Jamais vi flores nascer ou vicejar, qualquer outra coisa que não o inabitado desalento. Ainda assim, alguns frutos adoçam o sabor desta derrota: os mortos escrevendo livros para que a vida lhes sossegue; como loucos, mentindo tanto quanto possível. Mais ninguém sentou este colo a não ser eles, os loucos mortos que me visitam.
Assim me é o mundo desvelado. A rarefação de sentido no esforço da respiração. Inspiração e expiração expiando o antro das coisas. Todas as derrotas dadas na breve vitória da criação.
Um dia, em tempos idos, a potência do mundo aqui foi dada em acto. O mistério das horas pareceu coisa pouca. Representáramos a presença do fogo a uma distância segura e assim sobrevimos as queimaduras em nossas peles.
Agora aperfeiçoo a queda e o tempo da queda. Sou suspenso, entre o passado e o futuro. Gravito em torno de algumas memórias, coisas nunca acontecidas. Quando criança ardia fósforos entre os dedos. Acho que já então previa a preciosidade do fogo, ardendo por dentro das coisas. Tudo agora é tão perto que quase sempre me queimo. Antes não era assim. Antes havia uma distância que me separava dos objectos. Essa distância precavia meu corpo das queimaduras. Agora ardo-me tanto que sou quase em cinzas, uma ferida aberta por dentro da pele;
Ardendo-me.
Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho
Fotografia: António Caeiro
Texto: Rui Carvalho

Tão bonito! Adoro
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