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terça-feira, 3 de outubro de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XL


XL
Rui Carvalho: E quanto à imposição do medo como fonte de governação?
Void: A imposição do medo como fonte de governação é um advento que está directamente relacionado com “a tese do fim da história”. Sendo que a tese do fim da história se relaciona por sua vez com o fenómeno da “astúcia da razão” e com o seu modo de funcionamento. A astúcia da razão tem um funcionamento fenomenológico que lhe é próprio. O progresso histórico não deriva de um continuo desenvolvimento “racional” das sociedades humanas. Pelo contrário, é a cegueira da paixão que impele os homens para o conflito, para a revolução, para a guerra. A astúcia da razão. A razão não é um fenómeno puramente “racional”. A racionalidade é imbuída na paixão. É imbuída na paixão que a racionalidade adquire a forma da astúcia da razão. A astúcia da razão é o advento que faz funcionar o mundo, que faz mover o mundo. No seu funcionamento, a astúcia da razão desenvolve-se dialecticamente, não obedece propriamente a um processo histórico de índole evolutivo. Ao discernirmos a história da razão humana estaremos desde logo a discernir, também, o modo de funcionamento do mundo. A razão funciona, desenvolve-se de forma dialéctica. A razão humana prescreve-se num intenso processo de conflito consigo mesma, ocorre num intenso processo de continuados conflitos internos. A dialéctica. A dialéctica é a força motriz da razão. Sendo a força motriz da razão é também a força motriz que move o mundo. A história humana corresponde a um processo de avanço continuo no cerne da conflitualidade. Os conflitos. A conflitualidade. A conflitualidade colide os diversos sistemas de pensamento, os variados sistemas políticos colidem e desmoronam. As contradições internas dos sistemas conduzem os sistemas ao colapso. Os antigos sistemas desmoronam e são substituídos por outros menos contraditórios. 
A dialéctica. 
A questão que se coloca é se existirá um fim para o processo histórico? Se é possível conceber o fim da dialética? Se é possível conceber a razão humana destituída das suas contradições internas? Se é possível conceber um mundo sem contradição? Sendo a contradição imanente no mundo, como pode haver mundo sem contradição? Como poderá haver um mundo sem mundo? Um mundo de onde a dialéctica se ausentasse seria um mundo perfeito, um mundo no qual existiria a liberdade plena e a plena felicidade. Será alguma vez possível a realização da liberdade na terra?
O neo-liberalismo vende-nos essa ideia, a ideia que se encontra finalizado o processo de realização da plena liberdade, da plena felicidade na terra. O neo-liberalismo defende que o processo histórico não é algo que possa progredir indefinidamente. Segundo a propaganda neo-liberal, o processo histórico caminha para um fim, sendo que esse fim é justamente o neo-liberalismo.  A teleologia. A crença teleológica na implementação de sociedades de tal modo livres que não haja mais liberdade a conquistar. A conquista da felicidade plena. O fim da história. A plena conquista da liberdade e da igualdade são os princípios fundamentais do moderno estado liberal. O estado liberal é tido como estando ausente de contradições internas. O estado liberal traz-nos o fim da dialéctica, o final da história. O moderno estado liberal. O moderno estado liberal é a  personificação da liberdade, do progresso da história universal da humanidade até à elevação do homem à racionalidade plena. A racionalidade plena é alegadamente expressa no liberalismo.
As sociedades liberais assentam na conquista dos mais elevados graus de riqueza material e de estabilidade política. São sociedades, alegadamente destituídas de quaisquer resquícios de contradições internas fundamentais. São sociedades auto-satisfeitas e auto-sustentadas nas quais ocorre o mais livre fluir da actividade económica. A modernização. A modernização é implementada através da conquista de níveis de riqueza e prosperidade sem precedentes. O desenvolvimento industrial. O desenvolvimento industrial é guiado num padrão de crescimento coerente. Tão coerente que acaba por originar determinadas estruturas sociais e políticas universais e uniformes nos diversos países e culturas.
O medo é-nos imposto a partir da instalação da ideologia da crise. A ideologia da crise faz-nos temer a astúcia da razão, faz-nos temer a dialética do mundo. A ideologia da crise mostra-nos um único caminho possível, a rendição, a total submissão aos mercados financeiros, às premissas que nos são impostas pelo funcionamento dos mercados financeiros. Os mercados financeiros são-nos dados como uma espécie de Deus ex-machina que faz mover o mundo, que impede a prossecução da conflitualidade. É-nos inculcada a ideia da desobediência como pecado. O grande pecado do mundo é a desobediência ao funcionamento dos mercados. Somos soterrados no medo da desobediência. A desobediência dos estados ao funcionamento dos mercados tem um preço, a bancarrota, os resgates financeiros, a vinda dos abutres, do FMI e das organizações supra-estatais designadas como Troica. O medo, somos governados pelo medo, somos soterrados pelo medo. 

Rui Carvalho, s. d.

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