Em pouco tempo serei traçado pelos navios. Cargueiros de grande porte sulcar-me-ão os rombos em minha carne. Aí se reabrirão cicatrizes onde o inciso desejo buscará o seu lugar.
Serei então perdido para te encontrar. Sofrerei de inadequação, esse vírus onde germina o ócio, a inteligência das coisas.
Tornei-me um acidente alimentado pelos mares, pelos terríficos oceanos, esses distantes lugares onde escreverei para não morrer de tédio e não matar de ódio.
Tal qual Jesus Cristo, fomos abandonados pelo Pai, e, no abandono nos tornámos órfãos de nós mesmos.
Contudo, jamais deixarei a vida ser coisa pouca.
Quando o mundo chegar para me abater estarei pronto,
serei já literatura.
Fotografia: José João Loureiro
Texto: Rui Carvalho

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