Ao avesso da Maratona
Algures, na honra e coragem forjadas
receando porém a junção de sua humilhante violação
ao sacrifício de nossos filhos,
as mulheres quedadas perante a iminente chacina persa marchando sobre Atenas.
Mulheres temendo a mais terrível das escolhas:
o inelutável suicídio ou a personificação da derrota.
Partira dias antes, junto com os soldados atenienses
e breve alcançara a planície de Maratona.
Erigidos em combate à afronta persa
nossos corpos tornar-nos-iam unos, para que unos ansiássemos mulheres e filhos.
A mim, Filipides, fora incumbida a tarefa de iluminar toda uma cidade
na boa nova da vitória grega sobre os persas.
Não sem o concurso da divina e alada ajuda de Hermes
corri veloz sobre Atenas,
comigo transpondo a almejada notícia.
Situada a vastos quilómetros de Maratona,
de onde havíamos repelido a ousadia persa,
necessário seria agora que a distância entre o campo de batalha e a doce acrópole
fosse com urgência elidida, de modo que
tal luz em suas vidas se nos desse.
Ao avesso da maratona por mim vencida,
o vislumbre exangue da meta jamais me aproximaria da singular e inaudita glória.
Eu, o dilacerado na voragem do Tempo.
Aquele a quem a distância transcorrida se tornara mais vasta que a distância a transcorrer.
Filipides,
o mais bravo dos atletas, o predestinado à celebração da vitória
breve tombado na extrema dureza do esforço.
Filipides,
aquele a quem num último sopro de vida apenas uma prece me foi dado proclamar:
"Eis o meu fardo, eu o sacrificado à vitória Grega!"
Ó vós que pelo tempo dos relógios vos guiais
na inconstante busca do vil metal constrangendo vossos bolsos,
para sempre olvidai o heróico feito de Filipides.
Pois tão só quando a voragem do heróico Tempo Grego
vos tragar de um só sorvo
estareis aptos a comigo proclamar a aguardada prece.
Rui Carvalho, s. d.
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