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sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Útero - XV - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho



Há uma estranha gente crescendo com o que resta do mundo, erguendo nos ombros a proximidade do fogo. Comigo procuro uma matéria terrifica. O perplexo olhar dos espelhos, qualquer sopro rondando-me o susto. Não somos outra coisa que não esta névoa gravitando a orla das coisas, os passos perdidos de quem ainda nada entendeu. 
Deve ser mesmo assim. Tudo começa nesta necessidade de praticar o espanto. Depois há pássaros que voam e outros que não. E nós, que não somos pássaros e queremos voar…
Em tempos prendi-me em tuas asas. Devo ter voado perto de Ícaro, pelo menos a julgar pelo som, pela incandescente matéria rondando-me o corpo. Nossas vozes devem ter rasado a melodia do mundo. Sim, devemos ter sido por um triz. 
Contudo, após rasarmos o fogo tornamo-nos outros. É inevitável que assim seja. Que alonguemos os passos até não sabermos onde é o lugar da perda de pé.  
Deve ser mesmo assim, rasamos a melodia das coisas para depois nos perdermos no acicatar das desarmonias. 

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

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