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sábado, 26 de agosto de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XXXIX

XXXIX
Rui Carvalho: Identificas a imposição do não valor como valor e a imposição do medo como fonte de governação como duas condições essenciais para o exercício da perfídia. Podes explicar-nos melhor com ocorre ou como ocorreu o fenómeno da imposição do valor como não valor?

Void: A quantidade. A quantidade é-nos imposta como valor. A imposição da quantidade como valor está directamente correlacionada, por um lado com o advento da democratização das sociedades e, por outro lado, com o desenvolvimento da ciência moderna. 
Somos completamente dominados, manietados pelo paradigma quantitativo. O quanto é o valor. O quanto torna-se valor. O mais do quanto. Quanto mais melhor. A quantidade. A magia do mundo está na quantidade. O mais e o menos. O mais é sempre mais que o menos. O mais gostado. O mais valorizado. O mais caro. O bom. O bom identificado como mais. O número. O sistema numérico tornou-se uma arma de poder.
O advento democrático trouxe-nos o desvelamento do muito como valor. Nas sociedades aristocráticas imperava o despotismo, e no âmbito do despotismo a quantidade não era sequer tida em conta enquanto fonte de poder. O poder era o poder do mais forte, do mais capaz, do mais rico, do mais pérfido. As tabelas axiológicas deste tipo de sociedades fundavam-se em valores de índole não quantitativo. A quantidade nada tinha que ver com os fenómenos de poder. É na passagem deste tipo de sociedades para as sociedade democráticas ocidentalizadas que se verifica o dealbar do quantitativo como valor, do mais e do menos enquanto formas de medida no acesso ao poder. Nas sociedades ocidentalizadas o mais e o muito são o valor por excelência. Ora, o mais e o muito das quantidades são algo absolutamente subjectivo. Imagine-se que os muitos são absolutamente estultos. Se os muitos são absolutamente estultos, a estultícia passa a ser discernida, passa a ser reconhecida como algo de bom. Neste tipo de sociedades o muito é desde logo identificado com o bom. O que é muito é o que é muito bom.
Quanto à importância da ciência moderna como fonte de quantificação e de imposição do quantitativo como valor, a mesma tem sobretudo a ver com a identificação da natureza como um conjunto de átomos e vazio. Com o advento da ciência moderna, a natureza é identificada como um conjunto de átomos e vazio. Ora, uma realidade composta de átomos e vazio é uma realidade quatificável. Assim sendo, tudo no mundo se resumirá a quantidades. Após a determinação das quantidades estamos habilitados a ler a natureza. Com a possibilidade de leitura da natureza vem colada a possibilidade de domínio da natureza. A natureza é desde logo identificada enquanto entidade quantitativa. Enquanto realidade determinada e determinável. Ora, uma entidade determinada e determinável é desde logo uma entidade previsível. Assim sendo, os fenómenos da natureza são previsíveis, são predicáveis. Sendo os fenómenos da natureza predicáveis torna-se possível prever a ocorrência dos vários acontecimentos. Tudo se resumirá então a premissas e conclusões. A natureza e o mundo são realidades conclusivas. Tudo que necessitamos são unidades de medida. Sejam-nos dadas unidades de medida e a realidade ser-nos-á descrita ou explicada. Meios de cálculo. Só necessitamos de meios de cálculo. A realidade natural é um fenómeno instrumentalizável. Usando a técnica adequada é-nos possível dominar a natureza. O domínio técnico, a técnica torna-se predominante. O domínio das várias técnicas tornam legíveis os vários domínios da natureza. Física. Química. Biologia. Matemática. Estatística. As ciências da natureza. O número. Os bits. A informática. Zeros e uns. O predomínio das quantidades, o império do quantitativo.

Rui Carvalho, s. d.

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