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sexta-feira, 5 de maio de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XXXV

XXXV

Rui Carvalho: Como erigir então uma comunidade? Como erigir uma comunidade de sentido fundada no estigma da utilidade?

Void: As comunidades erigem-se com base numa necessidade reciproca de pertença, de comunhão de uma realidade sensível e palpável - um pedaço de terra, por exemplo. As congregações mais primitivas radicam justamente nesse sentimento de pertença, de partilha da terra, de um pedaço de terra tornado “nosso”. É a partir desse pedaço de terra tornado nosso que se erige a noção de comunidade. À medida que uma determinada comunidade vai conquistando terras e mais terras, vai-se tornando cada vez mais vasta e mais próspera. A prosperidade comunitária fica desde logo indelevelmente conectada com o sucesso. O mais bem sucedido é o mais relevante, é o que mais contribui para o bem estar comunitário. Desde a Idade Média às sociedades modernas, desde a nobreza à burguesia, as comunidades são guiadas como rebanhos na senda da prosperidade no sucesso. O próspero e bem sucedido burguês tornou-se o mais relevante símbolo da vitalidade de uma determinada comunidade. A prosperidade está desde logo vinculada à posse da propriedade, aquele que mais terras possui é o mais próspero. Com a posse de terras vem a riqueza, a posse de coisas, quantas mais coisas melhor. A partir da revolução industrial a riqueza deixou de estar directamente ligada à posse de terras e passou a gravitar em torno do empreendedorismo e da assunção do risco através do investimento. Digamos que a riqueza se democratizou, deixou de ser usufruto da nobreza, assim como a posse de terras deixou de ser conquistada pela força dos mais fortes. Com a industrialização verificou-se uma generalização e uma banalização do consumo. O consumo torna-se o cerne em torno do qual gravitam as sociedades industrializadas. É com base no consumo e na consequente lei da oferta e da procura que se desenvolve a Hidra do capitalismo. Tudo aquilo que é objecto de procura se mostra produtível e tudo aquilo que é produtível pode ser objecto de consumo. O objecto de consumo é o útil. É a possibilidade de consumo que determina a utilidade ou inutilidade de todas as coisas. Todo o contexto social indicia e premeia o empreendedorismo e o sucesso. O consumo e a posse de coisas úteis constitui-se como mola impulsionadora da sociabilidade. 
Assim se gera o nevoeiro, o ténue e tenebroso nevoeiro capitalista. O nevoeiro. Perdidos no nevoeiro não alcançamos um palmo, um palmo que seja à frente do nosso nariz. As únicas coisas que nos são visíveis são as que nos são dadas através do consumo. Deixamos de ser homens ou mulheres para nos tornarmos meros consumidores. As nossas existências são gravitadas em torno do consumo, da estúpida necessidade de consumo. Somente consumindo nos tornamos visíveis como alguém. As comunidades contemporâneas são toldadas no consumo, na utilidade consumista. Tal significa que o sentido de comunidade se perdeu por completo. Somos comunidades de consumo, meras comunidades de consumo. Somente adquirimos existência quando consumimos. Vemos e somos vistos no modo da aquisição. A nossa existência torna-se mais ou menos visível consoante o número de coisas que possuímos. Bom, não apenas através do número de coisas que são nossas, mas fundamentalmente, e também, através do valor monetário daquilo que possuímos.  

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