XXXI
Rui Carvalho: Segundo afirmas, o inconformismo é um sintoma de algo que classificas como doença da verdade. Estamos então perante uma patologia? O inconformado está doente? Está doente e precisa ser curado?
Void: O doente de verdade sofre a patologia da inadequação. Ora, o que é isso a que chamamos de inadequação e porque é que se trata de uma patologia? Acontece que ao inadaptado não lhe chega a realidade das coisas a ser. O sendo das coisas é volátil, dá-se-nos a uma velocidade estonteante. Tanto a velocidade quanto a volatilidade são empecilhos ao conhecimento. É impossível conhecer aquilo que está constantemente a ser de várias maneiras e modos. O crescimento e a deterioração da matéria são sinónimos ao mundo. Contudo, como aceder à verdade daquilo que é o seu próprio deterioramento?
Inadequado às estratégias da mundanidade, o doente de verdade necessita adquirir um foco de sentido, necessita ter a realidade parada perante si de modo a poder auscultá-la. Para que tal aconteça, o primeiro passo é estar só. Somente na solidão a realidade nos pára. Junto com o ruído de todos os outros é impossível a concentração. O doente de verdade precisa da lonjura dos outros para estar perto da paragem do mundo. O doente de verdade é pois no âmbito da solidão. É só e quer estar só. É no decurso dessa vivência da solidão inerente à paragem do mundo que se verifica o acontecimento fulcral do tédio. O tédio. O tédio é a sintomatologia do mundo a ser-se, sendo que essa sintomatologia do mundo a ser-se é sentida no cerne da vida do doente de verdade. A vida é precisamente o tédio a acontecer-nos. A sintomatologia do tédio deriva do sentir a constante e eterna repetição do mesmo. É justamente a vivência dessa sintomatologia do tédio a acontecer-nos que enforma o artista enquanto tal. O auscultamento da realidade é o oficio do artista. Refiro o artista enquanto criador, enquanto ser que age a realidade, que a molda consoante novas formas de ser e de pensar. O artista molda a entediante realidade numa qualquer outra coisa mais excitante. O primeiro movimento criativo consiste no atolamento na mesmidade. Atolado na constância do ser mesmo das coisas o artista entra em turbilhão. É precisamente aí, no decurso do turbilhamento, que ocorre a criatividade. Na criatividade o artista gira em turbilhão. É aí que encontramos a génese do acto criativo.
É neste contexto que o artista se torna actor. O actor é aquele que age a realidade, aquele que não se conforma com aquilo que o circunda e que não se conformando com aquilo que o circunda o transforma ou pretende transformar numa outra coisa.
Sim, até certo ponto podemos dizer que o inconformado é uma pessoa doente. É uma pessoa doente porque não consegue adequar-se à realidade tal qual ela é. Contudo, é justamente esse inconformismo que molda o húmus do mundo, que transmite ao mundo o grau de excitação que nos impede de morrer de tédio. Sem arte, sem artistas, sem doentes de verdade, qualquer humano com pelo menos três neurónios a funcionar ao mesmo tempo rapidamente morreria de tédio. Não, não há cura para a doença da verdade. Há a estupidez, mas a estupidez não nos cura de nada. Muito pelo contrário, a estupidez é a origem de todo o mal.
Tive que ler duas vezes, mas valeu a pena, muito bom
ResponderEliminarMuito obrigado Inês!
EliminarE sim, tens razão quanto à dificuldade de leitura. Eu próprio tenho por vezes dificuldade em entender-me. Mas acho que Mr. Void aclarará no n.º XXXII aquilo que quis dizer no n.º XXXI.
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