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sábado, 5 de agosto de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XXXVIII

XXXVIII

Rui Carvalho: a génese da Hidra do capitalismo institui-se então a partir da imposição do não valor como valor e da imposição do medo como fonte de governação. O exercício da perfídia é a condição que nos move, é a condição que possibilita o funcionamento do capitalismo financeiro?       
Void: O triunfo do capitalismo financeiro representa a tomada de assalto da economia e do poder político por parte dos banqueiros e da alta finança. Sim, a imposição do não valor como valor e a imposição do medo como fonte de governação são as duas condições primordiais do exercício da perfídia. Ou melhor, o exercício do capitalismo financeiro e o exercício da perfídia estão tão interligados entre si que se tornam uma e a mesma coisa. 
Vivenciamos uma mudança histórica no que concerne ao paradigma que funda as estruturas societárias, principalmente no mundo ocidental. Especialmente o mundo ocidental. Especialmente no que concerne à estrutura societária europeia. A mudança de paradigma. A mudança de paradigma deriva da transição de um modelo de sociedade que teve como base o capitalismo económico para um modelo de sociedade que tem como base o capitalismo financeiro. A transição entre estes dois modelos de sociedade é aquilo que está na origem da hecatombe social e política que devasta nesta altura os países da Europa do Sul e que acabará por devastar inevitavelmente a própria Europa e o modelo social europeu tal como o conhecemos.
O capitalismo económico encontrou os seus alicerces na revolução industrial e na correlação entre dois factores fulcrais, a saber, o trabalho e o capital. Neste tipo de sociedade, porque o capital não era auto-multiplicável a partir de si próprio, mas sim a partir da força de trabalho que constituía a sua alavancagem, a obtenção do lucro, o objectivo primacial deste tipo de sociedade, era completamente dependente da força de trabalho. Assim, a correlação entre o factor trabalho e o factor capital era visceralmente interdependente e como tal a relação de poder entre os capitalistas, os investidores, e a forca de trabalho, os operários, representados pelos sindicatos tinha vários factores de amortecimento que impediam a total subjugação do factor trabalho ao factor capital. As várias conquistas sociais transcritas no modelo social europeu resultam desta simbiose, desta simbiose entre trabalho e capital.
O problema. Os problemas derivam da instituição do capitalismo financeiro. O paradigma do capitalismo financeiro possibilita que o capital seja auto-multiplicável a partir de si próprio. O capitalismo encontrou maneira de prescindir do factor trabalho. O trabalho deixa de ser fundamental na obtenção do seu objectivo primacial. O lucro. O lucro financeiro pode agora ser obtido a partir do nada. O lucro financeiro pode ser obtido a partir da mera especulação. A mera especulação e a criatividade associada aos produtos financeiros permitem que a riqueza se auto-multiplique a partir de si própria. Os investidores, os capitalistas não necessitam mais preocupar-se com trabalhadores e sindicatos. Não necessitam mais preocupar-se em lidar com o poder dos trabalhadores e das organizações sindicais. O lucro. O lucro é agora o lucro pelo lucro. O capital depende de si próprio. Pode auto-multiplicar-se de um dia para outro. É desnecessário aguardar anos, décadas para que os investimentos se tornam viáveis e lucrativos. O capital é agora auto-suficiente. A auto-suficiência capitalista é a gangrena do mundo ocidental. O mundo ocidental e o seu estado de providência gangrenam ao peso do jugo capitalista. A lógica e a dinâmica do contrato social perdem cada vez mais sentido sob o jugo da gangrena do capitalismo financeiro.
A partir do momento em que são os próprios governos e os estados a sucumbir perante este estado de coisas, tornando-se reféns dos denominados mercados financeiros e tomando mesmo partido como defensores dos bancos e da alta finança, aquilo que se verifica é um claro rompimento do contrato social. Os governos que deveriam funcionar, na sua essência, como verdadeiros reguladores e estabilizadores da vida em sociedade encontram-se neste momento de tal modo conluiados e manietados pela teia habilmente urdida pelo sistema financeiro que são eles próprios os impulsionadores dos mais hediondos desequilíbrios sociais. Quando se exige a um assalariado que aufere rendimentos mínimos que contribua para o financiamento da banca, torna-se por demais evidente que estão claramente a ser ultrapassados os mais elementares limites do decoro e da mais elementar ética política e social. Quando se exige a um desempregado, ainda que a receber subsidio de desemprego, que desconte parte desse subsidio para obstar a falência do sistema bancário está-se a cometer um acto hediondo, um acto criminoso.
Se tudo isto não se trata de um claro exercício da perfídia...

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