Que as divindades nos re-enviem a destruição, o mito do dilúvio; o mais humano desejo - a vida.
Que chova a potes, direi:
necessitaríamos esticar as cordas vocais até ao rebentamento dos tímpanos. Talvez desse modo o humano pudesse deixar de ser “isto”, esta coisa chafurdando a inocuidade. Seria necessário sermos adquiridos na arte de nos fazer doer a voz. Que na voz doída soubéssemos re-interpretar-nos nos sonhos.
Alguém teve o talento de construir a arca onde vagarmos os oceanos. Sim, sempre houve quem tivesse o dom de predominar na beleza.
A arte.
A arte aqui está, basta deixarmos que nos perpasse.
Somos contudo falhos de sabedoria. Falta sabermo-nos adquirir no dom do embarque, sabermos que sem embarcarmos jamais desembarcaremos, jamais deixaremos de ser a vil mesquinhez.
Entretanto.
Nada terá valido a pena quando as águas baixarem se quando as águas baixarem o mundo voltar a ser o mesmo, se continuarem a existir arco-íris mas nenhuma promessa que grasse.
Fotografia: Sónia Nobre
Texto: Rui Carvalho

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