Eis-nos a fragilidade dos pássaros, o instante em que a cera das asas nos anseia os raios solares. Tocado na urgência de voar sobre Creta, raso agora a impertinência. Eu, o Homem habitado pela morte, pela estranha necessidade de sobrevoar os labirintos.
Após a prisão de Dédalo temo a minha continuidade, o aprisionamento no solo. Por isso unto-me de cera nas penas de gaivota e treino a aproximação ao Sol.
São estas as possibilidades:
- voando muito baixo serei refém da humidade;
- voando demasiado alto derreterei junto às chamas.
Não há nada de intermédio. Pelo menos não há nada de intermédio a que se possa chamar vida.
Entretanto, poderia cegar os olhos e seguir a indiferença. Vagar-me na penumbra das coisas úteis e aí deixar-me aprisionado.
Logo eu não me saber ser os outros e ao contrário dos outros não saber viver a iniquidade.
É isto:
serei tolhido pelos labirintos que criei enquanto o mar Egeu treina o curso de seu riso.
Fotografia: Céu Baptista
Texto: Rui Carvalho

Muito bom, e está claro na companhia de excelente imagem, bravo 👏🏼
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