São as perspectivas que nos dimensionam o olhar, tudo o resto em seu redor. Olhando compulsivamente na mesma direcção somos adquiridos nas paisagens. A habituação enforma-nos ao ponto de nada vermos excepto o que nos é oferecido.
É isto:
o oferecimento do mundo tolda-nos os olhos, e de olhos toldados caminhamos a inoquidade. Em pouco tempo tornamo-nos o que pretendem: vozes acéfalas votadas à familiaridade do mundo. É a familiaridade das paisagens que nos incute a estar aí sem mais.
Ainda assim, há quem se anseie no tropeço, quem caminhe a possibilidade última de sentido.
É pois necessária uma devoção, um fito elevado à máxima potência, qualquer coisa como a arte tornada vida, ou, vice versa. É fundamental transbordar as possibilidades, todas as direcções. Treinar depois o vertiginoso acto de estar só, fazer com que o solipsimo vingue o inaudível murmúrio do mundo. Saber ensaiar-se na arte do salto, o primeiro gesto que nos ocorra. Correr velozmente em direcção ao precipício e estancar no último instante. Aí permanecer o tempo necessário à paragem do coração.
Olhar então em redor e ver tudo de novo, auscultar a realidade, o olhar primevo.
Aguardar que o coração nos ocorra, pela primeira vez.
Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

Que maravilha! Texto e imagem! 👏🏼👏🏼
ResponderEliminarA maravilha é maravilhares~te Inês. Muito obrigado!
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