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sábado, 25 de março de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XXX

XXX

 Rui Carvalho: Consegues definir melhor esse conceito de necessidade de verdade?

Sebastien Void: A necessidade de verdade é uma espécie de doença. Trata-se de uma inadequação que nos obriga a perscrutar indícios de certeza no domínio da incerteza.  O diagnóstico da patologia ocorre da verificação de um movimento de recusa. O doente de verdade recusa-se ser um mero espectador, um mero habitante passivo de um mundo fabricado. A artificialidade do mundo é dada em oposição ao denso semblante da natureza. Digamos que a natureza é cruel, pelo menos numa perspectiva humana. Trata-se de matar ou morrer, matar ou deixar-se matar. Perante a fatalidade da luta de morte que é constitutiva na natureza enquanto tal, o humano inventou a artificialidade. A artificialidade constitui-se como uma segunda pele, como uma espécie de camuflagem da natureza. É nesta tentativa de camuflagem da natureza que se erige a sociabilidade. O homem social recusa a fatalidade da luta, recusa a inevitável fatalidade da vitória do mais forte. No âmbito da sociabilidade o bom não é mais o mais forte, o bom é aquele que melhor se sabe camuflar. O âmbito da sociabilidade é um âmbito artificial. Bom, o problema é que a ambição humana é desmedida, desmesurada. A ambição humana extravasa todos os limites da razoabilidade, não raras vezes ocorre no domínio da mera loucura. Por vezes essa loucura é uma loucura colectiva que acomete não apenas um indivíduo ou um grupo de indivíduos, mas toda a sociedade. No limite da loucura aquilo que se pretende não é já uma mera camuflagem, ou a constituição de uma segunda pele. No limite da loucura aquilo que se pretende é domar a natureza, moldar a natureza ao gosto de quem a molda. Ora, esta tentativa de domar a natureza é uma tentativa insana. É claro que a natureza é indomável. Podemos precaver-nos ou minimizar os estragos de uma natureza em ebulição, contudo, é impossível agrilhoá-la ao ponto de fazê-la estritamente obediente aos ditames do humano. 
A realidade é o âmbito da incerteza. Somos habitados pelas areias movediças do quotidiano. As areias movediças do quotidiano são inseguras. A cada movimento somos lentamente soterrados numa espécie de conformismo. A recusa ao conformismo é um indício que estamos doentes. Somos tocados pela necessidade de verdade, e ao sermos tocados pela necessidade de verdade somos desde logo condenados à patologia do absurdo. A maioria das pessoas não tem sequer noção que é habitado pela incerteza. A generalidade das pessoas é conforme àquilo que é e à situação em que está. Traduzidas na ambição, as pessoas moldam-se ao meio ambiente. Também os nossos mundos são moldados pelo que ambicionamos, pelas nossas pequenas ambições. 
Aquele que percorre a necessidade de verdade é habitado pelo inconformismo, um inconformismo até à medula. O inconformismo brota precisamente dessa necessidade de verdade que tinge a vida do artista. Neste contexto o artista é sempre aquele que mais perto está das figuras do louco ou do criminoso. O inconformado está à margem. E está à margem porque quer estar à margem, é-lhe de todo impossível ser de outra maneira. O artista é o verdadeiro doente de verdade. 

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