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domingo, 22 de janeiro de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XXIV

XXIV

Rui Carvalho: “criar raízes no sonho” é uma afirmação poética. Segundo o que afirmas parece que nos deveríamos firmar poeticamente. Contudo, essa é uma condição periclitante que exige de nós uma “estrutura óssea” quase à prova de bala. 

Sebastien Void: claro que sim, a firmação poética implica que se tenha de ir continuamente de encontro à sólida estrutura do mundo. O desprezo. O desprezo é o sustento daqueles que se firmam poeticamente. O desprezo é uma categoria ontológica fundamental. A estrutura óssea daquele que despreza é efectivamente quase à prova de bala. Somente o exercício do desprezo nos permite coabitar lado a lado com a estupidez. Na sua generalidade as pessoas são estupidamente entediantes. Este é um facto que nos recusamos aceitar. A entediante estupidez das pessoas transmite-se ao mundo, cola-se a tudo o que mexe. Basta ligar a televisão num período de pico de audiências para nos apercebermos desse facto. 
Aquele ou aqueles que se firmam poeticamente estão constantemente a estatelar-se contra a solidez das coisas. Aquele que se afirma poeticamente tem necessariamente que precaver-se contra o embate, tem que ser pois munido de todo um arsenal de resistência que lhe permita continuar a levantar-se após a constante iminência da queda. Neste contexto a faculdade de “criar raízes no sonho” implica que sejamos forjados na dureza. O desprezo. É o exercício do desprezo que nos permite o treino na dureza 
O mundo deveria estar dividido do seguinte modo: cumpridores e incumpridores. O talento. Deveríamos adquirir o talento do incumprimento. Deveríamos ser o talento de incumprir. Deveríamos deixar-nos germinar no sonho. A arte é o talento de sonhar acordado. Como não percebemos ainda a importância do acto de sonhar? Antes de sermos instruídos, antes de nos deixarmos levar na peripécia do mundo, estivemos perto de ser o que deveríamos ser. Crianças brincado com o fogo. É isso. Deveríamos ser crianças, continuamente brincando com o fogo.  
Estar adestrado para cumprir ou exercer uma função não significa necessariamente que se é um homem instruído. Pelo contrário, a educação consiste num esforço constante, num esforço continuo para nos superarmos. Contudo, numa época em que vivemos sob o jugo do quantitativo, a superação de si próprio é sempre derivada para o plano da quantidade. Preocupamos-nos em demasia com o facto de sermos melhores profissionais, com a nossa capacidade de produzir mais trabalho, mais dinheiro, e não em superarmos as nossas estúpidas e mesquinhas existências. Ser o âmbito da superação. Estar apto a sobrevir as feridas causadas pelos incêndios. Pilhas de corpos a arder, emitindo sinais por entre as chamas, é isso que deveríamos ser.  
Contudo, somos modernos. Somos todos muito modernos. Tornámos a modernidade um tempo em que qualquer descritor de pechichés é considerado um escritor. A modernidade e a pós-modernidade. O raio da modernidade. O após tudo, o após todas as coisas. A modernidade é um tempo que qualquer um, qualquer labrego pode ascender ao poder. Desde Passos Coelho a Donald Trump. A trampa tornou-se o cerne do mundo. 

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