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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XLIII

XLIII
Rui Carvalho: o advento do fim da história e a imposição do pensamento único como modalidade única de ser e de pensar é pois uma impostura hedionda.
Void: vivemos uma espécie de esquizofrenia quando, por um lado, achamos poder modular ou conformar a natureza à nossa própria vontade e, por outro lado, achamos que a realidade social não é mais moldável, que chegámos ao fim da história, que a história tem uma vida própria e que é a história que nos dita as suas próprias leis. 
Há um clara distinção entre natureza e sociedade, entre o domínio natural e o domínio social. 
As formulações sociais são ideológicas. Contrariamente ao que sucede com a natureza. Contrariamente aos que sucede com a natureza, que se rege pelas suas próprias leis, as sociedades humanas são realidades ideológicas. A realidade social humana é puramente ideológica. Ideias. As ideias são o fundamento da realidade social. As ideias, não os números. A realidade. A realidade social não são contas de somar e de sumir. A realidade social não se divide nem se multiplica. A realidade social vive-se. A realidade social vive-se através das ideias, não é uma equação matemática, é uma formulação ideológica. Ao contrário do apregoado, ao contrário do pregão neoliberal acerca da inevitabilidade, acerca da inevitabilidade dos factos sociais, a realidade social não é inevitável. A realidade social é mutável. A realidade social é aquilo que queremos que ela seja. Como se molda, como se constrói a realidade? Como se constroem as realidades sociais?
Acontece que o neoliberalismo é um processo que se funda na estúpida ideia da abolição da contradição do cerne da realidade. É essa a estúpida ideia que nos é vendida pelo ideário neoliberal. As contradições. A contradição abolida por decreto. Como abolir a contradição do mundo? O mundo. A mundanidade. O devir é a mais absoluta das contradições. A luta. Como abolir a luta do mundo? Como abolir do mundo o mundo? Como abolir do mundo a contradição? Sem contradição não há mundo. Não há mundo sem contradição. O mundo sem contradição é o não mundo. A existência. A existência é a mais radical das contradições. A vida e a morte. O mundo. A morte e a vida. Aqui e agora. O mundo. Vida e morte. Respiro? Não respiro? As contrações musculares. Até quando? As sístoles. As diástoles. Até quando? A vida. Até quando? A vida interrompida por decreto. Como interromper a vida por decreto? 
Tal qual o comunismo, o liberalismo funda-se na mesma estulta ideia que um dia o mundo deixará de ser contraditório. Que a determinado momento histórico não mais existirá processo dialéctico e a própria história atingirá o seu fim. Por fim, a finalidade encontrará a sociedade livre de contradições internas. O culminar de todo o processo histórico. O que diferencia ambos os modelos é o facto de que para os comunistas a implementação do estado liberal não resolverá a contradição fundamental. A luta de classes. A luta entre a burguesia e o proletariado. O conflito. O estado liberal não resolve o conflito de classes. O estado liberal não significa a universalização da liberdade. O estado liberal é apenas a vitória da liberdade para uma classe determinada. A burguesia. A classe dominante. Por conseguinte, o homem liberal não é um homem livre. O homem liberal permanece alienado de si próprio. O capitalismo. O capitalismo controla o homem, alienando-o. O homem liberal é o homem tornado escravo do capital. O fim da história. O fim da história só será concretizável através da vitória do proletariado. O proletariado. O proletariado, a verdadeira classe universal. Somente a implementação da sociedade comunista poderá pôr termo à contradição, à contradição que resulta da luta de classes.
Pelo contrário, para o neoliberalismo o estado neoliberal é o santo graal, a concretização do céu na terra. É contra o inculcar deste estúpido estado de coisas que nos devemos rebelar.


