XLII
Rui Carvalho: aquilo que defines como mitologia do pensamento único tem como principal consequência o facto de nos ser imposto uma espécie de simulacro democrático?
Void: sim, tal implica que vivamos sob o jugo de uma espécie de simulacro democrático. A teia urdida pelo sistema financeiro a partir do seu grande instrumento de poder, os denominados mercados financeiros, coloca completamente à sua mercê o poder político. A comunicação social encontra-se ela própria completamente manietada pelo poder financeiro. Os jornais e as televisões são pertença da alta finança e dos grandes grupos económicos. Tal facto conduz ao manietar do sentido de voto das populações através da edificação de uma opinião publica bi-polarizada em torno de dois grandes partidos que se revezam entre si no acesso ao poder político. Tudo isto se edificou a partir duma crença, duma mitologia.
As mitologias são fundamentos sociais. Os Gregos Antigos tinham as suas vidas fundadas na crença no Olimpo. Os Deuses Olímpicos eram os modelos em redor dos quais se erigia o mundo Grego. A mitologia é um advento fundamental, sem mitologia tornamo-nos secos. Secos e ocos. Secos e ocos perdemo-nos para a beleza das coisas.
Contudo.
A mitologia do pensamento único sorve-nos as energias, a vontade, a vontade de pensar, a vontade de sonhar. O que é um mundo sem energia? O que é um mundo sem vontade? O que é um mundo sem necessidade de sonho?
Precisamente isto.
Andamos de olhos fechados um dia inteiro. Por vezes abrimo-los à noite. Mas apenas alguns de nós o fazem. Andamos de olhos fechados. Andamos de olhos fechados e a doença dos olhos fechados dura-nos uma vida inteira. Tememos as insónias como quem teme uma vida desconhecida. É esse o nosso medo. Tememos a verdade. E a verdade é esta: somos dirigidos como rebanhos de gente acéfala.
Somos nós os responsáveis pela nossa própria cegueira. Não, não há instituições secretas por detrás de toda esta efabulação social. Não, não são os políticos os únicos responsáveis. Não, os políticos não são todos iguais. Não serão todos iguais enquanto defenderem uma qualquer ideologia. O problema é a não ideologia. O problema é o definhamento da vontade, sobremaneira da vontade de sonhar. Somos nós que o queremos, somos nós que escolhemos o definhamento da vontade. Somos nós que diariamente nos sentamos frente aos televisores babando a estupidez das várias “telenovelas”. Desejamos coisas, tantas coisas. Desejamos tanto as tantas coisas que as confundimos com a nossa alma.
De qualquer modo, as sociedades humanas são criações ideológicas, criações puramente ideológicas. Quanto somos imbecis. Quanto somos imbecis quando deixamos que nos imponham uma sociedade isenta de ideologia, uma sociedade asséptica onde nos possam escarrar na cara toda a estupidez. O assepticismo social implica a morte das ideias, a morte da ideologia. As ideias e as ideologias definham a cada instante. Somos nós os únicos responsáveis pelo seu definhamento. Raios partam as desculpas.
Rui Carvalho, s. d.
Rui Carvalho, s. d.
Sem duvida, concordo completamente
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