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quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Sobre toda a escuridão - XII - Fotografia: José João Loureiro; Texto: Rui Carvalho


Um deserto que tudo acolhe não é lugar para gente como nós. Os proscritos são isentos, escolhem lugares onde jamais poderão estar. E nós, os isentos proscritos, vagamos silêncios que mais ninguém ouve. 
Não temos mais com quem falar a não ser com gente como nós. Nós, os incomuns proscritos, desdenhamos o comércio deste mundo. Desdenhamos os lugares onde todos os outros vagam, este império de dejectos assombrando a mesquinhez. 
Procuremos idênticos ouvintes e caminhemos então. Caminhando, façamo-nos medrar entre as pedras em caminho. 
E o silêncio, o silêncio é uma escuta árdua, exige toda uma solidão.
Sejamos pois em continua fuga aos resquícios deste mundo, ao soterramento que nos impingem. Fujamos do mundo como quem foge de um Deus irado. Ao fugir do mundo aproximar-nos-emos da queda, da queda e da água antes da queda. 
Aproximemo-nos da água escorrendo em catadupa, esse lugar desde onde nossos ossos nos escreverão as mais belas canções. Em nós haverá o poder da água ardendo dentro das gargantas sedentas, o íngreme lugar desde onde nos ocorre o intuito das palavras. 

De qualquer modo, este deserto que tudo acolhe jamais será lugar para gente como nós.

Fotografia: José João Loureiro
Texto: Rui Carvalho

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