Rui Carvalho, s. d. 

terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Útero - XVI - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho



O mar invade o pleito do meu fígado e hoje é já a tarde em que partiste. Depois, amanhã é um qualquer cinzeiro aguardando as cinzas do que fomos. De qualquer modo, é o vigor metafísico da paisagem que nos aproxima da melancolia. Há estes passos que nos alongam as manhãs; e é necessário segui-los até ao cerne das metamorfoses.  
Entretanto.
Entretanto vão chegando os vendedores de castanhas, julgo terem sido eles a trazer-me o cheiro da maresia.
E o vinho, o vinho não colmata já a tua ausência, a sequiosa precisão desde onde me chegavas.
Ainda assim, um oásis é o lugar onde sede e água se juntam como possibilidade e há ainda vários caminhos que precisam ser percorridos. Antes de lá chegarmos, de tocarmos o cerne da paisagem, lidaremos com miragens. É exactamente isso que somos uns para os outros, miragens que se erguem rente à precisão dos nossos olhos. 
Há contudo esta evidência larvar percorrendo o antro das coisas. E não obstante sermos cegos, tanto para o demasiado grande quanto para o pequeno em demasia, deve haver uma qualquer magia que nos funda. 

Tudo se trata de uma questão de fé.

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

Sobre toda a escuridão - XIII - Fotografia: José João Loureiro; Texto: Rui Carvalho



Como não percebemos que a história se revela tão mitológica quanto a mitologia ela mesma, e que chegamos à figura de Cristo através do percurso dos mitos? Transformámos a mitologia do Sol vencedor num acontecimento teológico. Sim, a vitória da luz sobre as trevas é uma ambição de sempre. 
Mantemo-nos contudo na periferia das coisas. Há vitórias que não nos dão nada de novo. Pelo menos neste mundo. E não seria necessária a sua reversão para que existisse qualquer outro? Qualquer outra coisa que não esta imensa escuridão?
Aproximamo-nos do solstício de Inverno como se nos aproximássemos de um trem em andamento. Corremos céleres até estarmos quase próximos. Quando estamos próximos, o trem afasta-se de nós. De qualquer modo, não temos fôlego para mais…

Fotografia: José João Loureiro
Texto: Rui Carvalho

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Breve tratado acerca da arte de jardinar

A vida não é no tempo e no espaço. Qualquer outra coisa que não o perene instante onde nos acontecemos. O instante dos encontros, é aí onde nos devemos procurar. 

Rui Carvalho, s. d.

domingo, 17 de dezembro de 2017

Tale of a man who whispered to the flowers - XXIII - Fotografia: Céu Baptista; Texto: Rui Carvalho



Não, não podemos ser mais que um único triunfo. Após a aquisição da juventude a queda torna-se-á irreversível. Será essa aguda consciência da queda que nos fará perder o pé. Sim, somos aqueles que se perdem, uma estranha gente ecoando na tristeza. 
De qualquer modo, a desorientação é um lugar iniciático, uma condição fundamental para a procura de sentido.
E olha, quando os dias correrem sobre nós, nós esticaremos os elásticos onde pende a miséria que nos une. Depois soltá-los-emos de repente e, com ambas as mãos abertas sobre o mundo, moldar-nos-emos nas possibilidades.
Se medirmos bem os percursos tudo isto é mitologia. 
O sangue corre-nos desde o coração, por entre os túneis abertos em nossas veias e, atingiremos a velocidade máxima antes de sermos tolhidos pelo Minotauro. Creta existe desde sempre e a memória de Teseu ata-nos no mesmo fio onde juntos perderemos a respiração. A realidade é labiríntica e os nossos sonhos também. Resta-nos rever a eternidade da Tragédia, alcançar a catarse através da re-persecução da beleza. 
Com um olhar sólido entre ambas as margens e o som das cascatas brilhando, assim nos resgataremos as paisagens.

Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Sobre toda a escuridão - XII - Fotografia: José João Loureiro; Texto: Rui Carvalho


Um deserto que tudo acolhe não é lugar para gente como nós. Os proscritos são isentos, escolhem lugares onde jamais poderão estar. E nós, os isentos proscritos, vagamos silêncios que mais ninguém ouve. 
Não temos mais com quem falar a não ser com gente como nós. Nós, os incomuns proscritos, desdenhamos o comércio deste mundo. Desdenhamos os lugares onde todos os outros vagam, este império de dejectos assombrando a mesquinhez. 
Procuremos idênticos ouvintes e caminhemos então. Caminhando, façamo-nos medrar entre as pedras em caminho. 
E o silêncio, o silêncio é uma escuta árdua, exige toda uma solidão.
Sejamos pois em continua fuga aos resquícios deste mundo, ao soterramento que nos impingem. Fujamos do mundo como quem foge de um Deus irado. Ao fugir do mundo aproximar-nos-emos da queda, da queda e da água antes da queda. 
Aproximemo-nos da água escorrendo em catadupa, esse lugar desde onde nossos ossos nos escreverão as mais belas canções. Em nós haverá o poder da água ardendo dentro das gargantas sedentas, o íngreme lugar desde onde nos ocorre o intuito das palavras. 

