No inicio nenhum peso havia. Nada mais havia a não ser o fogo, a precisão das chamas lançando-nos ao encontro da paixão. Os dias eram claros como água, e, como água, saciavam-nos as incertezas. Nada pedíamos ao saber das coisas, nenhuma verdade que pudesse perder-nos os sentidos. Vertíamo-nos no fluir das horas, nele provávamos os vinhos provindo nossas bocas. Sedentos de vida chamámos a nós os rios onde mergulhar os corpos.
Cometemos, contudo, o erro de todos os principiantes; olhámos a copa das árvores e aí julgámos vislumbrar a certeza do mundo. Quisemo-nos colar nessa certeza, balançarmo-nos nos ramos a pressa de nos mantermos os mesmos.
Caminhámos até onde foi possível caminhar, até à insuficiência das possibilidades. Sim, o percurso daquilo que queremos é sempre mais longo que as possibilidades disponíveis; a exiguidade do mundo nunca se mostra suficiente quando a vontade nos é em chamas. Assim, continuamente nos espatifamos de encontro à realidade, e, após nos espatifarmos, ansiamos tornar-nos invisíveis. Tentamos gestos impossíveis para não voltar atrás, para não desistirmos dos sonhos.
Tal como o mundo, somos em metamorfose, e isso é tudo o que sabemos. Tornamo-nos outros a cada segundo e o tempo é uma realidade impossível de suster; as intempéries contrariam-nos a vontade, dotam-nos com a insegurança das coisas.
Fomos de mãos dadas até ao suor das mãos e foi esse o lugar onde escorregámos os corpos.
Percorrermo-nos de novo seria persistir no mesmo erro, termos de novo nossas vidas em desalinho, mantermos-nos textos que já não batem certo com o vicejar das paisagens.
De qualquer modo, fomos até onde deveríamos ter ido, até ao findar das possibilidades…
Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho
Texto: Rui Carvalho

Sem comentários:
Enviar um comentário