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quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Útero - VIII - Fotografia: Sónia Nobre; Texto: Rui Carvalho



São as perspectivas que nos dimensionam o olhar, tudo o resto em seu redor. Olhando compulsivamente na mesma direcção somos adquiridos nas paisagens. A habituação enforma-nos ao ponto de nada vermos excepto o que nos é oferecido. 
É isto: 
o oferecimento do mundo tolda-nos os olhos, e de olhos toldados caminhamos a inoquidade. Em pouco tempo tornamo-nos o que pretendem: vozes acéfalas votadas à familiaridade do mundo. É a familiaridade das paisagens que nos incute a estar aí sem mais. 
Ainda assim, há quem se anseie no tropeço, quem caminhe a possibilidade última de sentido. 
É pois necessária uma devoção, um fito elevado à máxima potência, qualquer coisa como a arte tornada vida, ou, vice versa. É fundamental transbordar as possibilidades, todas as direcções. Treinar depois o vertiginoso acto de estar só, fazer com que o solipsimo vingue o inaudível murmúrio do mundo. Saber ensaiar-se na arte do salto, o primeiro gesto que nos ocorra. Correr velozmente em direcção ao precipício e estancar no último instante. Aí permanecer o tempo necessário à paragem do coração. 
Olhar então em redor e ver tudo de novo, auscultar a realidade, o olhar primevo.

Aguardar que o coração nos ocorra, pela primeira vez.

Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

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