De qualquer modo, este deserto que tudo acolhe jamais será lugar para gente como nós.

Fotografia: José João Loureiro
Texto: Rui Carvalho

sábado, 2 de dezembro de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XLII

XLII
Rui Carvalho: aquilo que defines como mitologia do pensamento único tem como principal consequência o facto de nos ser imposto uma espécie de simulacro democrático?

Void: sim, tal implica que vivamos sob o jugo de uma espécie de simulacro democrático. A teia urdida pelo sistema financeiro a partir do seu grande instrumento de poder, os denominados mercados financeiros, coloca completamente à sua mercê o poder político. A comunicação social encontra-se ela própria completamente manietada pelo poder financeiro. Os jornais e as televisões são pertença da alta finança e dos grandes grupos económicos. Tal facto conduz ao manietar do sentido de voto das populações através da edificação de uma opinião publica bi-polarizada em torno de dois grandes partidos que se revezam entre si no acesso ao poder político. Tudo isto se edificou a partir duma crença, duma mitologia. 
As mitologias são fundamentos sociais. Os Gregos Antigos tinham as suas vidas fundadas na crença no Olimpo. Os Deuses Olímpicos eram os modelos em redor dos quais se erigia o mundo Grego. A mitologia é um advento fundamental, sem mitologia tornamo-nos secos. Secos e ocos. Secos e ocos perdemo-nos para a beleza das coisas. 
Contudo.
A mitologia do pensamento único sorve-nos as energias, a vontade, a vontade de pensar, a vontade de sonhar. O que é um mundo sem energia? O que é um mundo sem vontade? O que é um mundo sem necessidade de sonho? 
Precisamente isto. 
Andamos de olhos fechados um dia inteiro. Por vezes abrimo-los à noite. Mas apenas alguns de nós o fazem. Andamos de olhos fechados. Andamos de olhos fechados e a doença dos olhos fechados dura-nos uma vida inteira. Tememos as insónias como quem teme uma vida desconhecida. É esse o nosso medo. Tememos a verdade. E a verdade é esta: somos dirigidos como rebanhos de gente acéfala
Somos nós os responsáveis pela nossa própria cegueira. Não, não há instituições secretas por detrás de toda esta efabulação social. Não, não são os políticos os únicos responsáveis. Não, os políticos não são todos iguais. Não serão todos iguais enquanto defenderem uma qualquer ideologia. O problema é a não ideologia. O problema é o definhamento da vontade, sobremaneira da vontade de sonhar.  Somos nós que o queremos, somos nós que escolhemos o definhamento da vontade. Somos nós que diariamente nos sentamos frente aos televisores babando a estupidez das várias “telenovelas”. Desejamos coisas, tantas coisas. Desejamos tanto as tantas coisas que as confundimos com a nossa alma. 
De qualquer modo, as sociedades humanas são criações ideológicas, criações puramente ideológicas. Quanto somos imbecis. Quanto somos imbecis quando deixamos que nos imponham uma sociedade isenta de ideologia, uma sociedade asséptica onde nos possam escarrar na cara toda a estupidez. O assepticismo social implica a morte das ideias, a morte da ideologia. As ideias e as ideologias definham a cada instante. Somos nós os únicos responsáveis pelo seu definhamento. Raios partam as desculpas.

Rui Carvalho, s. d.

sábado, 25 de novembro de 2017

Breve tratado acerca da arte de jardinar

O eco da vitória é igualzinho ao estrondo da derrota. Bom, com uma ligeirissíma diferença. O primeiro é efémero, o segundo dura para sempre.

