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sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Entrevista a Sebastien Void - XXIII

XXIII

Rui Carvalho: a criação de raízes de que falas estabelece-se num solo que poderá de algum modo ser considerado difuso ou mesmo irrisório. A faculdade do gosto é encarada no âmbito da subjectividade do sujeito que gosta. Encontrando-se encarcerada na subjectividade do sujeito que gosta, a faculdade do gosto é dada como subjectivamente válida para todos e cada um de nós. Cada um gosta do que gosta e ponto final. É assim que o gosto é socialmente pensado. Como podemos então ganhar raízes no âmbito da subjectividade?

Sebastien Void: desde cedo, desde cedo somos impregnados na falácia da indiscutibilidade do gosto. Se encarada meramente no âmbito da subjectividade do sujeito que gosta, a faculdade do gosto é desde logo desenraizada de qualquer sentido. Se encararmos os sujeitos gostativos como iguais entre si, caímos rapidamente no facilitismo da invalidação axiológica do acto de gostar. Se o gosto de um determinado sujeito for sempre encarado como tão válido como o gosto de qualquer outro sujeito, quem quer que seja, soterramo-nos sem mais no axioma da indiscutibilidade do gosto. Contudo, mais grave ainda que o axioma da indiscutibilidade do gosto é o paradigma do gosto dos muitos. O “gosto” dos muitos é-nos dado como imposição, como algo indiscutível. Para os muitos não há bom gosto nem mau gosto. Gosta-se porque se gosta, sem mais discussão. E aquilo de que gostamos com os muitos tem necessariamente que ser, não só tão bom, mas indiscutivelmente melhor que aquilo que os poucos gostam. 
Se há alguma coisa acerca da qual se possa verdadeiramente discutir, essa coisa é o gosto. Vivemos num paradigma quantitativo, somos diariamente soterrados no peso das quantidades. Tornámo-nos seres perfomativos. Somos diariamente quantificados, avaliados na nossa performance. Somos pouco mais que dados estatísticos. Somos considerados tanto melhores quanto mais produzimos, não interessa bem o quê. Interessa que produzamos algo que possa ser consumido, que possa ser assinalado como lucro. É dai que provêm os valores que centram a ética das sociedades de consumo. 
O caso mais paradigmático da deriva estética/ética na hodiernidade é a eleição de um tipo verdadeiramente e autenticamente imbecil como presidente da mais poderosa nação do mundo.  Vivemos tempos perigosos. Vivemos tempos perigosos quando a boçalidade é tornada governo do mundo. Pior ainda que a boçalidade, o pior do humano. Toda a ganância, toda a mesquinhez, toda a perfídia, toda a insídia, o pior do humano tornado poder. A vitória do mau gosto dos muitos é a derrota da humanidade. É isso. Vivemos dias de derrota para a humanidade. 
Contudo, sem dúvida que podemos adquirir raízes. Ganhar raízes só depende de nós. Somos responsáveis pelos passos que damos, pelos territórios que decidimos percorrer. O gosto educa-se. Deveríamos educar-nos na faculdade do gosto. Deveríamos ser olhos dirigidos ao belo, a cada instante. Tudo depende de nós e da nossa capacidade para germinar no sonho, para criar raízes. 

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