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domingo, 9 de abril de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XXXII

XXXII

Rui Carvalho: se o mundo é em constante devir, se o mundo está constantemente a ser o outro de si mesmo, como se verifica esse atolamento na mesmidade? Como é que a mesmidade acontece num mundo que nunca é o mesmo? Como é que esse atolamento na mesmidade nos mostra o mundo tal qual ele é? Como é possível acedermos à verdade? Como é que podemos aceder a qualquer tipo de certeza, por mínima que seja?

Void: o mundo é a eterna repetição do mesmo. Contudo, nada permanece igual a si mesmo no decurso desse processo de eterna repetição. Basta contemplarmos uma fotografia nossa quando adolescentes ou quando éramos crianças, compará-la com quem hoje somos. Qualquer semelhança é quase mera coincidência. 
Somos outros sendo os mesmos que éramos. Há uma identidade que percorre as nossas vidas. É em função dessa identidade que nos erigimos como pessoas. O mesmo acontece com tudo aquilo que nos rodeia. Não obstante o constante processo de deterioração que é imanente ao mundo enquanto tal, há uma identidade que percorre os vários momentos constitutivos do ser a ser-se. A esse processo chamamos devir. O devir é a nossa única realidade. Tudo aquilo a que temos acesso é a essa amostragem do ser a ser-se. Acho que não podemos chamar-lhe “verdade” em sentido pleno. Tudo aquilo a que podemos ter acesso é uma mostragem do mundo. A “verdade” é-nos dada como amostra, é-nos mostrada ou desvelada. Nada nos é dado no âmbito da certeza. 
Nossa única certeza é sermos entre o nascimento e a morte. 
Somos as várias etapas entre o nascer e o morrer. O que verdadeiramente conta é o modo como nos exercemos no decurso das várias etapas que constituem as nossas vidas. Podemos exercer-nos melhor ou pior. Podemos nem sequer exercer-nos. A maioria das pessoas jamais se exerce ou exerceu. O que conta é o modo como tentamos ou não tentamos moldar o mundo. Podemos falar da realidade como sendo uma espécie de húmus que pode ser por nós moldado. Podemos tornar o mundo um pouco mais belo ou um pouco mais estúpido. Isso depende do modo como nos exercemos, do modo como cada um de nós se exerce. 
É fundamental que nos deixemos atolar na mesmidade, que nos deixemos tocar pelo tédio, pelo tédio resultante da eterna repetição do mesmo. Que nos deixemos rodopiar pelo tédio, que o tédio nos impregne na vontade de mudar o mundo, de moldar o mundo na beleza. Sim, o húmus do mundo é moldável. É fundamental que possamos moldar o mundo no sentido da beleza, que constantemente nos exerçamos contra a estupidez, a cada passo dado. É fundamental que não nos deixemos ser gente meramente quantitativa. Que nos ergamos contra o mal da estupidez, contra o homem quantitativo, contra o homem meramente quantitativo, contra um mundo meramente quantitativo. A estupidez é deixarmos que nos moldem, a nós e ao mundo, como entidades meramente quantitativas. 

2 comentários:

  1. Bem! Não li duas mas três vezes este pensamento, e é muito interessante o ritmo e o modo como descreve este processo de mesmidade, como um loop, porém se:
    "É fundamental que nos deixemos atolar na mesmidade que nos deixa tocar pelo tédio," mas se assim for como nos podemos erguer contra o mal da estupidez, contra o homem quantitativo......contra o mundo meramente quantitativo? Se estamos atolados na mesmidade?

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    Respostas
    1. Porque somente no tédio, somente vivenciando o tédio nos nasce a vontade dele sairmos. Somente atolados na mesmidade crescemos na vontade de tentar sair desse loop entediante. Talvez assim seja. Somos a nossa vontade. A nossa vontade pode moldar o mundo, pelo menos até
      certo ponto.

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