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quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Desertos - VIII - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho



A subida é uma escalada incerta e o fôlego é impreciso. Gasto-me, entre a proeza do equilíbrio e a ciência da respiração. O esgotamento das possibilidades leva tempo, muito tempo. A respiração é curta para tanto caminhar. Em cada degrau me restabeleço. Paro. Paro, por um segundo que seja. Em cada paragem a visão torna-se mais abrangente. A cada passo dado sou mais seguro ao vento, quase perto de voar.
A segurança não é ter corrimões onde me agarrar, a segurança é ser-me cada vez mais perto do desequilíbrio. 
Adquirir a ciência da queda, precaver o amortecimento dos ossos no chão, ser o truque do domínio. Ser autárquico. Pouco mais que um punhado de livros abertos entre as mãos. 
Ter contudo saudades; da música, das mulheres nuas dançando entre meus dedos. Ter saudades da fortuna e ainda assim persistir. Olhar para baixo, olhar para baixo e ser tão alto. Sonegar o tempo à estupidez. Optar pela dificuldade quando aos outros tudo parece tão simples. Esgotar tudo o que se tem naquilo que é valioso. Recusar o chamamento da publicidade. Recusar a publicidade dos dias. Não correr. Discorrer. Ganhar fôlego no cansaço. 
Trazer-me poemas nas mãos. Nas mãos trazer-me ciladas onde me fazer cair, quase devoluto. Tropeçar-me a inexistência de claridade, continuadamente. Ser incerto, de ternura incerta, peito aberto e também ele incerto, ofuscado na penumbra. Inciso, impreciso, imprestável para a calibragem do mundo.
Não correr. Discorrer.

Tão só subir, tão só subir à vertigem de ser tão alto.

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