Rui Carvalho, s. d.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Útero - XV - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho



Há uma estranha gente crescendo com o que resta do mundo, erguendo nos ombros a proximidade do fogo. Comigo procuro uma matéria terrifica. O perplexo olhar dos espelhos, qualquer sopro rondando-me o susto. Não somos outra coisa que não esta névoa gravitando a orla das coisas, os passos perdidos de quem ainda nada entendeu. 
Deve ser mesmo assim. Tudo começa nesta necessidade de praticar o espanto. Depois há pássaros que voam e outros que não. E nós, que não somos pássaros e queremos voar…
Em tempos prendi-me em tuas asas. Devo ter voado perto de Ícaro, pelo menos a julgar pelo som, pela incandescente matéria rondando-me o corpo. Nossas vozes devem ter rasado a melodia do mundo. Sim, devemos ter sido por um triz. 
Contudo, após rasarmos o fogo tornamo-nos outros. É inevitável que assim seja. Que alonguemos os passos até não sabermos onde é o lugar da perda de pé.  
Deve ser mesmo assim, rasamos a melodia das coisas para depois nos perdermos no acicatar das desarmonias. 

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Sobre toda a escuridão - XI - Fotografia: José João Loureiro; Texto: Rui Carvalho


A realidade gera-se na constante luta dos opostos, e a isso se deve o facto de estarmos desde logo condenados a singrar no absurdo. Mesmo que nos fosse possível correr o mundo de trás para a frente, em nada se alteraria a sequência das nossas vidas. Tal qual um corredor de barreiras na inversão da corrida, seriam exactamente os mesmos os obstáculos onde cairíamos. 
É isto: somente  sabendo quem somos seremos aptos a saber aquilo de que somos capazes.
Adquiri a sabedoria das coisas, a evidência que o mundo se restringe a isto. Qualquer coisa entre a profunda tristeza e a mais intensa alegria. 
Ou vice-versa. 
Sim, somos nós o mito de Sísifo; aqueles que transportam a intensa alegria da pedra que nos coube. 

Eis-nos a consciência da queda, Camus, meu Irmão. 


Fotografia: José João Loureiro
Texto: Rui Carvalho

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

Útero - XIV - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho


Necessitaríamos superarmo-nos, tornar-nos outros a cada instante. Rodar em círculos até à previsão do mágico toque dos druidas. Contudo, somos esquecidos da magia das coisas. Teimamos em apegar-nos às vicissitudes, a toda esta estupidez. Deixamo-nos cercar pelo mundo até que o mundo nos seque. 
Percorri a lonjura dos trilhos para me distanciar do medo, escondi-me de mim mesmo até tornar-me toda esta inanidade. É muito mais fácil habitarmos o cerne da distração. Sentarmo-nos à mesa e dizermos tudo o que não importa.  
Pois é, somos esta gente vaga que se mina na perfídia. Fogos fátuos, pouco mais que fogos fátuos; ardendo na imensidão deste deserto.
Um dia habitarei os relevos da paisagem, crescerei junto às ervas. Com as ervas atingirei o norte dos meus sonhos. Habitei então alturas descabidas, lugares onde é proibida a permanência. 

Sim, somos tiros no escuro. E não, não há vitórias antecipadas.

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

domingo, 29 de outubro de 2017

Tale of a man who whispered to the flowers - XVI - Fotografia: Céu Baptista; Texto: Rui Carvalho



Caímos no mundo após o romper das águas e é essa queda que nos cria o espanto das coisas.  
De qualquer modo, deverá existir uma razão desconhecida que justifique o nosso choro. Talvez o oxigénio pela primeira vez inalado. Damos por nós resgatados ao útero materno e poderá ser essa uma das razões que justifica a dor em nossos pulmões. Repletos até à imanência do vácuo somos então pegados ao colo.
Comigo foi assim: em criança devo ter-me assustado com o reflexo da minha própria monstruosidade. A minha sombra reflexa no chão deve ter-me causado medo. Então, por alguns dias deixei de andar. Recusava-me a andar, pura e simplesmente. É deveras assustadora a nossa sombra no chão, o nosso reflexo numa qualquer parede. 
Levei tempo a perceber que o meu corpo faz parte de mim. 
Até determinada altura sentia-me prisioneiro, essa vivência do aprisionamento tornava-me estranho. Como se tivesse de mover toneladas para me mover a mim mesmo, para dar um simples passo em frente. 
Só depois a luz chegou, muitíssimo depois. 
Houve um instante em que transpareceste. A luz reflexa em teu rosto iluminou-me o mundo e só então me habituei a mim. Agora já não temo o meu corpo, não sinto sequer a anterior estranheza. 

