Procuro na água a fundura dos poços. Sim, mesmo desconhecendo qual a razão que funda todas as assimetrias.
Continuo a procurar.
Fogo e água são opostos desde há muito identificados. Contudo, não foi ainda possível discernir com clareza qual o sentido da angústia, qual o motivo que nos distancia uns dos outros.
Será por sermos cegos que não vislumbramos um passo que seja à frente dos nossos olhos? Deve ser isso, o nevoeiro é uma viagem agreste e nós não estamos aptos a ver o fundo das coisas.
Somos gente superficial, tragando cerveja nos cafés. E as mulheres, em casa, tricotam a vida que não tiveram.
Não. Não deve ser aqui que te encontro. Os ponteiros marcam as horas e o tempo é infalível.
Pronto. Já está. É chegada a hora de partir. E eu, eu que tenho pleno conhecimento das horas. Como sei bem quanto as horas são exangues.
Olho para cima e vejo o vácuo cingir-me nesta inanidade. Como deixei cingir-me? Recordo-me que dantes vestias vestidos vermelhos e o teu decote era simétrico aos meus olhos.
Agora, agora há qualquer coisa que falta. Uma chama talvez. Uma chama, exacto. Uma chama que possa reunir-nos em torno deste desespero.
Não, não basta não nos vermos. Não basta não querermos ver o que quer que seja. Não basta cerrarmos os olhos, tornarmo-nos fantasmas de nós mesmos. Seria necessário que fossemos tolhidos pelo mesmo comboio, aquele que está prestes a partir para depois regressar novamente. Seria necessário que a linha férrea se tornasse a nossa cama de sempre, para sempre.
E agora? E agora que tudo arde? O que fazer quando tudo arde?
Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho
Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

Como sempre, muito bom
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