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terça-feira, 11 de julho de 2017

Útero - IV - Fotografia: José João Loureiro; Texto: Rui Carvalho



Apreender a técnica para girar até à possibilidade do polimento, a transmutação deste lugar num lugar vazio. Adquirir a forma da vagueza. Ser vago, tanto quanto possível. Atingir assim o cerne da necessidade de repleção. 
Chamar a si a atração gravitacional, a repercursão do prodígio galáctico nas circunstâncias moleculares. O humano e o divino centrando o universo, girando o mundo até à plenitude da ausência. 
Entre a cabeça  e os pés, a continuidade do giro. 
Girar no sentido horário. 
Após várias voltas, levantar a palma direita da mão e abaixar a palma esquerda. Deixar o céu incidir na palma direita para que possa perpassar o corpo. Centrar-se no centro da terra e aí adquirir a forma da instrumentalidade, deixar ser-se um mero instrumento. 
Deus - o poder que entra é idêntico ao poder que sai. 
Trocar a posição dos braços, inverter a direção para a esquerda, no sentido anti-horário. Deixar o cérebro girar, também em círculos. Os círculos que a cabeça executa devem ser executados na direção inversa à das voltas do corpo.
Executar uma série completa de mudras até atingir a plenitude da respiração, o controle da velocidade dos giros.
Tornar o corpo o local onde a energia flui, a sensação de darshan desde o centro da terra. O divino, entre a Terra e o Sol. As estruturas moleculares, os campos energéticos centrando o Universo.
O domínio. 
Ver algo é tornar-se esse algo. Adquirir o modo do vislumbre. 
Girar pois até à ausência de si mesmo. Tão só a ausência de si pode abarcar o ser universal. 
Adquirir a forma de uma casa vazia. Adquirir-se assim à possibilidade de tornar-se uma casa cheia.

Sema, a busca por Deus, a verdade - girando.

Fotografia: José João Loureiro
Texto: Rui Carvalho

1 comentário:

  1. Muito bom! Aliás, como sempre 👌🏼 e á imagem que ilustra o texto não se fica nada atrás! Bravo 👏🏼

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