XXXIII
Rui Carvalho: a moldagem do húmus do mundo, tal como a referes, implica que sejamos actores e não meros espectadores, que saibamos agir o mundo em vez de nos deixarmos agir pelo mundo. Como se processa esse processo de moldagem?
Void: a moldagem do húmus do mundo implica qualquer coisa similar ao acto do oleiro moldando o barro. Bom, não apenas um acto de olaria, nada que resulte apenas do mero artesanato, talvez uma espécie de cisão entre a olaria e a arte de Geppetto. Sim, o tal Geppetto. O Geppetto do Pinóquio, o criador do Pinóquio. Talvez um acto entre o artesanato e arte no seu sentido pleno. Somente o artista - no seu estado pleno, no seu sentido pleno - está apto a poder moldar o mundo. O artista é aquele que age a realidade. Agindo a realidade, o artista torna-se Actor. O Actor dá vida às suas personagens.
O Actor. Quem é o Actor?
O actor é um vírus, o actor é um vírus que germina e age no interior do tecido social. Um vírus que reage ou age em resposta ou face ao amorfismo característico das restantes células sociais. Contudo, o actor é indivíduo, logo a sua acção sempre se caracteriza por ser um acto solitário e isolado. O agir do actor não é um agir colectivo ou corporativo, não se presta à acção colectiva. O actor não pertence a grupos de acção ou a grupos de pressão. Por conseguinte, a acção do actor não é nem pode ser pandémica. A acção do actor erige-se como chaga. Como chaga que se abre, que se irrompe no seio do mundo e contra o mundo, jamais com o próprio mundo. Ao agir contra o amorfismo social o actor torna-se proscrito, torna-se um ser à margem.
Nesse contexto há uma certa similitude entre a marginalidade do actor e os outros tipos de marginalidade social. Ao estar à margem da comunidade, do que é comum, o actor radica-se no incomum. É essa incomunabilidade que torna a acção do actor incomunicável.
O maior receio da comunidade consiste em deixar-se contaminar pelo incomum. Dai o desrespeito, o desprezo com que o artista é tratado pela comunidade em geral. Dai a incapacidade das comunidades para aceitar e assumir o objecto artístico como algo “seu”. Dai o medo do novo, da mudança. Dai o medo que a arte nos invoque, que a arte nos faça implodir nossas pequenas e medíocres existências.
A arte é inútil e o mundo detesta a inutilidade.
O mundo está forjado no exercício da posse. Nas sociedades modernas ou contemporâneas todo o valor se resume no acto de posse. Bom, é assim desde sempre, desde que o humano apareceu sobre a terra. De qualquer modo, o mesmo acontece com os animais, com os animais irracionais. O acto de posse enforma a peripécia do mundo. Aquele que possui coisas torna-se visível na posse e no acto de pose. Não é despiciendo analisarmos os actos de poder, os actos de tomada de posse. Todos os actos de poder radicam numa tomada de posse. Quando um partido ou um indivíduo vence as eleições ou quando alguém assume um cargo de poder há sempre uma tomada de posse. O ritual de tomada de posse implica uma transferência de poder. Sendo que essa transferência de poder implica o posar, o estar perante as “câmeras” e perante as câmeras assumir que se é alguém. O ser alguém corresponde a um acto de delegação, delegamos num determinado partido ou numa determinada pessoa o poder que advém do sermos muitos.
O mesmo também acontece com o possuir coisas, com a posse de algo que se torna nossa pertença. O humano desembarca-se na pose. Primeiro na posse e depois na pose. Apenas existimos como pessoas quando possuímos algo, quando somos proprietários de algo. A posse e a propriedade são as alavancas que suportam a engrenagem social do mundo. Ao assumirmos a posse de algo tornamo-nos objectos de reconhecimento, tornamo-nos reconheciveis.
Pelo contrário, a arte desapossa-nos, na arte deixamos de ser o centro do mundo. O objecto artístico tem o poder de nos descentrar, de nos tornar outros, de nos deixar levar no âmbito da levitação. Quando contemplamos arte, e o termo contemplar abarca todos os sentidos de exercício do humano, somos levados num processo de levitação, é quase como se perdêssemos pé.
Não sei se alguma vez se deram casos semelhantes, mas é bem possível que um tipo minimamente sensível à arte possa ficar durante dias siderado frente a uma obra de Picasso ou de Kandinsky, de qualquer outro génio. E não, não se tratariam de casos de loucura. Deveria acontecer-nos a todos. Deveríamos ser aptos a deixar-nos permanecer siderados pela arte, pelo objecto artístico. Deveríamos tornar-nos aptos a ver a realidade, não apenas a olhar a realidade. O nosso olhar é um olhar formatado. E é um olhar formatado porque somos desde cedo acostumados a olhar em rebanho. Quando olhamos em rebanho vemos tal qual os outros veem e ouvimos tal qual todos os outros ouvem. O problema é precisamente esse. O problema reside no facto de nos deixarmos ser todos os outros. Quando contemplamos arte deveríamos ser predispostos a estar lá a sós. Nós e o objecto que contemplamos. Sem mais delongas. Nós e a nossa intensa solidão. Somente assim é possível que a arte nos toque. O raio da arte, esse algo que ninguém sabe bem o que é. Porque é que alguém decide destruir a sua vida na fabricação de coisas inúteis? Para que servem as coisas inúteis? Será que? Será que é a arte que é inútil ou somos nós que nos deixamos sorver na inutilidade das nossas estúpidas existências? Que raio de sociedade esta? Que raio de sociedade peneira de tal modo a realidade que somente permite o reconhecimento da estupidez?
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