Deve ser isto a reminiscência: recordar-me de ti como luz, conseguir andar sem receio. 

Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Útero - XIII - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho



Procuro na água a fundura dos poços. Sim, mesmo desconhecendo qual a razão que funda todas as assimetrias. 
Continuo a procurar. 
Fogo e água são opostos desde há muito identificados. Contudo, não foi ainda possível discernir com clareza qual o sentido da angústia, qual o motivo que nos distancia uns dos outros. 
Será por sermos cegos que não vislumbramos um passo que seja à frente dos nossos olhos? Deve ser isso, o nevoeiro é uma viagem agreste e nós não estamos aptos a ver o fundo das coisas. 
Somos gente superficial, tragando cerveja nos cafés. E as mulheres, em casa, tricotam a vida que não tiveram. 

Não. Não deve ser aqui que te encontro. Os ponteiros marcam as horas e o tempo é infalível. 

Pronto. Já está. É chegada a hora de partir. E eu, eu que tenho pleno conhecimento das horas. Como sei bem quanto as horas são exangues. 
Olho para cima e vejo o vácuo cingir-me nesta inanidade. Como deixei cingir-me? Recordo-me que dantes vestias vestidos vermelhos e o teu decote era simétrico aos meus olhos. 
Agora, agora há qualquer coisa que falta. Uma chama talvez. Uma chama, exacto. Uma chama que possa reunir-nos em torno deste desespero. 
Não, não basta não nos vermos. Não basta não querermos ver o que quer que seja. Não basta cerrarmos os olhos, tornarmo-nos fantasmas de nós mesmos. Seria necessário que fossemos tolhidos pelo mesmo comboio, aquele que está prestes a partir para depois regressar novamente. Seria necessário que a linha férrea se tornasse a nossa cama de sempre, para sempre. 

E agora? E agora que tudo arde? O que fazer quando tudo arde? 

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

Breve tratado acerca da arte de jardinar

Ao contrário de Ricardo III: o meu reino por teu Amor.

Rui Carvalho, s. d.

domingo, 22 de outubro de 2017

Tale of a man who whispered to the flowers - XV - Fotografia: Céu Baptista; Texto: Rui Carvalho



Em baixo, rente à mudez do solo, há uma longa planície aguardando a água, o incendiário  regresso do verbo. 
Fiat. 
Faça-se o início desde o início, e desde o início seja outro o mundo. Que tudo se inicie em Eva e Adão e na certeira serpente. Que haja maças em demasia e que as demasiadas maçãs sejam para sempre trincadas. Bem assim, hajam anjos desnudos dançando-nos os corpos. Que em Eva haja a macieza do toque, a florescência dos sentidos, e que em meus dedos haja o secreto dom da alegria. Que os anjos nos ensinem a proeza dos corpos inflamados no sopro da vida, e que nossas línguas possam ser dançadas até à exaustão. Que então nos possamos completar até formarmos o vicejamento do todo.  
Em baixo, rente à mudez do solo, poderei escutar o marulhar das águas. Seguindo o rasto das águas acercar-me-ei dos oceanos. Estarei na berma, aguardando a chegada das baleias - de Jonas, o meu regresso.

Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Sobre toda a escuridão - X - Fotografia: José João Loureiro; Texto: Rui Carvalho



Permaneço sentado, com a cabeça entre as mãos. Assim me reservo a embriaguez dos lugares. Dirijo-me ao centro das coisas para que ai me possa habitar, tornar-me rente aos precipícios, todos os locais onde me faça cair. 
Como uma chuva de flechas certeiras, que a verdade sobre mim se abata. Que seja o mundo uma realidade incompreensível e que ainda assim me possa restar ao gritante desespero. 
De qualquer modo, correrei célere após o cansaço. Abrirei os braços como asas sobre o mar e assim permanecerei. Haverá um instante em que serei seguro, seguirei a sombra dos meus gestos, o mais intenso dos percursos. 
Nada há após a morte. Nada excepto o brilho do que fica. 
É essa a única luz que me interessa, a das estrelas cintilando rente aos olhos dos viventes. 

Deus disse: que a luz se faça! 

E no instante a luz se fez.


Fotografia: José João Loureiro
Texto: Rui Carvalho

domingo, 15 de outubro de 2017

Tale of a man who whispered to the flowers - XIV - Fotografia: Céu Baptista; Texto: Rui Carvalho



Que a realidade se inverta, que espaço e tempo se convertam no seu contrário. Que a temporalidade transcorra, da frente para trás. Que no início de tudo esteja a morte e a morte transcorra o percurso até à vida. Quanto à espacialidade, rapidamente nos adaptaremos a tocar o cume das coisas. A copa das árvores tocará nossos pés, e isso tornar-se-á um hábito. Habitaremos então o solo como quem habita a sua casa de sempre.
Que o mundo possa aguardar nossa chegada, aqueles que na mortandade buscam o toque da vida. Os que na morte soam as inequações, as incógnitas e as variáveis, os gestos até ao findar do medo. 
Com as vozes ecoando ouviremos os relâmpagos; trovejaremos a ausência de sentido, e, na ausência de sentido, desocultaremos os milagres. 
De qualquer modo, mais facilmente atingiremos a proximidade dos deuses. 
Que sejamos tão inexistentes quanto as profissões que aqui nos moldam. Que as profissões não se colem a nossas peles e assim estejamos mais perto da transparência. 
Quando olharmos os espelhos serão os espelhos a olhar-nos. Viveremos uma espécie de animismo, uma intensa correlação com as coisas em redor. 
Sim:
“We are the children of the sun” 
and, yes:
“our journey’s just begun!”


Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Sobre toda a escuridão - IX - Fotografia: José João Loureiro; Texto: Rui Carvalho



Segundo parece, a realidade é imbuída na mecânica do salto. Tudo terá começado a existir no salto dado de um vazio para outro vazio, com um outro vazio pelo meio. Desde o início dos tempos nada mais houve a não ser essa profusa repetição. 
Também o humano é um ser repetivel. Jamais deixámos de ser a repetida profusão de vazios sobre vazios. 
De tempos em tempos julgamos poder prosseguir a marcha; até porque há saltos que nos levam desde não sabermos onde até não sabermos onde. Ainda assim, não podemos escapar à acessa mania de nos situarmos. Criamos lugares fictícios onde julgamos poder fixar-nos, e aí mimamos os figurinos da alguma felicidade. Vestimos fatos pré-feitos que achamos ficar-nos bem.
Contudo, é o umbigo, são os nossos umbigos que nos centram o mundo. Pouco mais somos que essa peculiar cicatriz. Após termos chamado a nós o poder gravitacional do mundo não existirá mais nada a fazer a não ser mantermo-nos sustidos na força de Atlas, suportando o peso da realidade com os nossos ombros. Quando nossos ombros ruírem, nossas vidas ruirão com eles.

De qualquer modo, que outra coisa poderia existir no hiato entre a não vida e a vida, entre a  unicelularidade e a pluricelularidade, que outra coisa que não o incompreensibilidade do vazio?

Fotografia: José João Loureiro
Texto: Rui Carvalho

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XLI

XLI
Rui Carvalho: podemos afirmar que a imposição do não valor como valor e a imposição do medo como fonte de governação derivam de uma mudança de paradigma ou implicam uma mudança de paradigma relativamente ao funcionamento económico/social das nossas estruturas societárias?

