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quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Útero - XII - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho


Quando iniciei o Outono ainda a morte não era profusa. Contudo, a desolação da paisagem indiciava já uma prodigiosa solidão. Junto às folhas amarelecidas sentei os primórdios da minha vida e, sentado, aguardei o devir, a água tombando a rodos. 
Todos os anos aqui voltei. 
Todos os anos aqui voltarei. 
Todos os caminhos me trarão aqui, ao simbolismo das folhas aguardando o meu corpo. Esse breve amarelecer do céu devolvendo-me a impossibilidade da permanência. 
Virá um dia em que tudo será distante. Então, com os olhos partindo abrangerei a visão de outros mundos. 
Um dia virá esse dia. 
Virá um dia em que tudo será distante. 
Um dia. 
Um dia haverá o rápido instante da partida.

Deixarei então partir meus olhos. Serei a rápida visão das águias.

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

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