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segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XLI

XLI
Rui Carvalho: podemos afirmar que a imposição do não valor como valor e a imposição do medo como fonte de governação derivam de uma mudança de paradigma ou implicam uma mudança de paradigma relativamente ao funcionamento económico/social das nossas estruturas societárias?

Void: sim, podemos afirmar que estamos perante uma radical mudança de paradigma nas nossas estruturas societárias. O modo de funcionamento da actual civilização ocidental e ocidentalizada assenta no triunfo, no completo domínio do sistema financeiro sobre todos os restantes vectores sociais. 
O domínio da alta finança é elaborado, é construído mediante uma completa e radical mudança de paradigma. Através de uma radical mudança estrutural no modus operandi da infra-estrutura económica que sustenta as nossas sociedades. Uma mudança estrutural que só poderá ser sustentada se for construída com base numa superestrutura financeira, superestrutura essa que terá necessariamente que ser implementada a nível mundial. A implementação dessa superestrutura é materializada na criação dos denominados mercados financeiros. Os mercados financeiros permitem a criação e multiplicação artificial da riqueza através do advento da especulação financeira. A riqueza. A riqueza que no anterior modus operandi económico era construída ou adquirida de um modo dialéctico, isto é, o denominado investidor ou empreendedor necessitava sempre da força de uma mão de obra que lhe permitia implementar o seu propósito de enriquecimento, passa a poder ser gerada sem mais, sem o recurso ao factor trabalho. O trabalho. O capital. A dialética trabalho/capital. Havendo a necessidade do processo dialéctico estabelecido entre um empreendedor e uma quantidade mais ou menos elevada de obreiros capacitados para levar a cabo a edificação do seu empreendimento, era sempre estabelecido um certo equilíbrio de forças, equilíbrio de forças esse que era adquirido quase sempre negocialmente e que estabelecia um equilíbrio entre os interesse do empreendedor e os interesses dos obreiros do empreendimento. Neste contexto, a existência dos sindicatos era uma condição fulcral para que fosse atingido o referido equilíbrio de forças e interesses. Com o triunfo do sistema financeiro esse equilíbrio de forças foi completamente erradicado. No seu actual modo de funcionamento o sistema financeiro possibilita a criação de riqueza a partir do nada. Os produtos financeiros são a pedra de toque para a criação de riqueza. A riqueza é criada e auto-multiplicada de  um modo completamente artificial. Através do investimento nos denominados produtos financeiros os investidores deixam de ter de preocupar-se com investimentos que apenas criam riqueza a longo prazo. Mais ainda, os ricos investidores deixam de ter que preocupar-se com sindicatos e trabalhadores. Os investidores têm nos mercados financeiros o seu grande instrumento de poder. 
Sim, estamos a vivenciar uma radical alteração de paradigma. A dialéctica capital versus trabalho foi substituída pela mitologia do pensamento único.

Rui Carvalho, s. d.

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