É a perecível beleza das coisas aquilo que mais nos indicia no abismo. Não, não se trata de rugas e do fenecimento dos corpos, mas de saber que sempre que uma porta se abre há um mundo que atrás de nós se fecha.
Seguimos as portas abertas, a solidariedade abandonada ao fenecimento, toda a beleza do mundo soterrada no engodo.
Sim, Hamelin é uma longa estrada que nos enrola o pescoço, uma espécie de cordão umbilical do qual não nos cortámos ainda.
Seguimos o encantamento do flautista, as notas ofegantes de quem busca algum sentido.
É este o problema: ser a polis infestada de ratos.
As cidades são infestadas de ratos e os esgotos seguem-nos todo o caminho. Ao contrário da fábula, a hipnose traz-nos a infestação para dentro das cidades.
Após os campos, são agora as cidades minadas pela peste, esta estúpida gente que deixamos nos governe.
Ratos de esgoto - esse é seu nome.
Não. Os ratos não foram afogados no rio e a culpa é só nossa. Fomos cegos para as vozes que deveríamos ter ouvido e assim tornámos o rio Weser um esgoto a céu aberto.
As crianças abandonaram a cidade, trancaram-se nas cavernas para de nós se protegerem.
Tornei-me este maldito manto de silêncio e tristeza:
muitos ratos
e
criança nenhuma.
Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho
Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

Que beleza de texto! E casa tão bem c/ a imagem
ResponderEliminarThank's Inês
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