Void: sim, podemos afirmar que estamos perante uma radical mudança de paradigma nas nossas estruturas societárias. O modo de funcionamento da actual civilização ocidental e ocidentalizada assenta no triunfo, no completo domínio do sistema financeiro sobre todos os restantes vectores sociais. 
O domínio da alta finança é elaborado, é construído mediante uma completa e radical mudança de paradigma. Através de uma radical mudança estrutural no modus operandi da infra-estrutura económica que sustenta as nossas sociedades. Uma mudança estrutural que só poderá ser sustentada se for construída com base numa superestrutura financeira, superestrutura essa que terá necessariamente que ser implementada a nível mundial. A implementação dessa superestrutura é materializada na criação dos denominados mercados financeiros. Os mercados financeiros permitem a criação e multiplicação artificial da riqueza através do advento da especulação financeira. A riqueza. A riqueza que no anterior modus operandi económico era construída ou adquirida de um modo dialéctico, isto é, o denominado investidor ou empreendedor necessitava sempre da força de uma mão de obra que lhe permitia implementar o seu propósito de enriquecimento, passa a poder ser gerada sem mais, sem o recurso ao factor trabalho. O trabalho. O capital. A dialética trabalho/capital. Havendo a necessidade do processo dialéctico estabelecido entre um empreendedor e uma quantidade mais ou menos elevada de obreiros capacitados para levar a cabo a edificação do seu empreendimento, era sempre estabelecido um certo equilíbrio de forças, equilíbrio de forças esse que era adquirido quase sempre negocialmente e que estabelecia um equilíbrio entre os interesse do empreendedor e os interesses dos obreiros do empreendimento. Neste contexto, a existência dos sindicatos era uma condição fulcral para que fosse atingido o referido equilíbrio de forças e interesses. Com o triunfo do sistema financeiro esse equilíbrio de forças foi completamente erradicado. No seu actual modo de funcionamento o sistema financeiro possibilita a criação de riqueza a partir do nada. Os produtos financeiros são a pedra de toque para a criação de riqueza. A riqueza é criada e auto-multiplicada de  um modo completamente artificial. Através do investimento nos denominados produtos financeiros os investidores deixam de ter de preocupar-se com investimentos que apenas criam riqueza a longo prazo. Mais ainda, os ricos investidores deixam de ter que preocupar-se com sindicatos e trabalhadores. Os investidores têm nos mercados financeiros o seu grande instrumento de poder. 
Sim, estamos a vivenciar uma radical alteração de paradigma. A dialéctica capital versus trabalho foi substituída pela mitologia do pensamento único.

Rui Carvalho, s. d.

domingo, 8 de outubro de 2017

Tale of a man who whispered to the flowers - XIII - Fotografia: Céu Baptista; Texto: Rui Carvalho



Leva-nos uma vida inteira o afinamento das cordas para serem tocadas. 
Após a acmé resta-nos aguardar: os gestos oblíquos dos deuses ou a fala agreste dos demónios. Pouco importa, desde que sejamos dados como música, que em nossa pele façamos vibrar a musicalidade do mundo. 
De qualquer modo, é fundamental saber invejar a inteligência das pedras, aguardar que nossos pés flutuem até à lisura do escorregamento. 
Ao rasarmos o vácuo estaremos já perto daquilo que o futuro nos reserva. Será esse o momento em que nos mostraremos aptos para testar o salto. 
Saltar ou não saltar depende do talento para a queda, para o exercício da acrobacia. A execução do salto implicaria cair com os pés já fora do chão, já fora do mundo. 
Seria necessário estarmos aptos. Sermos férteis de equilíbrio, da dose de estranheza necessária ao vislumbre, ao acompanhamento da velocidade do milagre.

Sim, a verdadeira Fé é muito para além da loucura.

Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho

sábado, 7 de outubro de 2017

Breve curso de introdução à economia Grega - VII

Itaca

Sobre as águas me ergo e, sem caminhar, contemplo o mar alagando teu rosto.
Ao largo, ancorados na breve língua térrea 
quatro pés sulcam as águas do mar Egeu,
plenamente sentindo a Terra
o feroz fragor dos oceanos.

Não tentes nada Calipso, nada, 
peço-te,
é inútil sorrires.

Penélope, amor que me aguardas 
Itaca é o meu destino.


Rui Carvalho, s. d.


quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Útero - XII - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho


Quando iniciei o Outono ainda a morte não era profusa. Contudo, a desolação da paisagem indiciava já uma prodigiosa solidão. Junto às folhas amarelecidas sentei os primórdios da minha vida e, sentado, aguardei o devir, a água tombando a rodos. 
Todos os anos aqui voltei. 
Todos os anos aqui voltarei. 
Todos os caminhos me trarão aqui, ao simbolismo das folhas aguardando o meu corpo. Esse breve amarelecer do céu devolvendo-me a impossibilidade da permanência. 
Virá um dia em que tudo será distante. Então, com os olhos partindo abrangerei a visão de outros mundos. 
Um dia virá esse dia. 
Virá um dia em que tudo será distante. 
Um dia. 
Um dia haverá o rápido instante da partida.

Deixarei então partir meus olhos. Serei a rápida visão das águias.

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho