 
Saberei situar-me, entre o início e o fim. Entre o início e o fim de algo que ainda não sei bem o que será. De qualquer modo, tudo farei para que me possa implodir na grandiosidade, por dentro de qualquer coisa grandiosa. 
Se não nos soubermos dirigir em direcção da plenitude nada terá valido a pena. Não terá valido a pena termos dado sequer um passo, um passo que seja. É essa a única verdade que necessito saber. Isso e o nojo pela mesquinhez que nos habita os corações. Esta estúpida normalidade, vingando como se fosse a única possibilidade. 
Naquilo que me concerne, estarei disponível para ir até ao esgotamento do possível. Somente quando todas as possibilidades estiverem esgotadas me deixarei abater.
Serei então guardado num livro, no cimo de uma mesa onde não mais poderei transbordar. 

Habitarei minhas cinzas e minhas cinzas habitarão a plenitude do universo. 


Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Tale of a man who whispered to the flowers - X - Fotografia: Céu Baptista; Texto: Rui Carvalho



Entre um corpo e outro corpo nada há. Nada excepto o vazio que nos habita. De tempos em tempos ocorre uma qualquer ignição. Por vezes, a ardência é tanta que chega a incendiar-nos os mundos.  
É pois fundamental que saibamos preencher esse espaço; que, como loucos, nos desencarceremos nos nano-milímetros que nos separam. Que depois de desencarcerados possamos então olhar o vazio em redor. Que aí possamos visar uma brecha desde onde possa ocorrer o dilúvio. 
Tornados um só, aguardaremos então ser chamados ao embarque das cidades novas. Haverá o oceano em redor e nele perdurará o silêncio dos crepúsculos. Tornar-nos-emos Noé, o homem avisado para os chamamentos do mundo. O mundo chamar-nos-á até à proximidade da ruptura e será esse o instante em que nos tocaremos. 
Beberemos então toda a água vertendo em nossos corpos, o sinal da aliança, o universal signo da alegria. 

Que entre meu corpo e o teu corpo nada haja, nada excepto a paixão que nos situa.

Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Tale of a man who whispered to the flowers - IX - Fotografia: Céu Baptista; Texto: Rui Carvalho



Assim se deve viajar: aproximando-nos das crateras, cingindo os olhos ao infinito, o lugar onde não te vejo como se te visse. Alguns vulcões adormecidos atingirão então o estado de pré-ebulição. Será nesse local que instalaremos a primavera em redor dos nossos corpos. Aí, onde  o escorço das paisagens se desenha, faremos uma tangente ao lugar onde a alegria é prestes. Seguiremos depois em frente, continuando sem destino. 
Após o cansaço, e, por não haver leito onde nos deitarmos, seremos o privilégio de ler as estrelas. Olharemos o céu aberto, a luz que flui desde o início dos tempos. As vozes abrir-se-ão e  sobre nós se exercerá a surpresa. Far-se-á o que houver a ser feito para que a vida se aproxime do todo, para que nossos corpos atinjam o cume das coisas. 
As paisagens ser-nos-ão presentes, e, apesar da lonjura do mundo, viveremos o rigor de todas as possibilidades.    

Assim se deve viajar: cingindo os olhos ao infinito, o lugar onde não te vejo como se te visse. 

Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho

domingo, 27 de agosto de 2017

Tale of a man who whispered to the flowers - VII - Fotografia: Céu Baptista; Texto: Rui Carvalho



Eis-nos a fragilidade dos pássaros, o instante em que a cera das asas nos anseia os raios solares. Tocado na urgência de voar sobre Creta, raso agora a impertinência. Eu, o Homem habitado pela morte, pela estranha necessidade de sobrevoar os labirintos. 
Após a prisão de Dédalo temo a minha continuidade, o aprisionamento no solo. Por isso unto-me de cera nas penas de gaivota e treino a aproximação ao Sol.
São estas as possibilidades: 
- voando muito baixo serei refém da humidade;
- voando demasiado alto derreterei junto às chamas. 
Não há nada de intermédio. Pelo menos não há nada de intermédio a que se possa chamar vida. 
Entretanto, poderia cegar os olhos e seguir a indiferença. Vagar-me na penumbra das coisas úteis e aí deixar-me aprisionado. 
Logo eu não me saber ser os outros e ao contrário dos outros não saber viver a iniquidade.
É isto:
serei tolhido pelos labirintos que criei enquanto o mar Egeu treina o curso de seu riso. 

Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho

domingo, 20 de agosto de 2017

Tale of a man who whispered to the flowers - VI - Fotografia: Céu Baptista; Texto: Rui Carvalho



Olho o sussurro do mundo, o desabrochar das flores eternizando a beleza. 
Correrei veloz por dentro do vento até ao odor da polinização. Nada pronunciarei. Minha voz será contida na presença de teu cheiro. Não pronunciarei teu nome. Nada pronunciarei para que não te desveles, para que não te percas na volatilidade das coisas. 
Entretanto.
Olho o sussurro do mundo, o desabrochar das flores eternizando a beleza. 
Breves segundos antes da queda seremos perto da esfera celeste, toda a música tocada nos orgasmos dos anjos. Nada impedirá a propagação dos frutos, a disseminação das sementes caindo no solo, criando a estrutura do recomeço. 
Em teu corpo atingirei os estames onde me aguardas a procura do pólen, o vento correndo todas as direcções. No corrido vento serei a disseminação dos gametas, do micrósporo ao megásporo. 
Cumpriremos as leis da atracção. 
Entretanto.

Olho o sussurro do mundo, o desabrochar das flores eternizando a beleza. 

Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho

domingo, 13 de agosto de 2017

Tale of a man who whispered to the flowers - V - Fotografia: Céu Baptista; Texto: Rui Carvalho



Aguardo, 
                as formas caindo do Sol, incidindo directamente em teu rosto.  
Que depois se faça uma pausa - o brilho das coisas - e que essa pausa se chame: olhar-te. Acho que te oiço chegar. Neste lugar onde não há números, vontades numéricas, onde apenas há a aparição do Sol e da Lua, a derivação dos pontos cardeais. 
O homem que beijar teus olhos será o homem da tua vida. Não precisas ler livros. Não precisas sequer cair no desassossego. Chegarás à porta e verás que estou só, sempre estive. 
Espero por ti. 
Aguardo-te entre a solidão das coisas! 
Enfrento o mundo sem deus, sem uma janela que seja, sem uma janela que se abra e que te desvende. 
Nada me interessa no inexacto percurso das janelas. Procuro-me entre as pedras, entre as pedras reergo o lugar onde o amor medra.   
Procuro as portas, a saída e a chegada. 
A diferença faz-se no que criarmos. Nem bem nem mal, somente a beleza, apenas a beleza das coisas. 

Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho

domingo, 6 de agosto de 2017

Tale of a man who whispered to the flowers - IV - Fotografia: Céu Baptista; Texto: Rui Carvalho



O eco do mundo inicia-se onde já nada se espera. Termina nesse mesmo lugar. Podemos escutá-lo, como se para sempre fosse. 
O mistério é esta luz erguendo-se na escuridão, a intangível surpresa do primeiro olhar resvalando na aparição das coisas. Nem tudo são árvores, vegetação povoando-se no mais enigmático silêncio. 
Contudo, a beleza é aceitarmos a dádiva das florestas, embrenharmo-nos no ritmo dos troncos e aí sorvermos a vida durante um longo período de tempo. Logo após, estaremos aptos. 
Convoco-me no discurso do mundo, na delirante surpresa da pós apneia. 
Ao olharmos para cima somos incididos pela luz. Esse é o momento. O instante do vislumbre. A paisagem tolhe-nos até às lágrimas e no interior da visão tolhida dar-se-ão os reencontros.  
Como somos distantes, correndo como alarves para o nascimento do Sol na pretensão de o agrilhoarmos ao nosso querer. 
Assim nos magoamos mutuamente, enleados na estúpida ânsia de nos adquirirmos nas paisagens.
Apenas tua pertença me interessa. 

Do Sol aguardo apenas os raios, toda esta luz incidindo em teu rosto. 

Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho

domingo, 30 de julho de 2017

Tale of a man who whispered to the flowers - III - Fotografia: Céu Baptista; Texto: Rui Carvalho



Tal qual a chuva, cairíamos da previsibilidade de nossos corpos, embarcaríamos terras distantes, essa longínqua viagem por dentro da pele. Somos da estirpe dos que não ficam. O amor encurrala-nos até ao aperto do coração e de corações apertados decidimos seguir em contramão. 
Quando amanheceu já o frio se fazia. O intranquilo amanhecer da paisagem era o primeiro  indício da queda. Atravessáramos a noite discorrendo anjos e demónios, o amor que tende a partir deixando atrás de si o longo rasto da intempérie. 
Acreditamos nos Gregos perto do Olimpo, Teseu perdendo Ariadne por mera distração. Sim, nossos gestos são a língua de Egeu e Antígona, todo o simbolismo da perda. 
Tornei-me mestre neste jogo, perdedor até ao âmago da incerteza. Em todas as perdas reencontro tua linguagem, essa tenebrosa beleza enlevando-me os olhos. Somos gente perigosa. Em nossos olhos jaz toda a incerteza das coisas. Durei dias, meses, anos aperfeiçoando a visão do alvo. Fiquei sentado durante décadas aguardando o momento oportuno, o instante que me revelasse uma pequena fragilidade, uma pequena fresta em redor do coração. 
Há momentos em que adquirimos o poder de destruir a vida de alguém com o pronunciar de uma só palavra. 
Sou contudo incapaz de exercer o ódio.
Haverá um olhar furtivo diante do qual não nos veremos, apenas isso. 

Nada mais diremos, nem sequer adeus.

Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho

domingo, 23 de julho de 2017

Tale of a man who whispered to the flowers - II - Fotografia: Céu Baptista; Texto: Rui Carvalho



  Eis o esgar da transparência, a fugaz distensão que antecede o enamoramento.
  Somos educados para olhar o solo, para esquecer os lugares de frutificação - os ramos onde as flores darão fruto. Arrancados à capacidade de voar seguimos destino nenhum, a inanidade deste chão.
  Frequentamos distintas frequências de onda. São as frequências de onda que nos distam, de nós mesmos e de todos os outros.
Ou não.
Herdamos a ignorância, de geração em geração. Todos os atavismos.
Contudo, somos seres adaptáveis. Enquanto tal deveríamos adquirir-nos na forma do voo, na magia da fuga aos predadores. A adaptação trouxe-nos aqui. Poderia ter-nos levado a qualquer outro lugar.
Eis-nos, criadores dos lugares que habitamos. Deixemos pois os lugares comuns. 
Distanciemo-nos. 
Distanciemo-nos para que a distância nos revele. Até que nossa única comunidade seja a comunidade da queda.
Tal qual as aves sobrevieram os dinossauros, nós sobrevir-nos-emos.
Enchamos os balões de ar quente até sermos perto de Ícaro.

Serei prestes a rasar o chão. Como uma ave, 
                                                                 cairei a pique. 

Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho

domingo, 16 de julho de 2017

Tale of a man who whispered to the flowers - I - Fotografia: Céu Baptista; Texto: Rui Carvalho



Seria necessário o rompimento do céu para que voltássemos a ser felizes, a reversão do mundo a Eva e Adão. 
Entretanto, somos unidos pelas serpentes, facto que não é coisa pouca.     
O fruto do pecado estala-nos os estômagos quando nos aproximamos da unidade e ainda assim é fundamental persistir na visão das coisas apenas na sua transparência. Essa é uma necessidade básica, ser a vida voada perto da velocidade extrema. 
A minha filha diz-me ver os antepassados e que haverá um tempo em que todos seremos juntos. Nada como a sabedoria das crianças, inteligentes como pequenos deuses.
Contudo, os homens tornaram-se bestas de grande porte, estultos como todo o lixo que nos cerca. Espero que, no mínimo, haja uma purgação, que do lixo que aqui somos nada reste.  
Nunca nada me tocou, nada excepto as intempéries. Espero assim não ser junto à podridão, que Caronte, filho da Noite, continue reinando sobre as águas e que mesmo após a morte os rios permaneçam dividindo os mundos. Que as águas impeçam a estupidez de nos colar os espíritos. Que nenhuma vã moeda sirva para pagar o trajeto. Que seja fundamental transportarmos algum ouro junto a nossos corações e seja essa a única moeda de troca.  
Cruzamo-nos, como barcos sem destino, como se aguardássemos a voz do timoneiro. 
O futuro é agora. Sempre foi. 
E cada passo dado em direcção à beleza é mais um tiro tombando a escuridão. 

Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho