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segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

Desertos - V - Fotografia: António Caeiro; Texto: Rui Carvalho


Ser o sucesso do corpo; ser amado pelas jovens mulheres antes da noite chegando. Curvilíneo, em curva gravitar o vórtice dos dias; impacientemente percorrer o estrondo do mundo até ao enegrecimento da carne. Ser tangente. Ao contrário da paciência, ser a primeira e última vez de todas as coisas. 
Não esquecer nunca de envergar as sístoles e as diástoles como um troféu. 
Em queda. Ser em queda. Quedar-me quase exangue de mim e dos outros. Ser farto. Estar farto de tudo e de nada. Procurar as formas e, com as formas, enformar a matéria. 
Matar o tédio caindo em todos os precipícios. Cair. Cair e, de seguida, reerguer a queda. 
Ser a escalada das montanhas. Escalar montanhas com a dúvida às costas. Deixar depois a dúvida incrustada no cume, por cima da estupidez. 
De rosto descoberto. Descobrir o rosto para que as lágrimas vertam na nudez. Ser ao contrário da contrariedade do mundo. 
Deixar que as lâminas me cortem, que o aço incida minha carne. Tornar-me duro. Ser o aço por dentro. 
Não representar papéis além do estritamente necessário. Sobrevir a dor. Não deixar nunca que a discrepância transpareça.
Ser o aço por dentro. Não deixar nunca transparecer que assim não é. 

Jamais; não esquecer jamais que assim deve ser.

Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

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