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quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Útero - XIII - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho



Procuro na água a fundura dos poços. Sim, mesmo desconhecendo qual a razão que funda todas as assimetrias. 
Continuo a procurar. 
Fogo e água são opostos desde há muito identificados. Contudo, não foi ainda possível discernir com clareza qual o sentido da angústia, qual o motivo que nos distancia uns dos outros. 
Será por sermos cegos que não vislumbramos um passo que seja à frente dos nossos olhos? Deve ser isso, o nevoeiro é uma viagem agreste e nós não estamos aptos a ver o fundo das coisas. 
Somos gente superficial, tragando cerveja nos cafés. E as mulheres, em casa, tricotam a vida que não tiveram. 

Não. Não deve ser aqui que te encontro. Os ponteiros marcam as horas e o tempo é infalível. 

Pronto. Já está. É chegada a hora de partir. E eu, eu que tenho pleno conhecimento das horas. Como sei bem quanto as horas são exangues. 
Olho para cima e vejo o vácuo cingir-me nesta inanidade. Como deixei cingir-me? Recordo-me que dantes vestias vestidos vermelhos e o teu decote era simétrico aos meus olhos. 
Agora, agora há qualquer coisa que falta. Uma chama talvez. Uma chama, exacto. Uma chama que possa reunir-nos em torno deste desespero. 
Não, não basta não nos vermos. Não basta não querermos ver o que quer que seja. Não basta cerrarmos os olhos, tornarmo-nos fantasmas de nós mesmos. Seria necessário que fossemos tolhidos pelo mesmo comboio, aquele que está prestes a partir para depois regressar novamente. Seria necessário que a linha férrea se tornasse a nossa cama de sempre, para sempre. 

E agora? E agora que tudo arde? O que fazer quando tudo arde? 

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

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